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Bancários portugueses em “Fadiga Severa”

Socorro, estou exausto…
“Da revista Sábado”

Burnout – ou fadiga severa - atingiu 8,2% dos bancários em 2013
A fadiga crónica ou esgotamento severo, vulgo burnout, foi contabilizada por Mário Rui da Silva Mota (representante dos trabalhadores numa instituição bancária). Num dos raros estudos sobre o tema, o autor chegou a um número: 8,2% dos bancários sofria de burnout em 2013. Apesar de reduzido, é um valor “que não pode deixar de merecer reflexão e, naturalmente, de intervenção em saú- de ocupacional”, diz à SÁBADO o autor da tese e também bancá- rio, de 50 anos e 26 de experiência. A maior prevalência estava na ansiedade: 49,2% dos inquiridos queixavam-se deste sintoma.
Os resultados encontram-se na dissertação de mestrado sobre a saú- de ocupacional de trabalho administrativo, apresentada na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova em Setembro de 2013. Mário Rui aponta as causas para o desgaste extremo: um dos aspetos “está ligado à falta de transparência nas avaliações de progressão na carreira”; outro, “à injustiça na forma como os sistemas de avaliação são aplicados.” A agravar o quadro, juntam-se “a pressão do negócio e a cultura organizacional.” O questionário realizou-se via online, através da ligação eletrónica à plataforma de formulários do Google. Entre Julho e Agosto de 2013, foi distribuído a 5.000 profissionais do sector – do Banco de Portugal, à Caixa geral de Depósitos, passando pelos extintos BES e Banif, Santander, BPI, Caixa de Crédito Agrícola, Montepio e outras instituições mais pequenas. Somente 906 pessoas responderam. O autor não sabe como justificar a baixa taxa de adesão.
Francisco Miranda Rodrigues, psicólogo, alarga o debate à “arquitetura do sistema financeiro”.
Numa crónica do jornal do Público - O sistema financeiro precisa de ajuda psicológica? - , publicada a 31 de Dezembro de 2014, o especialista defendia que a banca e os órgãos regulares deviam integrar psicólogos. “Poderiam ajudá-los a exercerem a sua função de forma mais eficaz”, escrevia.
Presidente do Novo Banco (…) não nega que houve momentos “particularmente difíceis” no período de transição do BES (cujo fim foi decretado em Agosto de 2014) para o Novo Banco. No rescaldo da crise profunda, tem a convicção de que é tempo de estabilizar. “Temos uma lógica de mais comunicação. Precisamos de passar uma mensagem de normalidade.” Diz. (…)


Quem é o próximo a sair?

O processo de venda do banco “segue o seu curso”, diz António Ramalho, frisando que a pior fase já passou. Paula Ferreira Borges, diretora de recursos humanos, reitera o presidente. “Não há registo de colaboradores com esgotamentos. Depressões há, mas muitas não estão registadas.”
Sobre as saídas, a responsável avança que, em breve, vão retirar-se 219 pessoas. “Quando se concretizar a venda das unidades internacionais [em França, Macau, Cabo Verde], prevista até ao final do ano.” A meta é chegar a Junho de 2017 com uma redução de 1.500 trabalhadores face a Novembro de 2015 – um compromisso com Bruxelas, caso não se concretize o negócio.
Contas feitas, já saíram 1.048 profissionais do grupo Novo Banco de um total de 7.400, entre Novembro de 2015 e Outubro de 2016. A esmagadora maioria optou por reformas antecipadas e rescisões amigáveis. A seleção dos dispensáveis teve por base quatro crité- rios: avaliação de desempenho, absentismo, habilitações académicas e custo (salários quando comparados com colaboradores com a mesma função).
A primeira abordagem, presencial, foi feita por uma parte da equipa de recursos humanos (20 elementos do total de 60 foram destacados para o processo) e advogados de uma sociedade externa. Caso os convidados a sair não aceitassem, a solução passaria por despedimento. Aconteceu a 49 pessoas do grupo, notificadas para o efeito em Junho e despedidas entre Agosto e Setembro passados.
O drama da reestruturação – leia-se emagrecimento dos quadros – teve o seu ponto crítico no decorrer de 2016. “Não estávamos emocionalmente preparados. Foi devastador. Muitas vezes chorávamos ao final do dia”, conta Paula Ferreira Borges. Por questões sociais, mantiveram 20 pessoas, “em situações familiares de contexto dramático que o banco desconhecia.” Exemplos: uma mãe com um filho com deficiência profunda exclusivamente a seu cargo; ou uma grávida com um quadro depressivo crónico.
O caso mais dramático aconteceu no final de Maio, quando um bancário, de 54 anos, se atirou de um nono andar após 29 anos ao serviço do banco. Rescindira contrato com o Novo Banco dois meses antes. Houve ainda colaboradores que não aceitaram as rescisões por mútuo acordo (o processo terminou no final de Abril) e, mesmo sem trabalho, “insistiram em apresentar-se ao serviço”, conta a responsável pelos recursos humanos, classificando esta fase de “mais polémica”. No início de Maio, a administração tomou medidas drásticas, retirando-lhes o livre acesso às instalações. “Aconteceu com duas ou três pessoas.” (…)

Com o clima de instabilidade, o espírito competitivo e o individualismo prevaleceram entre os colegas. “As pessoas atropelam-se. Está enraizada a cultura do egoísmo, a solidariedade e a partilha já não se praticam”, lamenta um colaborador. Prova disso foi o “dia de luto” que a comissão de trabalhadores quis implementar a 7 de Abril de 2016, em solidariedade com os colegas afastados. Os funcionários tinham de usar uma peça simbólica, negra - bastava um lenço ou gravata -, mas a ideia revelou-se um fracasso. (…)


Sindicato alerta para cansaço dos comerciais

Os bancos vivem da confiança dos clientes e, uma vez quebrada, é difícil recuperá-la.
Mas as exigências de resultados mantêm-se como antigamente. As pressões das chefias exercem-se, sobretudo, em lugares de desgaste rápido na área comercial. Gestores de conta, gerentes, subgerentes, administrativos e comerciais “interiorizam mais a situação”, alerta à SÁBADO António Fonseca, membro da direção do Sindicato dos Bancários do Sul e Ilhas.
Em tempos de retração, de recapitalização e de encerramento de balcões - com os serviços online a sobreporem-se aos administrativos in loco -, são os funcionários juniores que saem prejudicados. A banca aposta “em pessoas novas com vontade de progredir.” Mas o cenário não é animador, segundo o responsável. “Os bancos Montepio, Popular, BCP e antigo Barclays estão a reestruturar os seus mapas de pessoal com rescisões de mútuo acordo que, às vezes, de mútuo acordo têm pouco.”

     
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