Pesquisa

ok
Home»Nortada»Nortada Detalhe
 
Farmácias e suas histórias

No “Dia Internacional dos Museus”, que ocorreu na semana de 15 a 22 de Maio, visitei o Museu da Farmácia no Porto. Foi uma visita a um espólio rico, cheio de muitas novidades e raridades (por exemplo os vasos em que os mumificadores egípcios depositavam as diferentes vísceras da pessoa a mumificar), perpassando desde os primórdios da humanidade até aos dias de hoje. Foi um percorrer de 5 mil anos por diversas culturas e civilizações, procurando sempre o Homem todos os remédios e curas possíveis, enfrentando e desafiando a doença e a morte com que as diversas maleitas o iam tomando.
O museu refaz de modo admirável e único o património da farmácia portuguesa através da reconstituição da Farmácia Estácio, então localizada na Rua Sá da Bandeira, no Porto - estão lá todos as pastilhas e pomadas de há 50 e 60 anos e nas suas caixas originais. E a longa e sábia presença árabe na Península não é esquecida, através da reconstituição de uma farmácia islâmica do século XIX.
Os cartazes promocionais ainda são muito poucos, mas há um que, datado de 1926, perante a promoção de um medicamento que já não recordo, contém no seu plano inferior em letras com boa visibilidade: “À Venda nas Boas Farmácias” … O adjetivo “boas” era, no início do século XX, usado amiúde em termos publicitários, para provocar a distinção e a qualidade de produtos e serviços em “boas casas da especialidade”.
Esta visita ao Museu da Farmácia fez-me lembrar que há uma história profunda de Portugal no século passado, sobretudo no seu Interior, que passa pelo desvendar da evolução e do papel das farmácias nas comunidades rurais, constituídas estas por “gente dura e pobrinha” no dizer de Aquilino. Conheci bem de perto esta realidade como amigo e vizinho dos donos da Farmácia Pereira, em Vila Franca das Naves.
Era um dos locais de socialização, predominantemente feminino. Aí, a conversa sobre os esclarecimentos das diretrizes médico-medicinais em papel gatafunhado por doutor da especialidade, a espera das mezinhas e dos manipulados feitos no laboratório da parte de trás da farmácia, mitigava alguma solidão e permitia o passar do tempo em parlenga calma e pacificadora.
Em tempos de feira, distúrbios, brigas e disputas diversas, em que o sangue ia correndo por cabeças partidas e por ventres abertos, a farmácia e os seus farmacêuticos eram o refúgio e um tempo de paz necessário, mesmo para pessoas simplesmente embriagadas que a GNR, por vezes, ia transportando.
E mesmo gente sã passava pela farmácia como local de encontro e de difusão das últimas novidades da terra e dos arredores (os internamentos e as doenças mais graves corriam mais rápido que o vento), num ambiente pleno de humanismo, respirando-se saúde, fortalecendo-se assim o coração e a mente para o embate de todos os dias no “deitar contas à vida”.
Nos dias de hoje, com grandes transformações económicas e sociais, uma ida à farmácia, seja na vila do interior ou na cidade, ainda consegue constituir, na maior parte das vezes, um momento de afeto, de aconchego e um espaço de liberdade que a procura da saúde, feliz e necessariamente, induz. Ainda bem.

(Ângelo Henriques - Artigo publicado no Jornal Terras da Beira (Guarda) em 16 de Junho)

     
   Imprimir        Voltar        Topo
Copyright © 2007 SBN