Pesquisa

ok
Home»Nortada»Nortada Detalhe
 
Uma “história” na primeira pessoa

No ano de 2010, trabalhava na cidade que escolhera para viver, gerente de balcão, caminhávamos para o final do ano, gozava a minha última semana de férias.
Estava em curso uma OPA sobre o banco, meu antigo patrão, e apressadamente fui “recambiado” para outra cidade, na mesma função. Não compreendi a decisão tomada, já que a minha unidade de negócio em seis anos tinha crescido, em volume, 15 milhões de euros. Nada mau para um balcão de um banco de pequena dimensão...
Esta inusitada decisão acabaria por se revelar em perdas materiais e patrimoniais elevadas, com repercussões negativas para mim e para toda a vida familiar. Coloquei a casa à venda, em razão da mudança do local de trabalho, mas o mercado imobiliário estava severamente afetado pela crise do subprime.
Quem dirige, seja por iniciativa própria ou mandato, quem toma arbitrariamente este tipo de decisões, a maior parte das vezes impensadas ou de supetão, não sabe ouvir ou tampouco conduzir pessoas. Lá pensam que ser diretor é, apenas, a capacidade de mando (quero e posso...). Nunca é levado em consideração que tais decisões interferem não só com a vida do trabalhador, mas também com a da sua família.

Moral da história, financeiramente perdi 90.000 euros, patrimonialmente, as poupanças de uma vida de trabalho, que reservara para os estudos dos meus filhos, e quanto à casa dos meus sonhos, tive de a vender.
Certamente que todos temos histórias para contar, semelhantes ou piores do que esta. Somos atualmente confrontados com cortes salariais, deslocações repentinas de local de trabalho e constantes atropelos ao Contrato Coletivo de Trabalho.
A dignidade e a coesão da classe estão fragilizadas como nunca. Nota-se, no panorama bancário, um clima de medo e de suspeição. O bancário tem medo de trabalhar, quase apetece dizer que tem medo da própria sombra. Tem medo de ser sindicalizado. Sem dúvida nenhuma que o clima financeiro e económico não é o mais favorável. A banca não se pode eximir de responsabilidades. Segundo dados do Banco de Portugal, conclui-se que as imparidades já são superiores às despesas com o pessoal. Este incremento das imparidades pôs a nu a má gestão, que proliferou nas duas últimas décadas.
Em 2010, os custos com o pessoal eram superiores em 120% relativamente às provisões específicas decorrentes do crédito mal parado, enquanto que no 1º semestre de 2014 os “Custos com Pessoal” representavam apenas a 41,2% dessas imparidades.
Não obstante esta inflexão, o objetivo continua a ser o mesmo: reduzir os custos com pessoal. Más opções, erros de gestão, desvios e subtrações patrimoniais de diversas administrações conduziram a perdas inestimáveis no panorama financeiro português. BPP, BPN, BES são alguns exemplos, com impacto direto na economia, no emprego e na credibilidade da banca.
Concomitantemente, há uma pergunta que se impõe: por que motivo as perdas geradas no setor bancário provenientes de simples má gestão ou até danosa, nalguns casos, não implicaram consequências para os conselhos de administração desses mesmos bancos?
Não somos nós, os simples trabalhadores, os executantes da estratégia comercial e financeira de um banco? O bancário tem sempre vindo a perder, a outra parte tem vindo sempre a ganhar.
Em suma, um homem com medo é um homem privado da sua liberdade, um homem sem liberdade é um homem escravizado pelos seus pensamentos, por isso, eis a razão de ser bancário e sindicalista.


Rui Peixoto

     
   Imprimir        Voltar        Topo
Copyright © 2007 SBN