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História das Abelhas (XI)

Monarquia femininaz

Foi este livro e este homem que marcaram o fim da chamada idade média da apicultura. O título expressa a ideia principal de Charles Butler, de que a colónia de abelhas é governada não por um rei, como declarava Aristóteles, mas por uma abelha-rainha.

Com o advento da imprensa começaram a circular os livros versando todas as matérias e em 1609 um clérigo chamado Charles Butler publicou um livro, “Monarquia Feminina”, que marcou o fim da idade média no que respeita à apicultura. Não foi o primeiro livro em inglês sobre o assunto, mas tanto o estilo como o conteúdo permanecem como uma luz a brilhar no fim do túnel. O livro e o homem são altamente merecedores da nossa atenção. Charles Butler foi essencialmente um literato, mas também um apicultor prático e de considerável capacidade. Antes dele, os escritores tinham apreendido “em bruto” as imaginosas opiniões de Virgílio e de outros, enquanto Butler nos dá um sistema completo de apicultura prática, baseado na própria experiência. As descobertas de outros eram intensamente submetidas à observação pessoal e apesar das conclusões nos parecerem, nos tempos atuais, por vezes, um pouco singulares, em nenhuma ocasião deixaram de estar objetivamente comprometidas com a interpretação do “terra-a-terra” no tratamento das abelhas.
Devemos lembrar-nos que no tempo de Butler prevaleciam muito mais a fantasia e a superstição do que o conhecimento factual, especialmente na observação das coisas da natureza. Shakespeare escreveu que as abelhas transportavam a cera nas coxas e o mel na boca. Dizia-se que as abelhas saíram do cadáver de bois putrefactos, e as vespas da carne podre dos cavalos. “Fizeram de entre elas um Rei”, disse Aristóteles, “o mais respeitável em dignidade e clarividência, e o mais perfeito e indulgente, pois esta é a virtude principal de um Rei”. O ferrão de uma abelha pica mais fundo quando está cheio de mel”. E outras fantasias…
Posto perante este quadro de fundo de velhos contos medievais, a estatura de Butler aumenta consideravelmente. O livro está concebido da forma mais metódica e não há nele outras influências que não sejam as da sabedoria e dos conhecimentos adquiridos. De facto, tem sido realmente afirmado que muitos dos seus princípios poderiam ser, ainda hoje, aplicados com proveito, apesar dos métodos radicalmente diferentes.
A apicultura descrita por Butler apenas foi substituída quando se adotaram as colmeias de madeira com quadros móveis e esta mudança só se fez sentir a partir do século XIX, quando Langstroth (1810/1895) desenvolveu e aplicou, o conceito do “espaço da abelha” e no seguimento deste conceito, a divulgação do quadro móvel. Em 1851, o reverendo Lorenzo Lorraine Langstroth verificou que as abelhas depositavam própolis em qualquer espaço inferior a 4,7 milímetros e que construíam favos em espaços superiores a 9,5 milímetros. À medida entre esses dois espaços Langstroth chamou de “espaço da abelha”, que é o menor espaço livre existente no interior da colmeia e por onde podem passar duas abelhas ao mesmo tempo. Essa descoberta simples foi uma das chaves para o desenvolvimento da apicultura racional. Inspirado no modelo de colmeia usado por Francis Huber, que prendia cada favo em quadros presos pelas laterais e os movimentava como as páginas de um livro, Langstroth resolveu estender as barras superiores já usadas e fechar o quadro nas laterais e abaixo, mantendo sempre o espaço da abelha entre cada peça da caixa, criando assim os quadros móveis, que poderiam ser retirados das colmeias pelo topo e movidos lateralmente dentro da caixa. A colmeia de quadros móveis permitiu a criação racional de abelhas, favorecendo o avanço tecnológico da atividade como a conhecemos presentemente.
As abelhas eram alojadas em cestos feitos de palha ou vime e nos países mediterrânicos em cortiços, geralmente colocados em assentos de madeira; os de pedra, disse Butler, eram demasiado quentes no tempo quente “e, o que é pior, muito frios no tempo frio”.
Butler dá-nos uma bela descrição do desenvolvimento metamórfico das abelhas e, embora tivesse a impressão de que a rainha, de alguma forma, nascia instantaneamente, não tinha dúvidas acerca do seu sexo! Incidentalmente, é interessante notar que Moses Rusden, no livro “Outra Descoberta das Abelhas”, publicado setenta anos mais tarde, sempre se refere à rainha como “o Rei”.
Nenhum leitor da “Monarquia Feminina” pode deixar de ficar impressionado pelo sentido de observação de Butler ou pela forma sistemática como registava as informações. Esta capacidade foi mais tarde recordada por Francis Huber (1750/1831) e é talvez significativo que ambos estes homens tenham sido, de algum modo, capazes de comunicar-nos um sentimento especial de revelação.
O facto de a “Monarquia Feminina” ter alcançado três edições durante a vida do autor é uma prova do sucesso do livro.
Falecido aos 88 anos, Charles Butler é considerado “o pai da apicultura britânica” e de facto o seu nome tem sido recordado mais pelos apicultores do que por quaisquer outros, mas legou-nos mais do que um excelente tratado de apicultura para o seu tempo. A “Monarquia Feminina” fascina-nos tanto quanto as obras de Langstroth e de outros escritores clássicos neste campo. Para ler estes livros precisamos de conhecer os homens e no caso de Charles Butler é uma experiência particularmente agradável.

João dos Santos Pimpão

     
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