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O novo léxico dos governantes

Do “irrevogável” revogável
ao “temporário” permanente


Do dicionário da língua portuguesa:
Léxico: S. m. – Dicionário de línguas clássicas; Vocabulário de uma língua. (do gr. Lexikón “relativo às palavras”)
Irrevogável: Adj, 2º gen. – Que não é revogável; Que não se pode anular; definitivo. (do Lat. irrevocabili, “id”)
Revogável: Adj 2º gen. – Que se pode revogar. (Do lat. revocabili, “id”)
Temporário: Adj. – Que dura só certo tempo; Provisório; Passageiro. (Do Lat. Tempurariu, “id”)
Permanente: Adj. 2º gen. – Que permanece; Duradouro; Imutável; definitivo (Do lat. permanente, “id”)


Os reformados e pensionistas, quer do estado quer do setor privado (também da banca!) têm vindo, ao longo dos últimos dois anos, a ser espoliados de parte das suas pensões ou reformas, para as quais descontaram ao longo de uma vida de trabalho.

Os cortes foram, inicialmente, apresentados como um mal “temporariamente” necessário à recuperação económica do País, com a promessa de que essas pensões brevemente seriam repostas nos valores à data dos primeiros cortes O Tribunal Constitucional teve dúvidas, mas deixou passar.

A esses cortes –, cujos valores são retirados depois de deduzido o IRS, o que aumenta sorrateiramente a carga fiscal – foi dado o pomposo nome de “Contribuição Extraordinária de Solidariedade” (CES).

Mas, tal como o significado da palavra “irrevogável” deixou de existir no léxico português, devendo, por isso, ser expurgada dos dicionários (e ainda culpam o acordo ortográfico de promover a descaraterização da língua de Camões ) o vocábulo “temporário” passou, por artes de magia governamental, a significar permanente

Se não fosse tão trágico, por implicar com a vida de centenas de milhar de famílias, das mais desfavorecidas deste País à beira- mar plantado, poderíamos considerar que estes atos burlescos da nossa (des)governação se enquadrariam bem no Dia Mundial do Teatro, que ocorreu no passado dia 26 de março, mas não de comédia, antes de tragédia

Tragédia porque aparece precisamente quando o desemprego alastra, atirando muitas famílias para a miséria: todos os dias nos confrontamos com cada vez maiores filas de famílias completas nas “sopas dos pobres”

Tragédia porque, aliado a isso, assistimos à despenalização dos despedimentos sem justa causa, convidando o patronato a dispensar quem mais ganha, para admitir trabalhadores a quem pagam, como se diz na minha terra, com uma tijela, ou malga, de sopa.

Tragédia porquanto, e por causa disso, há cada vez mais cidadãos sem um teto de abrigo

Tragédia porque esse tal “complemento solidário” implicou que muitos daqueles que se veem esbulhados daquilo que foram conquistando ao longo da sua vida de trabalho não podem agora auxiliar familiares que, por falta de emprego, se encontram no limiar da pobreza e para quem, em muitos casos, seriam o único amparo

Tragédia porque esses cortes, que nada têm de solidário, vêm antes contribuindo, sem sombra de dúvidas, para o aumento dos suicídios que atualmente se verificam na sociedade portuguesa. Não há que escondê-lo. Só os cegos não veem o mal que se está a prestar à população. Mas mesmo esses, infelizmente, não o vendo, sentem-no.

Os reformados, os pensionistas, os funcionários públicos e privados, todos têm direito à indignação...

     
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