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História das Abelhas (XIV) - O fojo de Camilo

Há muito que me espicaçava a curiosidade de passar em Vilarinho da Samardã, onde decorreu parte da juventude de Camilo Castelo Branco, o que teve, decerto, influência na sua obra literária.

Há muito que me espicaçava a curiosidade de passar em Vilarinho da Samardã, onde decorreu parte da juventude de Camilo Castelo Branco, o que teve, decerto, influência na sua obra literária. Um episódio das “Novelas do Minho”, o arcabuzar falhado de um lobo num “fojo” de onde não podia sair e para onde matreiramente fora atraída a fera, à conta de uma ovelha tinhosa que puseram como isco, valendo-se da falsidade humana em face da boa-fé da fera.
Passava com o tempo contado na estrada que leva de Vila Real a Chaves e adiava a visita. Pois, há dias fui lá de propósito. Almocei cabrito no Marão, que era mesmo cabrito, e fui à Samardã ver o tal fojo, onde Camilo espingardeou um lobo.
O caminho de terra batida que lá leva e que está sinalizado desemboca mesmo em frente desse fojo. Daí, num primeiro relance de olhos, não me pareceu um fojo, mas uma silha de cortiços, aliás bem localizada e bem exposta.
Estou certo de que, se Camilo estivesse familiarizado com as abelhas, como com as feras – não sei se apreciava o mel em migas de boroa ou com bagaço, quando estava encatarrado – não lhe chamaria fojo, mas silha, mesmo que aí matassem lobos.
Pela construção dos muros e pela área – uns três ou quatro mil metros quadrados – desnecessários, a meu ver, para lá atrair o lobo, duvido que tenha sido concebida para apanhar lobos, mas malhada usufruída por vários consortes abelheiros.
Não me parece, pois, que aquela cerca fosse construída para encarcerar lobos traiçoeiramente ludibriados, para lhe descarregarem um punhado de zagalotes de cima dos muros, a resguardo da fera. Ao que nos conta o romancista, ele não conseguiu acertar-lhe com um só, de tal modo que o bicho, acabado o tiroteio e deixado em paz, sentou-se sossegadamente ao lado da metade da ovelha que não comera e comeu-lhe o resto.
Mais tarde míope e depois cego, não tenho conhecimento se, em rapaz, não enxergaria um lobo parado, para falhar tantos tiros. Que eu não acredito que o lobo, com uma ou duas ameixas na pele, fosse capaz de continuar o banquete de presa tão fácil.

Em suma, não será de estranhar que o escritor desse por ali umas voltas ou às perdizes ou aos coelhos, ou por outras andanças visse aqueles muros e os imaginasse para encafuar lobos e, em segurança, baleá-los a seguir, tanto mais que deu para umas alfinetadas, tão fáceis em Camilo: “As minhas balas de chumbo, naquele tempo eram inofensivas, como as balas de papel com que hoje assanho os colmilhos de outras bestas-feras”. Indaguei por lá, muito de fugida, confesso, se dizia a tradição que era costume apanhar lobos naquele cercado. Tradição não encontrei nenhuma.
Será para os estudiosos de paredes velhas averiguarem, se valer a pena, se, na realidade era um fojo de matar lobos aquele de Camilo, ou se Camilo, como bom romancista, chamou fojo ao que era uma silha de assentar cortiços, por desconhecimento das artes de lidar com colmeias de abelhas e porque fojo era mais sonante para o seu jeito de escrever, onde o rigor não era condição de primeira necessidade.
É decifração para entendidos e talvez um assunto para o próximo congresso da apicultura, cujo um dos temas será “Muros-apiários da Península Ibérica. O mel e os ursos”.

João dos Santos Pimpão



“…De uma dessas vezes, pus sobre uns sargaços a Arte do padre António Pereira, da qual eu andava decorando todo o latim que esqueci; marinhei com a minha clavina pela parede por onde saltara a fera, e, posto às cavaleiras do muro, gastei a pólvora e chumbo que levava granizando o lobo, que raivava dentro do fojo atirando-se contra os ângulos aspérrimos do muro. Desci para deixar morrer o lobo sossegadamente e livre da minha presença odiosa. Antes de me retirar, espreitei-o por entre a juntura de duas pedras. Andava ele passeando na circunferência do fojo com uns ares burgueses e sadios de um sujeito que faz o quilo de meia ovelha. Depois, sentou-se à beira da restante metade da rês; e, quando eu cuidava que ele ia morrer ao pé da vítima, acabou de a comer. É forçoso que eu não tenha algum amor-próprio para confessar que lhe não meti um só graeiro de cinco tiros que lhe desfechei. As minhas balas de chumbo naquele tempo eram inofensivas como as balas de papel com que hoje assanho os colmilhos de outras bestas-feras. Este conto veio a propósito da Samardã, que distava um quarto de légua da aldeia onde passei os primeiros e únicos felizes anos da minha mocidade.”

Camilo Castelo Branco, em “O Degredado”

     
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