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Sindicalismo Cooperativo?

Face ao panorama geral que está presente no atual horizonte bancário e perante as sucessivas e rápidas alterações no sistema bancário português, em que os trabalhadores têm vindo a ser as principais vítimas, tem-nos conduzido a uma preocupação crescente sobre o futuro dos colegas que se encontram no ativo e sobre aqueles que já se encontram na reforma. Em traços gerais, o sindicalismo português tem sucessivamente vindo a sofrer fortes e desgastantes ataques de um governo neoliberal fundamentalista que defende os interesses dos Portugueses e de Portugal de forma estranha e defende outros interesses, estes externos, mergulhados em profunda obscuridade, cujo fim poderemos descortinar, mas que será extremamente mau, o que nos leva a concluir que o sindicalismo português se encontra sob forte ameaça de extinção. Junto um artigo de minha autoria que, penso, levanta importantes questões que num futuro já próximo nos irão interessar bastante.

Uma teoria sobre o sindicalismo cooperativo
A história do sindicalismo, tal como a do cooperativismo, tem vindo a integrar-se num importante esforço na busca de novas soluções face ao avanço opressivo e destruidor do neoliberalismo sobre a classe trabalhadora. Poderemos deduzir que a militância havida na base do espírito de entreajuda em termos de cooperação tem vindo a produzir teoricamente novas vias de desenvolvimento na economia social. A ação cooperativa torna-se cada vez mais importante nos futuros desenvolvimentos que terão de ocorrer na missão fundamental do sindicalismo, ou seja: a defesa firme e esclarecida da situação social e económica do trabalhador e, por outras palavras, do cidadão comum.
Espera-se da economia social, em geral, mas muito em especial das cooperativas, um forte contributo na procura de novas soluções que irão naturalmente ao encontro das dificuldades e das necessidades futuras com que os sindicatos irão debater-se perante a revolução tecnológica e informática, deixando a indústria de ser o polo principal do processo de produção. Várias são as consequências dessa mudança: as linhas de montagem são substituídas por processos de produção automatizados, gerando assim grande número de desempregados, vindo, portanto, a afetar as organizações sindicais. Além da redução significativa de empregos e empregados nas diferentes organizações públicas e privadas, certamente que o movimento sindical perdeu e continua a perder cada vez mais força, influência e poder de negociação. Assim e neste contexto torna-se crescentemente mais urgente e necessário implementar mudanças no sindicalismo, enquanto há tempo. Isto devido às mudanças sociais e económicas que, de forma progressiva e muito rápida, têm vindo a ocorrer.

A evolução desejável para o movimento sindical no século XXI
Há necessidade da criação de um novo movimento sindical que, aliado ao cooperativismo, a que chamaria de sindicalismo cooperativo, vá ao encontro dos grandes problemas com que os sindicatos em geral estão confrontados já no presente e com crescente agravamento quanto ao futuro. Urge a criação de uma nova ideologia fundamentada em quatro princípios: solidariedade, sobriedade; cooperação e espiritualidade. Seriam assim estes os pilares de uma doutrina avançada e totalmente independente das diferentes correntes político-partidárias ortodoxas. A essa mesma doutrina iríamos chamar de Doutrina da Cidadania Social!
Para que as organizações sindicais não venham a ser extintas no médio e longo prazo, deveriam dirigir as ações para áreas da responsabilidade social, como a proteção de crianças de rua, o desenvolvimento da campanha contra o analfabetismo, a formação de cooperativas de trabalhadores para gerir fábricas falidas, a criação de um centro de solidariedade social encaminhando desempregados para novas oportunidades de emprego ou para formação profissional. Concluiremos considerando ser uma solução estratégica as próprias organizações sindicais darem origem e apoiarem a criação de novas empresas cooperativas, competindo no terreno com as privadas em diferentes setores das atividades económicas. Aas cooperativas passariam a ter uma maior e mais estratégica importância, devido a um crescente aumento de trabalhadores desempregados, oriundos de instituições privadas e do próprio Estado, como é exemplo flagrante o que está ocorrendo em Portugal. De facto, as cooperativas representam de forma eficaz uma notável tendência no novo mundo do trabalho e os sindicatos precisam de estar atentos e preparados perante uma nova organização laboral. Uma outra preocupação dos sindicatos será sempre a questão da educação e da qualificação profissional. É certo que os sindicatos nunca deixarão de lado as suas causas iniciais, ou seja: lutar por melhores salários, condições de trabalho e outros direitos e benefícios. Se as organizações sindicais não tiverem uma visão de futuro, irão fatalmente correr o risco de se tornarem obsoletas.

As soluções futuras dos sindicatos encontram-se na adaptação a formas cooperativas
O sindicalismo cooperativo passa por uma adaptação dos sindicatos a formas cooperativas adequadas! Um dos grandes pecados das análises sobre o cooperativismo foi ter uma visão equivocada do processo histórico de constituição do cooperativismo e das cooperativas, bem como uma visão errada da natureza humana. Estas análises tentaram de forma errónea fazer acreditar que o cooperativismo remonta aos primórdios da Humanidade e que o ato de cooperar é um traço, uma ligação natural do homem, podendo-se assim concluir que o cooperativismo e as cooperativas são tão antigos como naturais. Na verdade, o cooperativismo é um movimento social resultante das consequências do liberalismo económico no século XIX, buscando formas alternativas para melhorar a vida da classe trabalhadora. Surpreendentemente, tudo indica que a História se repete, uma vez que agora, no século XXI, verifica-se que o mundo laboral novamente terá de reagir ao avanço voraz e predador do neoliberalismo.
A atual crise económica e social em Portugal (e na Europa) poderá vir a ser geradora de potencialidades que devem ser aproveitadas para as futuras mudanças que se avizinham. O cooperativismo e as cooperativas poderão vir a desempenhar uma missão extremamente importante para as classes trabalhadoras, destacando-se um elemento importante que é o facto de a maioria esmagadora das cooperativas não estarem envolvidas nos escândalos da economia de casino, sendo por isso uma alternativa confiável. As cooperativas, dada a sua génese e vocação, têm um lugar próprio de intervenção social e na sua gestão devem fomentar os princípios de responsabilidade social, quer para uso interno, quer como modelo de influência para diferentes setores económicos, por não serem motivadas pelo oportunismo gerado na crise com que Portugal se tem vindo a debater, por não praticarem despedimentos ou encerrarem de forma fraudulenta empresas, ou ainda por não as deslocalizarem para o estrangeiro.
Os sindicatos e as cooperativas poderão certamente contribuir de forma eficaz e conjuntamente para a criação de uma melhor sociedade, contribuindo para a sensibilização dos problemas sociais em praticamente todas as áreas das atividades económicas, colaborando juntos para uma nova estratégia que venha a resolver e a melhorar o desenvolvimento do sindicalismo e do cooperativismo, consubstanciados numa nova realidade que se passará a chamar de Sindicalismo Cooperativo.

A importância do movimento sindicalista cooperativo nos novos países da lusofonia
Nesta teoria sobre o sindicalismo cooperativo que temos vindo a desenvolver, poderemos igualmente lançar um olhar para os novos países de expressão oficial portuguesa, que na sua maioria estão em vias de desenvolvimento. Por outro lado, em Portugal mais de dois terços da população portuguesa carece de situações que lhe permita obter uma qualidade de vida mais digna e com acesso equilibrado à educação, à saúde, às oportunidades de emprego e à estabilidade social, cada vez mais agravadas com a austeridade dura que o Governo tem vindo a impor aos Portugueses. Isto na perspetiva de que venha a ser gerado em Portugal um novo movimento cívico-social, que se designaria por Sindicalismo Cooperativo e que teria por base a Doutrina da Cidadania Social, doutrina esta totalmente descomprometida com quaisquer correntes ideológicas de ordem político-partidárias. O novo movimento sindicalista cooperativo, na sua natureza e estrutura, teria uma base científico- espiritualista gerada pela formação da Doutrina da Cidadania Social, sem qualquer ligação com correntes político-partidárias ortodoxas! Com o desenvolvimento e a implementação do Sindicalismo Cooperativo ir- -se-ia ao encontro de diferentes soluções, no que se refere à população ativa portuguesa, em que mais de 20% se encontra desempregada, com destaque para os desempregados de longa duração, que deverão atingir cerca de 400.000 portugueses! O novo movimento sindical cooperativo, mediante o estabelecimento de acordos formais com os países lusófonos, poderia vir a ser extensivo a esses mesmos países, através da elaboração de protocolos que abrangessem importantes áreas como a saúde, a educação, as artes e outras atividades culturais, científicas e até económicas. O voluntariado estaria presente de uma forma bem desenvolvida e apoiada por instituições nacionais e internacionais, nomeadamente com países da União Europeia vocacionados para estes tipos de apoio, que seriam obviamente técnicos e financeiros.
Nesta perspectiva, a ação sindical cooperativa tornar-se-ia muito importante, por ser amplamente participada, respeitando a democracia o fomento coletivo da participação, que na actualidade, mais do que nunca e face à conjuntura em Portugal e na Europa, está plenamente na ordem do dia. O sindicalismo cooperativo poderia certamente contribuir de forma definitiva para a existência de uma melhor sociedade, na base da cooperação e da sensibilização para todos os problemas sociais e em áreas importantes como a defesa dos direitos laborais e dos consumidores, bem como do meio ambiente e do desenvolvimento sustentável da economia social. Daí ser necessário e urgente a elaboração de um projeto global de desenvolvimento para Portugal.

Por Jacinto Alves

     
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