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Falemos de obesidade…

… da Saúde:
“Estado de completo bem-estar físico, moral e social e não apenas a ausência de doença
ou enfermidade”
(O.M.S.)


Falemos de obesidade…

Falar de obesidade hoje em dia é quase tão vulgar como falar de qualquer tema que nos preencha o quotidiano, como futebol, política ou, simplesmente, do tempo que faz. Se há muito tempo atrás a obesidade era referida ou encarada mais como uma situação do foro estético, hoje em dia a sua relação com a saúde condiciona numa grande quantidade de pessoas uma preocupação que nos parece de grande importância.

O conceito de décadas passadas de que “gordura é formosura” foi progressivamente sendo substituído por uma tentativa de mostrar uma linha corporal com uma marcada tendência para a magreza. Mas, como em tudo na vida em que os extremos quase se tocam, é tão prejudicial para a saúde a obesidade como a magreza. Quer uma quer outra estão constantemente na mira dos profissionais de saúde, quer sejam médicos ou não.

Veja-se por exemplo o que se passou muito recentemente com as profissionais da moda que passam modelos e em que a magreza excessiva que apresentavam foi e continua a ser motivo de preocupação até para os próprios criadores de moda, a ponto de haver já alguns que não aceitam profissionais com peso abaixo de determinados valores. Mas, deixando de lado a problemática da magreza vamos falar um pouco sobre obesidade – doença crónica caraterizada por um excesso de gordura corporal.

Embora muitas pessoas tenham uma grande tendência a relacionar simplesmente o peso com a altura, a obesidade deve ser definida em termos de massa corporal – o chamado índice de massa corporal (IMC). E o que é o IMC? É a relação entre o peso em quilogramas e o quadrado da altura em metros. Atendendo assim ao IMC, poderemos dizer que até 25 o valor é normal, de 25 a 30 há excesso de peso e o risco de doença está aumentado, de 30 a 35 deve ser considerado obeso (classe 1) com o risco de doença moderado, de 35 a 40 é um obeso (classe 2) e o risco de doença é grave e acima de 40 é classificada como obesidade mórbida (classe 3) e o risco de doença é muito grave.

Os indivíduos obesos têm um maior risco de doenças graves, nomeadamente cardiovasculares e diabetes. Para além da determinação do IMC, o perímetro da cintura é também relevante, pois indica, de uma maneira muito simples, a acumulação de gordura abdominal. Como curiosidade, poderei dizer que um indivíduo pode ser descrito como tendo uma obesidade tipo maçã ou pera. Uma grande acumulação de gordura abdominal (tipo maçã ou padrão masculino) é um fator de risco.

Uma acumulação de gordura na região nadegueira e nas coxas (tipo pera ou padrão feminino), parece não ser um fator de risco muito relevante. As causas de obesidade são muito variadas e, de uma maneira geral, pode dizer-se que ela se desenvolve como resultado de interação entre fatores genéticos e estilos de vida.

Contudo, outros fatores estão a maior parte das vezes implicados, tais como sociais, culturais, comportamentais, psicológicos, metabólicos… As crianças filhas de pais obesos ou com excesso de peso têm também maior risco de desenvolver obesidade. O risco está também associado com a classe social e com o nível de educação. A cessação tabágica também está associada a um maior risco.


Tratamento da obesidade

Vamos agora abordar, de uma maneira muito resumida, qual o tratamento da obesidade. A dieta, por si só, não tem provado ser útil a longo prazo. Uma percentagem muito significativa de doentes (talvez mais de 90%) que tentam perder peso só com a dieta voltaram a ganhá-lo novamente. Mas a dieta associada a um exercício físico programado e com uma terapia cognitiva comportamental pode ser muito mais eficaz.

Podemos ter também a ajuda de fármacos, que podem atuar de várias maneiras. Uns pertencem ao grupo das anfetaminas e atuam no cérebro (hipotálamo), suprimindo o apetite por estimulação do centro da saciedade. Apresentam muitos efeitos secundários, como por exemplo o aumento da tensão arterial. Outro tipo de medicamentos é a sibertramina, que inibe a serotonina/ noradrenalina, promovendo por si só a saciedade.

Esta medicação (tal como as outras) deve ser rigorosamente controlada pelo médico, nomeadamente quanto aos efeitos secundários, dos quais a hipertensão arterial é o mais significativo. Outro fármaco é o Orlistat, que é um inibidor da lípase, impedindo assim a absorção das gorduras. A diarreia é uma das complicações mais frequentes e a ter em conta na prescrição deste medicamento. Por último, quero referir a cirurgia, hoje cada vez mais citada e aplicada, sobretudo em casos de obesidade mórbida.

Com ela consegue-se uma maior redução ponderal e mais duradoura, sobretudo em comparação com a dieta e com a terapêutica medicamentosa. De uma maneira muita sucinta, posso dizer que a cirurgia pode ser feita de várias maneiras, mas as técnicas mais usadas são a gastrobandoplastia e a colocação de um balão gástrico. Qualquer dos processos tem como finalidade a redução do volume do estômago, permitindo assim que o doente se sinta saciado com pequenas quantidades de alimento.

Convém dizer que estes métodos cirúrgicos têm indicações muito restritas, estando indicadas em doentes com IMC acima dos 35 ou que tenham patologias de risco associadas. Implicam sempre o acompanhamento do doente com grupos multidisciplinares, que incluem geralmente o cirurgião, o psiquiatra, o psicólogo e o nutricionista. O tempo pós-operatório, pela restrição alimentar que obriga e por uma grande disciplina no acatamento da quantidade e do tipo de alimentos, torna-se, na maior parte das vezes, num sacrifício que tem de ser suportado pela vontade do doente, com a finalidade de atingir o resultado esperado.

Temos toda a obrigação de tentar combater a obesidade, sobretudo se nos lembrarmos de que, só para dar alguns exemplos:
- a obesidade aumenta o risco de doença cardiovascular, nomeadamente o AVC e o enfarte do miocárdio; a mortalidade como resultado de doença cardiovascular é 50% superior em doentes obesos e 90% em doentes com obesidade grave;
- a prevalência de diabetes é cerca de três vezes maior em doentes obesos, relativamente a doentes com peso normal;
- cerca de 60% dos doentes obesos têm HTA;
- a prevalência de osteortrose aumenta com o acréscimo de peso;

E, para terminar, quero dizer que a obesidade é essencialmente uma questão relacionada com o estilo de vida e que, portanto, muitas entidades, para além das que estão ligadas à saúde, têm de ser envolvidas no combate à sua diminuição: nas escolas têm de ser discutidos e tratados temas ligados à dieta e à nutrição; a indústria alimentar tem igualmente de ter um papel muito importante. E questiono só o seguinte: que significa aquilo que muitas vezes vem nos produtos alimentares ou em bebidas, tais como “pobre em gorduras” ou “light”? Deve ser fomentado o exercício físico e o desporto. Daí o papel da escola e dos clubes desportivos. E, por último, o papel dos meios de comunicação social na informação, no apoio e no incentivo ao exercício físico e ao desporto.


Luís Aguiar
Diretor clínico do SAMS

     
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