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Carlos Silva em Entrevista Exclusiva à Nortada

UGT vai questionar os partidos sobre respetivos programas a apresentar às próximas eleições legislativas

O secretário-geral da UGT, Carlos Silva, concedeu uma entrevista exclusiva à Nortada, em que, entre outros assuntos, revelou quais as principais preocupações da central sindical no atual momento político, indicou qual a agenda político-sindical que marca a vida da UGT, comentou o teor das conversações que manteve nos Estados Unidos com altos responsáveis do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial, se referiu ao diálogo que os sindicatos europeus mantêm a propósito do dossiê grego e justificou as razões da escolha do Porto para as comemorações do próximo 1º de maio.



N. Carlos Silva esteve recentemente nos Estados Unidos, onde manteve encontros com alguns altos dirigentes da economia mundial – e não só. De quem partiu a iniciativa, quais foram os objetivos e quais os resultados que considera terem sido obtidos?
CS. Tratou-se de uma deslocação a convite da Confederação Sindical Internacional, organização em que a UGT se encontra filiada. Fui integrado numa delegação constituída também por líderes de outras centrais de várias partes do mundo e nessa circunstância tive o ensejo de me encontrar com responsáveis, ao mais alto nível, do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional, de entre outras instituições. Não podia deixar passar a oportunidade, nomeadamente porque a UGT assume o virtuosismo do diálogo social.

N. Parece que está a querer dizer que as suas expetativas, à partida, eram elevadas…
CS. É claro! O que se pretendia era fazer uma leitura atenta no sentido de se perceber se seria possível partir para um outro patamar mais elevado de diálogo, suscetível de serem encontradas soluções, diálogo esse em que tomassem parte organizações sindicais dos cinco continentes, uma vez que os problemas que se colocam aos trabalhadores atingem hoje proporções globais. Mas não se me pode levar a mal que eu estivesse mais focado na problemática europeia e nas políticas de austeridade que invadiram as nossas democracias. Todavia, o diálogo foi tanto mais abrangente quanto é certo que os nossos interlocutores foram o Banco Mundial, mais para os países de fora da Europa, e o Fundo Monetário Internacional, mais para os países europeus…

N. Então, à partida, expetativas elevadas, e à saída, resultados satisfatórios?
CS. Sem dúvida alguma! Particularmente, ressalto como de mais positivo o facto de os nossos interlocutores terem escutado um discurso uniforme e transversal por parte de todos os dirigentes sindicais, qualquer que fosse a parte do mundo da sua proveniência. E também como de igualmente muito positivo a circunstância de se perceber se haveria disponibilidade mental dos nossos interlocutores para perceberem que as políticas de austeridade não só não tinham sido coroadas de sucesso, como conduziram ao empobrecimento dos povos dos países onde foram implantadas, destruíram o capital de esperança e hipotecaram o futuro.

N. Fazendo de “cardeal diabo”, cumpre-me observar que o facto de os vossos interlocutores vos terem escutado não significa que tenham ficado sensibilizados. Mais: e será que têm essa tal disponibilidade mental?
CS. Ai ficaram, ficaram! E digo-lhe mais: percebemos claramente a existência dessa mesma disponibilidade mental. Vamos ser práticos: alguém pensa que se assim não fosse se teriam disponibilizado para rediscutir connosco estes problemas?

N. Não terão apenas fingido uma atitude politicamente correta?
CS. Nada disso! Os sinais que evidenciaram foram perfeitamente claros. E mais do que isso: não foi certamente por acaso que dias depois destes encontros mundiais o presidente da Comissão Europeia, Jean- -Claude Juncker, veio a público pedir desculpa pela austeridade exagerada que tanto penalizou povos como o português, entre outros. Em política há que saber interpretar os sinais. Não! Os encontros dos Estados Unidos foram extremamente positivos!

N. “Mudando de agulha”: quais as principais preocupações da UGT, neste momento da vida portuguesa?
CS. Combater a crise, através da nossa intervenção permanente aos mais diversos níveis, com o objetivo de fazer reverter as políticas que tão severamente vergastaram os trabalhadores e os restantes cidadãos portugueses nos últimos quatro anos, para o que utilizamos em concomitância o diálogo social e diversas lutas que estão a ser travadas em vários setores de atividade económica.

N. Mas parece que o diálogo social não está a funcionar lá muito bem…
CS. O diálogo social não está a funcionar bem em toda a Europa porque os governos parecem ter assumido que os compromissos com as instituições financeiras internacionais não são compagináveis com a defesa dos direitos dos cidadãos – e dos trabalhadores, em particular. Ora isto não só não é verdade como não é aceitável. É um embuste completo. Por isso temos de lutar.

N. Reformulando a pergunta: quais as prioridades concretas da central sindical para os próximos meses?
CS. Assim de memória, posso citar: um caderno de encargos para apresentar aos partidos, a fim de que nos digam como é que responderão às nossas preocupações, se forem eleitos, nas próximas legislativas; o desbloqueamento da negociação coletiva; a reivindicação da publicação de portarias de extensão; a exigência de atualizações salariais; a defesa do emprego na administração pública e no setor privado; a reivindicação de políticas que promovam o investimento e o crescimento económico, vértices sem os quais não haverá a criação de empregos; o combate à precariedade laboral; a promoção da discussão em sede de concertação social sobre as consequências das alterações à legislação laboral, cujas medidas foram tão drasticamente nefastas para os trabalhadores e para a negociação coletiva – veja-se, no caso das portarias de extensão, a incompetência do Governo ao não publicar uma para o setor bancário, cuja repercussão imediata se traduz na concorrência desleal entre bancos e na desproteção dos sindicatos da Febase.

N. Nos vossos contactos internacionais, por certo têm mantido o relacionamento com os sindicatos gregos. Qual a opinião que eles vos formulam sobre o conturbado processo negocial com as instituições europeias?
CS. Consideraram que foi um triunfo da democracia e que vai permitir ao povo grego travar senão todas pelo menos algumas das mais gravosas políticas de austeridade que destruíram o tecido social daquele país. E ouviram, em contrapartida, um discurso uniforme de solidariedade por parte dos sindicatos europeus. Aliás, eu próprio, nas reuniões ocorridas nos Estados Unidos, tive oportunidade de dizer aos representantes do Fundo Monetário Internacional que as políticas de austeridade que impuseram o que conseguiram foi empurrar os respetivos povos para atitudes extremas de desespero, que poderão vir a traduzir-se a breve trecho no velho ditado popular português “perdido por dez, perdido por mil”.

N. Uma última pergunta: a UGT decidiu fazer este ano no Porto as comemorações a nível nacional do 1º de maio. Porquê?
CS. Por um conjunto de razões, de que destaco a importância da descentralização e a necessidade de darmos satisfação aos sindicatos e aos trabalhadores do norte, que estão cansados e desiludidos com o excessivo centralismo de Lisboa. Para mais quando é o próprio secretário-geral da UGT que tanto diz que a central deve estar onde os sindicatos quiserem. Aliás, relembro que este processo já começou, uma vez que as comemorações do quadragésimo aniversário do 25 de abril já foram realizadas em Santarém e que no passado dia 24 de fevereiro já houve uma reunião do Secretariado Nacional, no auditório do SAMS do SBN, no Porto. De resto, é do conhecimento generalizado que no norte reside uma parte importantíssima da força do trabalho e dos nossos sindicatos. Dá-se, assim, satisfação a uma antiga exigência e a um imperativo que há muito era nosso desejo cumprir.

     
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