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A Alemanha do nosso (des)contentamento

A Alemanha ganhou e bem o recente Campeonato do Mundo de Futebol e os seus jogadores passearam as qualidades inerentes aos vencedores: boa preparação, estratégia, talento, seriedade, muita luta e também muita paixão. Em 20 anos de Mundial, a Alemanha arrecadou 4 primeiros lugares, 4 segundos e 4 terceiros.
A nossa equipa de tugas foi uma equipa de vedetas mimadas e com sentido excursionista, concentrados na exibição dos seus exuberantes penteados. A falta de visão, de capacidade do selecionador (a prorrogação do seu contrato é uma solução falhada), dos dirigentes, a mentalidade dominante, scolariana, que, com um pouco de sorte, N. S. de Fátima e umas fotos com o Presidente (Noam Chomsky e a estratégia da distração), não permitem ganhar jogos nem honrar o nosso país. Considero que, sobretudo no jogo com a Alemanha, o comportamento da equipa e dos seus mentores conduziu a uma autêntica humilhação para o povo português, povo este que passa por grandes dificuldades e sempre pensou e desejou que esta Seleção nos iria resgatar, pelo menos, o orgulho pátrio; podíamos perder, mas com dignidade, lutando coletiva e denodadamente, de cabeça erguida.
Quer se simpatize mais ou menos com este ou aquele povo, certo é que os jogadores alemães transmitiram-nos a real valia da sua gente, uma sociedade fundada no trabalho, na organização, nos resultados, no mérito e na conquista. Fotos com o Presidente, só e unicamente depois da vitória. Atento a sua história recente, a Alemanha poderá não cativar uma imensidão de adeptos, mas ninguém põe em causa a qualidade e a competência das suas gentes, quer seja no futebol, na indústria, na artes, etc. Marcas como BMW, Bayer, entre tantas outras, são sinónimos de qualidade, robustez e de fiabilidade.

Os tempos difíceis que o país e que a Europa atravessam, a falta de liderança e de perspetiva de um verdadeiro projeto europeu e de líderes que lutem por ele, fazem emergir a força que a Alemanha é (perdeu 2 guerras no SEC XX e renasceu sempre das cinzas) e com um rosto sempre presente, a Chanceler Ângela Merkel. Esta senhora não pode ser o bode expiatório por Portugal ter desbaratado os fundos europeus, pela realização de obras faraónicas, pela corrupção reinante, pelos contratos ruinosos das PPP, pela elevada dívida dos privados, pela nacionalização dos roubos no BPN.
Contudo, historicamente, os alemães são um povo belicista, guerreiro, quer pela via das armas, quer pela via económica e não perdem tempo. E gostam de marcar golos. O projeto Euro de moeda única, foi feito à medida da Alemanha e a crise que agora se vive, veio colocar a sua Chanceler como mentora de uma política que, assumida pela Comissão Europeia desde 2009, se tem mostrado ruinosa, originando uma espiral de recessão sem fim à vista:
– Dividiu-se a Europa entre países credores e devedores, quando a crise inicial, com origem na Grécia, era uma crise bancária (maus empréstimos privados).
– A Comissão Europeia colocou os interesses dos bancos do centro (França e Alemanha) acima dos interesses dos cidadãos. E, nesse sentido, foi vermos chegar a troika, imperial e arrogante.
– Troika que impôs um caminho errado com austeridade desmedida e desvalorização social e salarial, induzindo a desemprego crescente, a vidas arruinadas, criando ainda a ideia estapafúrdia de que o povo português vivia acima das suas possibilidades. Os países periféricos com deficits que “ardiam”, enquanto a Alemanha, com excedentes orçamentais e de liquidez, conseguia colocar os seus produtos em detrimentos dos países do Sul (é a divinização do mercado, onde reina a especulação financeira, a corrupção ramificada e a evasão fiscal egoísta, no dizer do Papa Francisco).

Hoje em dia, Portugal está mais endividado do que antes do programa de ajustamento, e sobre uma eventual reestruturação da dívida, escreverei duma próxima vez.
Neste século, a nossa casa política e, sobretudo, a económica, foi construída sobre areia movediça e a adesão ao Euro não perdoou tal diletantismo, aliado, infelizmente, à ausência estrutural de uma burguesia nacional, patriótica e à existência de governantes medíocres e subjugados (até na cimeira recente da CPLP em Timor).

A cada país, a sua Seleção de Futebol.

PS.1: A águia era a ave que, entre os romanos, simbolizava a coragem, o poder, o espírito vitorioso. Bem mais tarde, Carlos Magno, reclamando o ser sucessor dos imperadores romanos, utilizou também esse símbolo imperial, assim como muitas casas nobiliárquicas do Sacro Império Romano Germânico. Como todo o símbolo, a águia também possui um aspeto noturno, maléfico e desastroso, proveniente do exagero da sua coragem e da perversão da sua força.
O brasão de armas alemão, federal, pode ser utilizado em vez da bandeira civil (três faixas horizontais), apresenta uma águia preta com garras e bico de cor vermelha.

PS.2: Será que a família Espírito Santo vivia acima das suas possibilidades?

Por Ângelo Henriques
Artigo publicado no jornal “Terras da Beira” em 7 de agosto de 2014.

     
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