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História das abelhas (VI)

O papel da rainha

Existe na colmeia um ser absolutamente à parte, há muito conhecido por rainha ou mãe da colmeia. Esta rainha, que não dá ordens e que só indiretamente dirige as atividades da colmeia, consiste essencialmente num órgão reprodutor, um ovário, que não só põe ovos como fabrica um certo número de hormonas que, atuando sucessivamente, desempenham o papel de regularizador de grande número de funções do organismo social. Não há ainda muito tempo que as nossas ideias sobre o papel da rainha se tornaram claras.

A rainha é, realmente, um inseto peculiar que provoca uma série de reações sobre as obreiras de que já conhecemos as seguintes:
1) atrai-as como um íman à limalha de ferro;
2) impede-as de construir as células reais;
3) obsta ao desenvolvimento dos ovários;
4) incita-as, por outro lado, a construírem favos de cera com células de obreiras e de zângãos.

A coesão social da colónia depende em absoluto da produção da “queen-substance”, a ferormona segregada pela rainha que determina o comportamento da colónia; esta substância é recolhida pelas obreiras que lambem a rainha, circulando depois pela colónia através da permuta alimentar, provocando o atrofiamento dos respetivos ovários e a inibição da construção de alvéolos reais.

Por esta razão, quando a rainha falta, envelhece, ou o número de abelhas é muito elevado (casos em que a “substância-de-rainha” não chega a todas as obreiras), estas começam a construir alvéolos reais. Destes alvéolos reais há de nascer uma princesa que, depois de fecundada, irá assumir o controlo da colónia, substituindo a velha rainha, e esta, por sua vez, abandona a colmeia acompanhada de metade da população para formar uma nova colónia – é o processo natural da multiplicação da espécie: a enxameação.


Os caminhos das abelhas

Quando se dirigem para a colmeia ou ao deixá-la, as abelhas seguem um caminho determinado (o carreiro, como falam os abelheiros), na direção das plantas nectaríferas já descobertas. Estes caminhos passam a uma dezena de metros de altura, têm um a dois metros de largo e estão tão claramente definidos que podemos estabelecer o mapa.

Curioso é que estes caminhos se mantêm fixos de ano para ano, porque estão ligados aos acidentes permanentes do terreno; por exemplo, elas ‘visam’, chegando diante da floresta, a clareira que lhes vai permitir passar por baixo sem sobrevoar as árvores. Não ignoram a lei do menor esforço! Enquanto os acidentes do terreno se mantiverem inalteráveis, os caminhos das abelhas não variam. Recordam-nos de certo modo os caminhos terrestres das formigas, de que também se pôde estabelecer o mapa e verificar a estabilidade.


As construções das abelhas

As construções dos favos sempre impressionaram a imaginação dos homens. Nada mais belo do que um fragmento de cera virgem na sua brancura de leite e no seu rigor geométrico! Réaumur queria que fosse escolhido o comprimento de uma célula como unidade de medida. No entanto, tal unidade não seria exata, porque a dimensão da célula depende da raça da abelha. Nessa época perguntaram a um matemático, Maraldi, o seguinte: qual deve ser a forma de um vaso que ofereça um maior conteúdo com a maior economia de material? E Maraldi respondeu: a forma hexagonal.

O que impressiona é a forma do favo, elipsoide com um estrangulamento depois da implantação no suporte de madeira do quadro, com os bordos delgados e sempre regulares. Só a dimensão varia com o número de abelhas que se dedicam à tarefa. Como fazem elas? Não se sabe. É sempre no centro de uma massa muito apertada de abelhas, o cacho de cera, no meio da qual a temperatura atinge 34 graus ou ainda mais. É neste forno biológico que a cera é elaborada e transformada em favo.

As abelhas mantêm-se curiosamente imóveis, ligadas pelas patas, por vezes seguindo traços mais sombrios e correspondentes a uma camada de insetos mais espessa. As células podem ser modificadas de todos os modos possíveis. Poderão também ser reparadas quando se lhes inserem objetos estranhos ou quando sofrem danos acidentais pelas intervenções do apicultor. Todos os estragos serão minuciosamente retocados pelas operárias. Estes retoques constituem uma das caraterísticas mais constantes da construção nas abelhas.


As células reais

Todos ouviram falar da loucura pela geleia real, que há alguns anos afetou não só o mundo apícola como, em largas proporções, toda a gente. Será mais fácil de compreender se citarmos alguns números: o produto foi vendido mais caro do que o ouro, pois começou por 3.000$00 cada 10 gramas. Atualmente o preço anda ainda próximo dos 5 euros cada 10 gramas e, por exemplo, venderam-se em França, num só ano, mais de oitocentos quilos. Compreende-se, portanto, a enorme importância que lhe atribuem os apicultores.

De resto, é exato que contém certos princípios de interesse terapêutico (como um ácido novo, o ácido decenóico, que não existe senão aí); deve notar-se, porém, que não é tão raro nem tão custoso como se diz, pois uma única colmeia pode produzir quinhentos gramas por ano, segundo as técnicas atuais. Estas técnicas são bastante engenhosas. As cúpulas de cera ou de plástico (ou de outro material), que vão ser a base das células reais, são coladas a barras de madeira, com abertura para baixo (pormenor essencial).

Depõe-se no interior uma gotazinha de geleia real diluída, em que repousa uma jovem larva colhida num favo. As barras, guarnecidas com 48 a 60 cúpulas, são introduzidas numa colmeia órfã (à qual se retirou previamente a rainha), cheia de abelhas, que não tardam a depositar aí, por cúpula, de cem a quatrocentos miligramas de uma massa esbranquiçada que se assemelha ao iogurte, mas com um gosto ácido e ardente. Trata-se da famosa geleia real. A papa alimento da rainha, que graças às suas qualidades lhe fornece vigor e resistência para toda a vida, que pode chegar a viver de seis a dez anos.


O problema do pólen

O pólen é convencionalmente descrito como as células sexuais masculinas da flor, apresentando como missão a união com as células sexuais femininas – os óvulos –, que podem ou não estar presentes na mesma flor. Para a união das duas células sexuais, diversas estratégias foram desenvolvidas ao longo da evolução. Algumas plantas que produzem grãos de pólen de reduzida dimensão podem confiar no vento como agente de dispersão. É o caso das gramíneas (como o trigo ou a relva), das coníferas (como os pinheiros ou os ciprestes) e dos carvalhos (como o carvalho-português ou o sobreiro). O vento como transportador é muito eficaz, podendo elevar os minúsculos grãos a uma altura de cerca de 5.800 metros e afastá-los dos progenitores mais de 55.000 quilómetros.

Porém, tal acontece totalmente ao acaso e é assim que a esmagadora maioria dos milhões de grãos de pólen produzidos por uma única planta não consegue chegar ao destino, acabando por se perder. Como o pólen é rico em óleos e proteínas, a produção constitui um gasto significativo para a economia da planta, o que significa que as perdas são bastante consideráveis. É por este motivo que muitas plantas adotaram uma estratégia diferente. Para reduzirem o esbanjamento de pólen, investem em dispositivos de recrutamento de auxiliares – os animais, na maioria insetos, e aqui cabe maioritariamente o papel das abelhas. A eles cabe a importante (nalguns casos, fundamental) missão de recolha e entrega do pólen de uma flor para outra.

É quase certo que uma planta terá de competir com as vizinhas da mesma espécie para atrair a atenção de tais prestadores de serviços. Como as que fazem publicidade com maior êxito deixarão mais descendentes, a competição acentua-se ao longo das gerações e os “anúncios” vão-se tornando cada vez mais espantosos. Mas como em qualquer contrato de prestação de serviços, terá de haver uma recompensa. A forma mais simples de pagamento é permitir ao animal que fique com uma parte do que transporta. Afinal, o pólen é muito alimentício.

A colheita do pólen pelo apicultor, em termos comerciais, põe-nos mais um problema; Louveaux consagrou-lhe a sua tese. Trata-se de um tema fascinante, mas para o compreender é necessário ter visto os capta-pólen em ação, num lindo dia de primavera. A construção dessas armadilhas é simples: trata-se de uma placa de contraplacado ou de material plástico, perfurada por buracos redondos com quatro milímetros de diâmetro, colocada na entrada da colmeia. As abelhas atravessam-nos facilmente, mas as grandes bolas de pólen que transportam coladas às patas posteriores roçam nos bordos dos buracos e caem num caixote colocado por baixo.

Podem recolher-se assim quantidades incríveis de pólen: mais de cem gramas por colmeia e por dia. As bolas de pólen são de todas as cores, do branco ao azul-marinho, passando pelo verde, amarelo, violeta e preto. As abelhas colhem-no num certo número de flores que visitam assiduamente; não há duas colmeias, ainda que colocadas lado a lado, que recolham as mesmas bolas coloridas ou que as recolham nas mesmas proporções. Louveaux entregou-se durante numerosos anos a laboriosas estatísticas que lhe permitiram obter resultados convincentes.

Errata: O texto anterior desta série de artigos, publicado na edição de setembro/ outubro, saiu com uma lamentável gralha que confunde o sentido da interpretação que se pretende: - assim, o último subtítulo desse artigo é: “A defesa social contra as doenças da colmeia”, em vez do que consta na revista.


João dos Santos Pimpão

     
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