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Dietas

... da Saúde: "Estado de completo bem-estar físico, moral e social e não apenas a ausência de doença ou enfermidade" (O.M.S.)

Cada vez mais somos autenticamente bombardeados pelos meios de comunicação social com artigos referentes a “dietas saudáveis”. Passou-se do oito para o oitenta, quando se dizia à boca cheia que “gordura é formosura” para o “quanto mais magro melhor”, ou, por outras palavras é mais bonito. E, de facto, sobretudo para os mais jovens, a imagem que nos transmitem é de “modelos”, artistas e outras figuras públicas de uma magreza quase que se diria assustadora, o que implica que a tentativa de imitação física leve muitas vezes a dietas completamente desequilibradas, que podem originar problemas graves de saúde e até a nível escolar numa acentuada baixa de rendimento. No artigo que se segue não se vai falar de dietas (quer do ponto de vista quantitativo quer qualitativo), por o tema estar já completamente esgotado. Mas vão ser abordados outros conceitos de dieta, que por certo vão ser lidos com interesse, atendendo ao teor e à experiência de quem os escreve, a médica Ana Bravo.


Nos nossos dias, repetindo inúmeras etapas da história, a imagem que o espelho devolve tornou-se uma das principais preocupações diárias do ser humano.
Para as mulheres, a preocupação de ter uma cintura estreita num corpo bem delineado, sem formas excessivas, mas ainda assim com contornos algo proeminentes, ou ter um corpo atlético, em que não se vê facilmente qualquer vestígio de massa gorda.
Para os homens, a preocupação de uma musculatura bem definida, visível sob a roupa mais justa.
O cuidado estético, que outrora não se vivia com o mesmo à vontade, tem modelado um sem número de comportamentos. Quando esses comportamentos se mantêm num registo equilibrado, não geram qualquer tipo de preocupação. O problema começa quando a preocupação associada é levada ao excesso, a um ponto extremo, que é difícil de corrigir.
A forma excessiva de controlo do aporte alimentar e nutricional, com o estudo pormenorizado de rótulos dos alimentos e dos comportamentos diários esquematizados, quase matematicamente controlados, é definido como ortorexia. Nestes casos, é visível um investimento radical na comida, como também, eventualmente, no corpo, na roupa ou na estética, entre outros.
A ortorexia é um diagnóstico recente, definido como um transtorno alimentar, que surge quando a pessoa se torna obsessiva no que respeita aos padrões daquilo que come. Difere da anorexia ou da bulimia pelo facto de a pessoa se permitir comer, mas podendo comparar-se pela obsessão associada ao que come, ocupando esta a esmagadora maioria dos pensamentos. Na ortorexia não há ingestões compulsivas ou regurgitação, há antes o escrutínio do conteúdo nutricional de cada alimento, associado à obsessão de só ingerir comida saudável. Assim, desde vitaminas a minerais, passando pelas calorias, a água e fibras, o ortorético estará a par de todas as informações relativamente aos alimentos que se permite ingerir e nenhum alimento que saia dos parâmetros aceites entrará na dieta. Em tal contexto, o papel do(a) nutricionista será desconstruir as crenças associadas ao que de excessivo têm tais obsessões alimentares. Num processo normal, as preocupações alimentares são um bom meio de atingir mais saúde e até um corpo mais esbelto; o problema, mais uma vez, será o descontrolo associado à preocupação constante, que deixa pouco tempo livre para outros pensamentos em torno da alimentação. Passam a ser raciocínios, não prazeres despreocupados. A alimentação deve ter este componente de simplicidade na degustação, para permitir o gosto pelos paladares que nos traz.
Naturalmente, a despreocupação total tornar- se-á um problema igualmente alarmante, com repercussões a curto prazo; a questão principal será conseguir atingir o equilíbrio! O problema associado a este comportamento poderá tornar-se uma preocupação, mais a nível psíquico do que nutricional. Na verdade, no que respeita aos nutrimentos, eles são de tal forma doseados e em doses que atingem as recomendações diárias, que na maioria dos casos não passam a haver riscos de excesso ou de carência de um qualquer nutrimento. No entanto, o preço a pagar por essa “perfeição nutricional” é que as pessoas em causa se tornam reféns da alimentação, não se permitindo pisar o risco em circunstância alguma, o que poderá determinar o seu afastamento de convívios, com resultante isolamento. Todos poderíamos beneficiar ao adotar esta atitude, desde que equilibradamente.
Diz-se que uma vida afetiva pobre pode criar obsessões a outros níveis, sendo os alimentos, com todo o vasto teor de nutrientes e calorias, um álibi perfeito, usado como foco dessa obsessão transferida. Se a pessoa pretende ir por esse caminho, não tendo eu, como nutricionista, forma de a demover, o que habitualmente faço é procurar desviar a atenção com a quantidade para a diferenciação alimentar. Ou seja, levar a pessoa a preocupar-se em ingerir vários tipos de alimentos, de várias cores, desde líquidos a sólidos, frescos a congelados, de diversas formas e origens, desviando a atenção com as calorias e as quantidades diariamente ingeridas. Habitualmente os ortoréticos tornam-se magros, pelo que a continuidade do comportamento poderá tornar-se preocupante. Nestes casos, questiono eu: será que o melhor não será sugerir outros focos de interação que não a comida?

O meu conceito (simbólico) de “maturidade alimentar”
Com toda a certeza já lhe aconteceu seguir um plano alimentar, sentir-se feliz com os resultados que vai obtendo e, a determinada altura, deparar-se com um obstáculo imprevisto: um lanche em casa de uns familiares ou amigos, farto em enchidos e em pastéis de massa folhada; ou um momento de carência emocional em que nada vê em casa senão aquela caixa de bombons que lhe ofereceram no natal. A resistência é posta à prova vezes sem conta, eu sei, mas naquele dia não consegue corresponder como gostaria e acaba por ceder à tentação. Até aqui tudo bem: garanto que todos temos momentos destes – todos, sem exceção. O que me preocupa é o que se segue a estes momentos e que pode ser o principal obstáculo no caminho da perda de peso. Ao contrário do que seria desejável, é muito comum, a seguir a uma recaída destas, aplicar-se o ditado “perdido por cem, perdido por mil”. Nestes casos, um pensamento muito frequente a seguir ao momento de fraqueza é: “Já estraguei a minha dieta, a asneira está feita, por isso posso continuar a pecar. Amanhã retomo o plano alimentar que seguia.” Mas quantas vezes o consegue fazer? As pessoas, sobretudo as mulheres, apoiam-se muitas vezes num marco temporal para minimizar o peso na consciência e desfrutar dos momentos que se seguem sem culpa: “posso comer o que me apetecer, desde que a partir da meia-noite volte à minha dieta”. Mas à meia-noite o coche transforma-se em abóbora e gera-se um problema desnecessário – o abandono das regras alimentares dia após dia, até deixarem sequer de ser uma preocupação.
Se já lhe aconteceu, sobretudo se teve lugar mais de uma vez, porque não usa essa experiência para aprender? Em todas as questões da vida, aprendemos com os nossos erros, conseguimos levantar-nos depois das quedas e preparar-nos para as evitar mais facilmente no futuro. É o que lhe sugiro também no campo da alimentação: use as más experiências para saber o que não quer que lhe volte a acontecer.
Para esta questão criei um conceito simbólico de “maturidade alimentar”, que parte de saber que pode tropeçar, mas também que dispõe de todas as ferramentas necessárias para que, ainda que possa voltar a tropeçar, não voltará a cair. Assim, se cometer um grande excesso que não tinha planeado, pense no bem que lhe soube e não se culpe mais do que uns breves minutos. Saboreie-o ao máximo e depois use a energia para o deixar perdido no caminho que retomará sem outra preocupação que não a de regressar ao caminho retilíneo e compensador que pretende prosseguir.

Por Ana Bravo (médica) - Adaptado de “A Dieta Viva!”

     
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