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História das abelhas (IV)

A divisão do trabalho

Basta-nos uma observação superficial para verificarmos que nem todas as abelhas se ocupam da mesma tarefa. A verdade, porém, é que o problema da divisão do trabalho tem sido tema de discussão diversa de muitos biólogos e tem feito correr muita tinta. É inegável a existência da divisão de funções. Assim, a jovem obreira que completou a metamorfose alguns dias atrás e tem já as glândulas labiais cefálicas suficientemente desenvolvidas para segregar geleia real, começa por alimentar as larvas e a rainha.

Não tarda, depois, a segregar a cera para a construção e a reparação das células dos favos; em seguida, ocupa-se da limpeza e da ventilação da colmeia e só no fim da vida irá colher o néctar e o pólen – função que não dura mais de duas ou três semanas, uma vez que a sua vida, no estado de adulta e durante o verão, não excede pouco mais de um mês. Termina como guarda da colmeia.

Diversos biólogos, na peugada de Rösch, consideravam esta evolução praticamente inalterável, embora por vezes reversível. O próprio Rösch realizara uma experiência famosa, em que privava o enxame de todas as abelhas jovens (removendo todos os quadros em pleno meio-dia e deixando apenas uma colmeia de quadros vazios, além da rainha), ou de todas as idosas (para o que bastava afastar a colmeia para algumas dezenas de metros de distância: as obreiras que regressavam do campo dirigiam-se ao lugar anterior e não conseguiam descobrir o novo).

A evolução das abelhas sofria então profundas modificações: no primeiro caso (ausência de abelhas jovens), uma parte das velhas obreiras que colhiam néctar e pólen passava a ficar na colmeia a cuidar das larvas que a rainha não cessava de procriar e, para isso as glândulas labiais atrofiadas regrediam e recomeçavam a funcionar. No segundo caso (ausência de abelhas velhas), a evolução das jovens acelerava-se e as glândulas atrofiavam-se rapidamente; em resumo, envelheciam mais depressa e abandonavam mais cedo a colmeia, para levar provisões e para salvar a colónia da fome.

Tudo isto é exato, mas Lindauer, de Munique, o melhor discípulo de von Frisch, veio corrigir as ideias de Rösch no que elas tinham de demasiado absoluto. Num enxame, a proporção de abelhas que se dedica a uma ou outra tarefa depende, em rigor, das necessidades da colónia. A evolução pode, inclusivamente, saltar algumas fases e, assim, é possível que determinadas abelhas nunca cheguem a segregar cera, por exemplo, ou que só alimentem as larvas durante um lapso de tempo reduzido.

Além disso, e mesmo correndo o risco de escandalizar muitos preconceitos, assinalamos um facto bem conhecido dos especialistas: um grande número de abelhas do enxame parece ocupadíssimo em não fazer nada! Mantém-se nos favos sem bulir ou aninha-se numa célula vazia e não sai de lá durante uma hora inteira.


A LINGUAGEM DAS ABELHAS

Que troças e controvérsias suscitaram, há alguns anos, as pesquisas de von Frisch sobre a dança das abelhas! Muitos julgavam até que se tratava de trabalhos relativamente recentes, quando, na verdade, as primeira publicações sobre o assunto remontavam a 1926! Havia, acima de tudo, um palavrão inaceitável, Bienensprache – conversação das abelhas – e alguns puristas da linguagem, que de von Frisch apenas conheciam um ou dois artigos de vulgarização, começaram a pontificar, explicando-nos o que era e o que não era uma linguagem e por que razão as abelhas não tinham o direito de falar.

É preciso dizermos também que os factos enunciados por von Frisch não tinham qualquer paralelo em toda a biologia: as exploradoras podiam indicar às congéneres a direção e a distância da reserva alimentar que acabavam de descobrir, por meio do ritmo e da direção de uma dança especial executada sobre os favos. Perante tais afirmações, muitos biólogos deixavam cair literalmente das mãos a já famosa revista de von Frisch “Anais da fisiologia comparada”. Um dia, porém, Thorpe, de Cambridge, decidiu tirar o caso a limpo. Foi de abalada até Brünnwinkl, no Tirol, onde von Frisch passava férias, e pediu-lhe, sem mais preâmbulos, que lhe mostrasse as experiências. “Nada mais fácil”, respondeu-lhe este, “basta-nos uma colmeia de parede envidraçada, um transferidor para medir os ângulos e um cronómetro para contar os segundos: temos aqui tudo.

Agora, vou deixar num ponto qualquer do parque uma taça com xarope para as abelhas sorverem. O senhor vai encontrá-la seguindo as indicações dadas pelas próprias abelhas”. Nesta altura, von Frisch retira-se e deixa Thorpe perplexo, como podemos imaginar! Mas, enfim, experimentar não custa caro e Thorpe lê as indicações dadas pelo cronómetro e pelo transferidor: 400 metros de distância, 30 graus à esquerda do sol. Segue na direção indicada... 350 metros... 400 metros... e pára com o coração apertado pela emoção que os biólogos às vezes experimetam: lá está a taça!

Como é natural, o inglês regressa entusiasmado e, ao escutá-lo, muitos biólogos perguntaram a si próprios se não seria conveniente reler com mais atenção os “Anais da fisiologia comparada”. A partida está ganha. Toda a gente admitiu as experiências e as teorias de von Frisch e, mais ainda, certos pesquisadores, como Birukow, de Friburg-en-Brisgau, encontraram noutros insetos esboços da linguagem dançada das abelhas.


A TRANSMISSÃO DE UMA INFORMAÇÃO

Coloquemos no centro de um prado uma colmeia envidraçada do tipo von Frisch, que nos permite localizar as abelhas com facilidade, e marquemos algumas destas com tinta, para futura identificação. Em seguida, vamos dispor nos quatro pontos cardeais quatro taças de mel, a oitocentos metros da colmeia, com um observador junto a cada uma. Ao fim de algum tempo, uma exploradora descobre, por exemplo, a taça do norte; suponhamos que se distingue por uma mancha branca no tórax. Regressa à colmeia e, alguns minutos depois, vem um grupo de abelhas direito à taça do norte e a nenhuma das outras e entre elas não se encontra a do tórax branco.

Concluímos, inevitavelmente, que a exploradora transmitiu às congéneres, por qualquer processo, a localização da fonte alimentar. Por outro lado, se dispusermos outras taças nas mesmas direções, mas a distâncias variáveis, é fácil verificar que só é visitada a que foi descoberta pela exploradora, o que significa que, além da indicação direcional, houve uma informação relativa à distância. Como a teria transmitido a exploradora? Outro observador postado diante da colmeia envidraçada vê-a entregar- se a uma manobra curiosa, conhecida há muito tempo, mas que apenas von Frisch soube interpretar: a exploradora desloca-se rapidamente sobre os favos, descrevendo curvas que lembram um 8, ao mesmo tempo que o abdómen vibra freneticamente.

As obreiras que a cercam parecem muito interessadas na manobra e acompanham-na em todas as evoluções, batendo-lhe, apressadas, com as antenas no abdómen. O eixo transversal do 8 pode ser mais ou menos inclinado em relação à vertical e o ângulo que faz com esta direção corresponde a outro ângulo compreendido entre duas linhas: uma, traçada da colmeia ao Sol, outra, da colmeia ao alimento descoberto. A distância é expressa pelo ritmo da dança, que será tanto mais lenta quanto mais afastado estiver o objetivo. Esta relação é bastante rigorosa até um quilómetro de distância; de resto, em termos funcionais de rendimento, as abelhas raramente costumam ir mais longe em busca de alimento.

Além disso, a dança contém outra informação: a natureza do alimento encontrado. Como dissemos, as abelhas seguem a dançarina nas suas evoluções, tocam-lhe com as antenas no abdómen: é um processo de cheirar o perfume das flores que o impregnam, uma vez que o tegumento da abelha retém os odores muito mais eficazmente do que outras substâncias naturais, como a madeira, a lã ou a cera. A informação transmitida poder-se-ia traduzir assim em linguagem humana: – “Atenção! A oitocentos metros de distância, a trinta graus à direita do sol, há mel num campo de flores de rosmaninho...”

     
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