Pesquisa

ok
Home»Nortada»Nortada Detalhe
 
Assédio moral e sexual: denunciar, denunciar, denunciar!

Há algum tempo atrás, o órgão a que pertencia, pediu uma reunião sobre o assédio moral e sexual nos locais de trabalho com um grupo parlamentar. A senhora presidente desse grupo que, naturalmente, não vou aqui revelar, manifestou-se muito admirada com a exposição que lhe fiz e disse-me, sem margens para dúvidas: “Clara, eu não tinha a noção de que o assédio tinha estas proporções!”. Sendo este apenas um caso entre tantos e tantos outros, não me parece que isto seja um assunto com muita visibilidade. Aliás, não me restam muitas dúvidas de que este é um assunto ainda muito subterrâneo. Por isso, a nossa missão é torná-lo visível, até porque só sendo visível ele poderá ser combatido. Não há outra maneira, na minha perspetiva.

A crise acentuou esta realidade, quer pelo medo de as mulheres, ao denunciarem as situações, perderem o emprego, quer pelo aumento da precariedade dos vínculos laborais, mas também pela pressão que se vive nas organizações que, como sabemos, são permeáveis às convulsões sociais. O que é grave é que, por vezes, as mulheres não têm noção de que estão a ser vítimas de efetiva violência, ou, sabendo-o, não o sabem configurar. Ora, todos estes fatores se traduzem numa maior insegurança no emprego e fragilizam as já de si tão frágeis vítimas, fazendo disparar uma realidade que até há pouco tempo era, como já referi um tema subterrâneo.

O assédio moral e o assédio sexual, independentemente do que aqui foi dito, estão completamente interligados. Umas vezes começa por ser assédio moral, terminando em assédio sexual. Outras vezes, é a situação inversa que ocorre. Não estão dissociados um do outro. Afirmo-o convictamente, pelas inúmeras queixas que já têm chegado até mim. O assédio sexual e o assédio moral constituem atentados às condições de trabalho. O primeiro passo é sempre o mesmo: o agressor coloca a vítima em falta, para fazer parecê-la incompetente, e depois passa a recriminá- la, ao ponto de a conseguir afastar.

O isolamento e a recusa de comunicação, são métodos frequentes, que o agressor tende a banalizar e a fazer parecer naturais. É um atentado à dignidade, são gestos de desprezo, atitudes que desqualificam, que são notadas por todos, em que a vítima é tida como responsável por eles. Sim, a vítima é sempre a culpada e é isto que temos de combater. A vítima também se autoculpabiliza, porque a sociedade assim o induz. Desgraçadamente, temos uma sociedade que não culpabiliza o agressor, a pessoa que é o móbil do crime e que por isso tem de ser ele o responsabilizado e criminalizado. Não, esta sociedade hipócrita acha que a vítima é que fez qualquer coisa de errado, mesmo sem lhe dar possibilidade de se defender.

A violência verbal e física ou sexual surge quando o assédio já está instalado e quando, apesar de notado por todos, a vítima está extremamente fragilizada e sem apoio. Este é o fim da linha. Vou dar alguns exemplos, que tirei de casos práticos de pessoas que nos contactaram. As pseudo-gracinhas. É muito caraterístico quando o chefe começa a dizer umas pseudo- gracinhas e as pessoas não percebem, não valorizam e a mulher não diz nada. Eu alerto sempre: “Reajam logo! Não admitam esse tipo de coisas no trabalho.

Como diz o bom povo português, trabalho é trabalho, conhaque é conhaque!” Desculpem esta minha maneira de me expressar, mas as coisas acontecem assim mesmo. Depois temos os comentários: “Hoje estás muito elegante, hoje estás muito sexy!” Acham que uma mulher diz isto a um homem no trabalho? Já percebi que não. As carícias ou os pedidos de favores sexuais em troca de promoções, são situações que sabemos que acontecem. Depois passa-se às intimidações. Entra-se numa escala que, como já perceberam, é crescente em termos de gravidade. Depois há as ameaças e, mais tarde, as represálias.

A seguir, quando percebem que não há cedência, são as recusas de promoção. O assédio está ligado ao exercício do poder, porque só pode acontecer quando há poder, quando a hierarquia exerce um poder de cima para baixo. Normalmente, sabemos que este poder, ainda são os homens que o detém, na maior parte das empresas. São os homens que estão no poder político e financeiro. Ainda não estamos nos 50% – número que acho que é onde devíamos chegar, ou não são as mulheres 52% da população? Termina na demissão ou em outras injustiças, associadas a uma recusa de favores sexuais.

As vítimas que passaram pelo SBN, por muito que eu lutasse para que não desistissem, desistiram a maior parte delas. Algumas abandonaram mesmo o setor bancário e precisavam de emprego, tinham filhos, mas chegava uma altura que se iam embora porque não aguentavam mais. Nestes casos, a vítima entra numa escalada de depressão e de degradação psicológica tal, que se reflete na família, até porque a vítima não reparte este problema com quase ninguém. Dificilmente a vítima fala disto; é muito difícil falar, até pelas repercussões que a situação acarreta. Vai calando, calando e a família e a relação sexual dentro do casal ficam completamente destruídas. É preciso perceber a gravidade e as consequências sociais que isto tem. Nunca mais esta mulher vai ser o que tinha sido antes.

Ainda que o assédio no local de trabalho seja tão antigo quanto o trabalho, só no início dos anos 90 foi considerado destrutivo do ambiente de trabalho, não só reduzindo a produtividade, mas também favorecendo o absentismo, devido aos danos psicológicos que envolve. Uma mulher que se sente mal, facilmente entra de baixa, não vai ao trabalho, tem problemas de produtividade porque está afetada psicologicamente e as empresas ainda não perceberam até que ponto isto perturba a produtividade e o ambiente laboral. Será que não temos de ser interventivos e mobilizar as empresas neste sentido? Lanço aqui este desafio. Se às empresas for posta a questão de outra maneira, teremos outros resultados que não temos tido até aqui. Trata-se da quebra do dever do respeito pela dignidade das mulheres e dos homens no trabalho.

Toda a pessoa tem o direito de desenvolver de forma digna o seu trabalho e não o pode fazer se for vítima de assédio moral ou sexual. É por aqui que temos de começar o nosso trabalho. Relativamente às medidas, os diversos casos podem e devem ser denunciados pelos vários agentes. As vítimas tendem a calar, porque o assédio sexual interfere com aquilo que há de mais sagrado na vida da pessoa, que é a intimidade. Os colegas de trabalho, os sindicatos e as comissões de trabalhadores têm um papel fundamental. São o primeiro local onde normalmente a vítima se desloca e vai pedir apoio. Os sindicatos têm obrigação de estar sensíveis a estas questões e de não dizer: “Isso é um assunto paralelo, não tem assim tanta importância”. No meu gabinete vejo muitas mulheres a desfazerem-se em lágrimas e não vou aqui contar as coisas que oiço, que são degradantes, arrepiantes.

O que a vítima não deve fazer.
Silenciar, isolar-se, demonstrar qualquer tipo de fragilidade emocional, carências afetivas, medo ou ansiedade. Quando o agressor sabe que a vítima vive sozinha, que a vítima é uma pessoa emocionalmente menos estruturada, esta torna-se um alvo mais fácil. Digo sempre: “Não demonstrem este tipo de fragilidades!”.

Dificuldade em controlar reações.
Como consequência, a vítima, vai de novo ser penalizada. Manifestar sentimentos de fracasso é algo que o agressor adora.

O que a vítima deve fazer.
Nunca ficar sozinha com o assediador. Nunca permanecer nas instalações laborais fora do horário normal de trabalho, que é logo meio caminho andado. Guardar tudo o que possa servir de prova, como por exemplo, correios eletrónicos, prendas, bilhetes, post’its, sms… Tudo isto é fundamental, mesmo que pareça insignificante, porque em tribunal é preciso provas. Exigir que as ordens de serviço sejam por escrito. Demonstrar claramente que não aceita conversas que não sejam estritamente de serviço. Ter alguém de confiança que esteja a par da situação. Se o agressor souber que esta mulher não está isolada, que esta mulher tem uma amiga, tem o pai, a mãe ou o marido que estão a par da situação, começa a refrear. E depois, denunciar. Só há uma maneira de combater, que é denunciar. Na negociação coletiva, é incontornável exigir que esta problemática seja integrada no clausulado. Socialmente, o assediador tem de passar a ter uma imagem comparável à do violador, ou seja, a sociedade tem de passar a ser menos branda para com ele, o que já acontece com as questões da violência doméstica e passar a criminalizá-lo.
E, para terminar, denunciar, denunciar, denunciar!

     
   Imprimir        Voltar        Topo
Copyright © 2007 SBN