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País de diáspora – Triste sina a nossa

Portugal, na sua história, foi sempre um país de emigração. Desde os processos de expansão dos Descobrimentos, com o consequente povoamento e colonização da África à Índia e a Timor, passando por Terras de Vera Cruz, a presença portuguesa, das suas comunidades, os seus usos e costumes, a sua língua, constituíram (e ainda constituem), marcas genéticas de um povo que não cabia no tempo e no espaço deste retângulo à beira mar plantado.
Partir, descobrir, organizar a vida noutros mundos, forçados ou incentivados e criando a palavra “saudade”, são marcas indeléveis de uma das mais impressionantes dimensões da História de Portugal que tantos escritores referiram de formas tão diferentes, mas profundas. Relembro, entre outros, a “Peregrinação”, de Fernão Mendes Pinto, os “Emigrantes” e “A Selva”, de Ferreira de Castro, ou, mais recentemente, “Gente Feliz com Lágrimas”, de João de Melo. Eça de Queirós dizia que “Em Portugal, emigração não é a transbordação de uma população que sobra; mas a fuga de uma população que sofre”.
No século XX, depois da emigração para o Brasil, foi a vez de nos anos 60/70 o país se despovoar, sobretudo no seu interior, e partir para terras de França e de Alemanha. Fugia-se de uma vida de miséria, de um país pobre, salazarento e oprimido, e debaixo de uma guerra que levava também os braços mais jovens e fortes da nossa terra.
Os sacrifícios e privações foram muitos para que esta gente que emigrou pudesse ter uma casa sua e dar uma vida digna aos filhos. Em França, chegaram a viver um milhão de Portugueses e Paris era a “segunda cidade” portuguesa. Dos “bidonvilles” aos posteriores bairros sociais, os Portugueses ajudaram a reconstruir e a recuperar uma Europa que tinha saído recentemente da 2ª Guerra Mundial.
Veio o 25 de Abril, a independência das ex-colónias, e Portugal teve a capacidade física, económica e emocional de receber e integrar milhares de cidadãos regressados de África. Neste momento da nossa história, emigração passou a escrever-se com “i”. E continuou a ser com “i”, quando, depois da integração europeia e, sobretudo, da adesão ao acordo de Shengen, (1995), chegaram a Portugal cidadãos vindos da Europa de Leste e ocuparam o lugar dos que saíram definitivamente, ou mesmo temporariamente, e, sobretudo, quando o país estava apostado no desenvolvimento em novas infraestruturas que os dinheiros europeus iam alimentando.
O país atrasado, rural e isolado que éramos tinha ficado definitivamente para trás na última década do século XX.
Nunca se pensou que seria possível assistir a uma nova vaga de emigração de Portugueses que, presentemente, abandonam a sua terra e a sua família para procurar emprego no estrangeiro. Em 2012 tinham saído cerca de 121 mil pessoas (dados do INE) à procura de uma oportunidade de emprego que o seu país lhes negava, não só agora mas também na perspetiva de um futuro próximo.
Acontece que esta nova vaga de emigrantes são pessoas qualificadas, a viver um novo tempo geracional, cosmopolita, rodeado de tecnologia e de informação rápidas e extensas, que nada têm a ver com os anos 60/70 dos seus pais e avós. Contudo, não deixa de haver dois vetores profundos e comuns a ambas: não se trata de uma emigração voluntária: é forçada (ausência de trabalho e o pouco que há é mal pago) e viver neste país não dá direito ao sonho, ao direito de perseguir a felicidade.
Do ponto de vista económico e social, esta nova vaga migrante apresenta os seguintes matizes bem negativos para o país que somos e que queremos ser:
– A saída de jovens qualificados desperdiça o investimento na educação, paga com os nossos impostos. Portugal não terá o retorno devido, já que estas pessoas irão contribuir para o desenvolvimento de outros países que não gastaram um cêntimo na sua formação.
– A saída de recursos humanos qualificados para países do centro e do norte da Europa pode ainda reforçar a sua dinâmica de produtividade e de qualidade, em detrimento dos países do sul, onde as mesmas variáveis ficam cada vez mais negativas.
– Muitos dos que partem, aconchegados profissionalmente nos países de destino, poderão não voltar e, ao refazer aí vida, nem enviam remessas para cá; por outro lado, procriam, evitando que ocorra uma renovação geracional no seu país natal, que da mesma está tão necessitado. Noutras latitudes, vão criar novas raízes. Notícias do país basta ir à net. Saudades da família, sim, mas não do país que os escorraçou.
– Por outro lado, a Segurança Social e o sistema fiscal irão ressentir-se fortemente, o que já acontece agora e todos nós o sentimos. Seremos cada vez mais um país de velhos, que, a par de um interior desertificado, onde quase todos os serviços de apoio e de proximidade lhes são sonegados, caminhamos para uma enorme tragédia económica, social e humana.
É certo que o mundo mudou muito nos últimos vinte anos. A globalização da economia e a manifesta mobilidade das pessoas colocaram novos desafios e puseram na ordem do dia uma nova geografia social e do trabalho. Mas, ao ritmo da saída a que se processa este novo cenário migratório, Portugal fica cada vez mais longe de uma solução que, não sendo fácil, também não é devidamente ponderada por uma classe política cada vez mais incapaz e medíocre e que desconhece o país que vai desgovernando, preferindo vendê-lo ao estrangeiro.
O tempo urge. O problema não é só o dia de hoje. É também e sobretudo o dia de amanhã – pois eu não quero (e ninguém quererá) que os nossos filhos estejam condenados a viver num país fatalmente subdesenvolvido.
Concluindo, triste sina a nossa. Recordo Miguel Torga, que escrevia: “Há uma coisa que eu nunca poderei perdoar aos políticos: é deixarem sistematicamente sem argumentos a minha esperança”. Na mesma linha de ideias, na lonjura da Pátria, Jorge de Sena, através do seu poema “Arte de Furtar” (José Afonso musicou-o para o álbum “Traz um Amigo Também”, editado em 1970) versejava do seguinte modo: Roubam-me Deus/Outros o Diabo/quem cantarei? Roubam- -me a Pátria e a Humanidade/Outros ma roubam – quem cantarei?”


Nota: Artigo publicado no jornal “Terras da Beira” (Guarda) em 6 de fevereiro.


Por Ângelo Henriques

     
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