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Irresponsabilidade ilimitada

Recentemente o jornalista Paulo Pena publicou um livro que é uma autêntica viagem aos infernos, Jogos de Poder (Lisboa, A Esfera dos Livros). É uma reportagem minuciosa sobre a enorme responsabilidade de alguns bancos e banqueiros portugueses na crise existencial em que Portugal mergulhou. Como convém a um trabalho sério, os nomes das pessoas e instituições que contribuíram para a gigantesca dívida externa (privada e pública) em que o País agoniza estão apoiados em documentação robusta e inequívoca. O autor termina escrevendo que vivemos "dias abafados que antecedem as grandes trovoadas". As revelações posteriores sobre os 1200 milhões de euros de dívida ocultados pela Espírito Santo Internacional (ESI), em 2012, e as próprias confissões de Ricardo Salgado mostram que Paulo Pena tem razão. É paradoxal, contudo, verificar que a banca portuguesa, apesar de todos os seus aventureiros, parece uma menina bem-comportada em comparação com a banca da Irlanda e de outros países (não é por acaso que os bancos regionais da Alemanha e da Espanha não entram no atual arremedo de "união bancária"...). O que ofende a inteligência é perceber que, apesar de os países da UE terem arriscado dez vezes mais recursos para salvar a banca do que a soma de todos os resgates a países, se continue a chamar à atual agonia europeia "crise das dívidas soberanas", em vez de ser designada como "crise da desmesura do sistema financeiro europeu". O que causa angústia é perceber que a "solução" do Diretório para a crise foi a de atirar os povos ao lago da austeridade perpétua, com um cabo ligado à pedra do Tratado Orçamental, enquanto as regras do jogo se mantêm estruturalmente idênticas. A banca abastece-se no BCE, quase a custo zero, enquanto os Estados jazem nos labirintos do mercado secundário. Parafraseando, por analogia, um célebre dirigente europeu: esta união monetária é tão ignóbil que, se não for reformada, acabará por implodir a UE e destruir a economia de mercado. Só não sabemos quando.

     
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