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Os professores primários são os professores primeiros

“Na escola que fui visitar (aquando das primeiras férias à terra natal vindo do seminário), mal entrei na sala o Senhor Botelho mandou levantar todos os alunos em sinal de respeito. Depois (…) mostrou os meus ditados que guardava ciosamente. Pusessem ali os olhos! Vissem! Vissem! Nem um erro! Nem uma letra tremida! Nem o mais pequeno borrão! Assim sim! Quarta classe extraordinária!(…)Agora, uma corja de malandros. Burros, calaceiros, malcriados…À despedida, estendeu-me a grossa mão das palmatoadas. Branda e quente, tentava apenas secundar por pequenos abanões a efusão do remate oratório: - Continua, rapaz! Honra a terra que te viu nascer e o mestre que te ensinou as primeiras letras.”
Miguel Torga in “Criação do Mundo, 1937”

“...quando me inteirei da notícia (vencedor do P. Nobel /1957), o meu primeiro pensamento, depois de minha mãe, foi para o senhor. Sem si, sem a mão afetuosa que estendeu ao garoto pobre que eu era, sem os seus ensinamentos e exemplo, nada de tudo isso teria acontecido (…). Quero assegurar-lhe que os seus esforços, o seu trabalho e o coração generoso que sempre empregava ainda se encontram vivos num dos seus pequenos alunos (…). Abraço-o com todas as minhas forças.”
Albert Camus, Nov/1957 - carta ao seu Professor Primário.


Estes excertos bastariam para caraterizar a envolvente afetiva e pedagógica que emanava dos professores primários (pp) dos anos 50 e 60.
À minha Mãe, ao fazer 80 anos no ano passado, prometi que publicaria um artigo no “Terras da Beira”, numa homenagem simples à classe à qual dedicou 40 anos da sua vida. Não é um artigo de saudosismo, com a ideia de “no meu tempo é que era bom”, mas uma salutar viagem ao passado, reconhecendo as raízes e vivências que tanto influenciaram o que hoje somos como seres humanos e sociedade. Os tempos que já lá vão já nada têm a ver com os de hoje e ainda bem. Eis alguns dos quadros vivenciais dos professores primários de antanho com tonalidades muito concretas ao distrito da Guarda.
Na cidade da Guarda, a Escola do Magistério Primário onde se desaguava com o 5º ano do Liceu, era conhecida por aqueles que continuavam a estudar como a “Faculdade da Broa”.
Saía-se professor primário, cheio de sonhos e de receios, pois começava a dura tarefa de ensinar. Quando se obtinha o diploma de pp, entrava- -se no “quadro de agregados” e assinava-se a declaração “com activo repúdio do comunismo e de todas as ideias subversivas”. As bolandas de concursos eram imensas até se alcançar o estatuto de efetivo. Nas escolas masculinas a concurso, um professor primário com 10 valores era preferido a uma professora com 15 ou 16. Sem esquecer qua as professoras primárias só poderiam casar com autorização do Ministério da Educação e apenas se o futuro marido tivesse “bom comportamento moral e cívico”. Conseguir colocação na cidade da Guarda ou numa vila do distrito era uma bênção de Deus, mas a quem ficasse numa aldeia, esperava-o o seguinte cenário:
- ia-se de camioneta de carreira até ao cruzamento mais próximo; o restante era feito a pé ou de burro.
- arrendava-se casa ou quarto com serventia, ou usava-se a da escola, quando havia;
- luz elétrica? Água canalizada? Nem pensar. “Petromax”? Raramente; As turmas eram grandes (os casais tinham muitos filhos e a emigração ainda não arrancara).
À frente do jovem professor, 40 a 45 alunos repartidos por quatro classes contemplavam-no e chamavam “Senhor Professor”, se do género masculino, ou “Senhora”, se fosse de saias.
Caixa escolar, tabuadas, serras e rios, províncias continentais e ultramarinas, reis, redações, advérbios e preposições, frações, linhas de caminho- -de-ferro espraiadas por este país à beira mar plantado (mas sempre a terminar em Lisboa, a capital do império), constituíam parte da sabedoria e da linguagem da escola. E ainda hoje recordamos esses percursos desenhados no mapa da vida de garotinhos obedientes e que a memória conserva.
O professor primário era também educador, mestre de boas maneiras, atento à higiene pessoal. Tudo num cenário completado por vacinas, via seringa de agulha longa, dadas pelos enfermeiros da sede do concelho, o revigorante óleo de fígado de bacalhau e o naco de pão centeio que acompanhava a sopa da cantina, bem apaladada, com massa, feijão e couve, dirigida aos mais necessitados.
A oração matinal era imprescindível, mas nunca cantei o hino ou fiz saudação de mão estendida (a não ser na Mocidade Portuguesa), cenário que dependia das convicções de cada professor, embora houvesse regras a cumprir. Se alguém quisesse ir à casa de banho, pedia para “ir lá fora”. O levantar à entrada do professor ou de alguma visita era inevitável.

Houve quem a escola primária marcasse pelas duras reguadas e varadas de pau de marmeleiro, originadas nos erros no ditado ou nas contas e proporcionais à gravidade da falta. Sem dúvida que houve exageros, mas eram os cânones normais da época, hoje vistos como humilhantes e antipedagógicos. No país rural de Salazar educava-se muito à base de castigos e de “porrada”, que os próprios pais pediam ao mestre-escola, completando o “círculo educativo” normalizado, servil e confinado à força braçal.
Saber ler, escrever e contar lá chegava para as necessidades de um país onde a trilogia reinante, padre, médico e professor, era suficiente para continuar orgulhosamente só. A 4ª classe era, pois, a meta final de tantos, feita em folha dupla de papel de 25 linhas e em folha quadriculada, com caneta de tinta permanente. Ter a 4ª classe chegava para um ofício (empregado comercial ou motorista), com o amanho da terra a ficar para o fim do dia, pois a agricultura de subsistência era imprescindível ao sustento da família.
Só uma minoria seguia para o exame de admissão ao Liceu, cuja preparação exigia sabatinas do professor, em grupo, na escadaria ou em salão da sua casa particular.
No pó do tempo, revisito tantos dos professores que fui conhecendo. Ser “filho da Professora” ainda me foi mais exigente, mas bom alicerce para a Vida.
Para um professor que ensinou gerações e cujas cãs revelam alegrias e tristezas dos mundos que foi transmitindo, o maior júbilo é rever antigos alunos e ser cumprimentado com carinho e gratidão. No meio de tantos sacrifícios, os professores primários eram, na sua maioria, gente boa, disponível e com muito amor aos alunos, e isso permanece nas raízes da formação humana de cada um. Numa História de Portugal, livro de José Hermano Saraiva, que em tempos ofereci à minha Mãe, escrevia o autor em dedicatória: “Os professores primários são os professores primeiros”.

Por Ângelo Henriques. Artigo publicado no Jornal “Terras da Beira”


     
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