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Caixeiro viajante

Há tempos não muito distantes, reencontrei num café da Baixa portuense, pessoa já bem idosa que, acreditava eu, costumava visitar, comercialmente, o Armazém do meu Pai em VF das Naves. A minha ousadia no cumprimento e no me dar a conhecer veio a dar certo. Não me tinha enganado. Houve então a disponibilidade de trocarmos algumas impressões e recordar factos passados, momentos comuns com o meu progenitor que foram longos no calendário da vida e profícuos na atividade de ambos. Na hora da despedida, o meu interlocutor, orgulhoso de ter sido Caixeiro Viajante (CV) e em jeito de desabafo final, referiu o seguinte: “Nunca ninguém escreveu sobre a nossa vida de CV, as nossas viagens, a lonjura da família, como se vendia naqueles tempos, as histórias do que tanto vimos e ouvimos, eu sei lá! Até parece que fomos uma raça estranha…”!
E na sequência deste reencontro, eis-me a escrever sobre uma figura que povoou imenso a minha infância e adolescência; gente oriunda, predominantemente, do eixo Aveiro, Porto, Braga. Ser CV nos anos 50/70 era o modo mais frequente e normal das fábricas e armazéns promoverem os seus produtos nas Beiras e em Trás-os- -Montes. Com uma viatura cheia de catálogos e amostras que conforme o tipo e variedade dos produtos por vezes enchiam malas e malas, percorriam o Interior de um país que começava a comprar, notoriamente, fora das feiras e mercados.
Era geralmente CV (um andarilho no dizer de Miguel Torga) quem, pelo seu trato, origem familiar, propensão para as vendas e conhecimentos (curso comercial mesmo incompleto) se distinguia, para melhor, dos restantes Caixeiros de Balcão e dos Empregados de Escritório. De um modo simples e direto, eis algumas facetas com que a minha memória mima o CV e que a facilidade de expressão e a marcha social dos tempos vieram a simplificar apenas para “Viajante”. - Quem era CV no Interior, passava imenso tempo sem ver a família. Havia casos, no início dos anos 60, que só regressavam a casa no final do mês depois de ter “feito a volta toda” e numa época em que nem os carros nem as vias de comunicação eram o que são hoje. Relatórios e Notas de Encomenda eram elaborados à noite e seguiam por correio, no dia seguinte, para os escritórios da empresa.
- Fazia do balcão da casa comercial do cliente a sua sala de visitas e a pensão da terra/cidade já conhecia os dias e os gostos certos desta gente que vinha de fora, mas de passagem regular e de trato amigo, como se fosse família.
- Se fossem da área das fazendas, atoalhados ou confeção, a sua chegada representava, sobretudo para as freguesas coincidentes com tais momentos expositivos, o contacto com a moda, com as coisas novas e bonitas. E questionavam, o que se está a usar agora?
- Elo de ligação entre o litoral citadino, industrializado, e o interior rural, o CV dava vida às terras por onde passava. Transportavam as boas e as más novas dos negócios, as novidades segredadas da política (completavam as notícias emitidas pela BBC para Portugal às 23 horas pelo William Gilman), as últimas anedotas do Salazar e do Cerejeira, os bastidores do futebol, e tudo o mais.
- Houve CV que se afeiçoaram a certas localidades, aos seus clientes e familiares, afetos que foram perdurando. Outros, que deixaram amores diversos, quais cavaleiros andantes. Aventureiros. E há sempre peripécias humorísticas e peculiares para contar. Relembro apenas um CV de VN Gaia que, sabendo da opção futebolística do meu Pai, idêntica à sua, colocava no verso da fatura, “Viva o FCP”, atenuando, assim, a ausência de títulos naqueles tempos.
E o mundo não para, pois é composto de mudança.
O CV caiu em desuso. As malas antigas estão vazias. Veio o Vendedor, o Técnico de Vendas, o Gerente Comercial, etc., apenas com leves pastas de couro e micas de plástico; vieram o fax, o telemóvel, as encomendas e vendas pela Internet, as grandes e médias superfícies (com tudo à mostra e quase sem empregados), para onde somos conduzidos por boas estradas e cartazes consumistas.
Que gente foi esta, cheia de humanidade, cavalheiresca, viajando de casa em casa (e a sua casa?) que nunca viram o seu lugar fixado na vida económica e social do país? (Nota: No Brasil, a realidade do CV teve sempre outra dimensão, atento a extensão do país e o dia 1 de Setembro é o dia do CV, a quem Jorge Amado denominou como “o último bandeirante”).
Na geografia sentimental da vida de cada um, quantos de nós já fomos e somos CV. Dia a dia, há uma rota que voltamos a trilhar com ou sem hesitações, entre a fadiga e a esperança, cruzando as paredes do tempo, escolhendo a estrada para regressar ou partir, a casa onde habitar. E nesta ordem de ideias, há que referir que a obra de Eduardo Lourenço (condecorado no passado dia 10 de Junho), faz-nos viajar dentro de nós próprios, no modo de ser, de estar e de se sentir português, num labirinto de saudade entre um cais de saída e uma cidade de chegada.
Eternamente Viajantes, com as malas vazias ou cheias de memórias e de esperança.

     
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