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História das abelhas (III)

A procura do alimento

As abelhas colhem o néctar das flores – toda a gente o sabe. Não se limitam, porém, ao néctar, pois interessam-se igualmente pela água, pelo própolis e pelo pólen. Parece-nos necessário, neste momento, referir algumas noções de biologia floral, já que se me tem deparado uma ignorância generalizada sobre a natureza do néctar e do pólen.

O néctar é uma secreção açucarada de glândulas situadas normalmente na base das pétalas e que na flor de colza se podem descobrir facilmente com uma lupa vulgar. Entre as grandes pétalas amarelas distinguem-se umas bolas verdes e brilhantes: são os nectários.

Tomei a colza como exemplo por ser a planta mais melífera de entre as crucíferas (nabiças, couve-nabiça, nabo), que florescem no fim do inverno, princípios da primavera, quando os apicultores aproveitam as suas florações; basta que o tempo seja razoável para que se assista a um espetáculo curiosíssimo: estabelece-se uma autêntica cortina de abelhas entre as flores e as colmeias, cujo peso aumenta de dois a três quilos por dia. Mas como será que as abelhas encontram o néctar?

Com auxílio das exploradoras, enviadas à pesquisa e que transmitem informações preciosas às congéneres por meio de mecanismos de que falaremos mais à frente. Para já, fixemos que são o cheiro e a cor das flores que as guiam. Depois das pesquisas imortais de Karl von Frisch e da sua escola, conhecemos o olfato e a visão das abelhas tão bem como os do homem, e chegámos a esse conhecimento com o concurso de métodos de uma simplicidade admirável, como se vai ver.

Permitam-me, porém, apresentar antes disso o inspirador destas pesquisas e talvez o maior e mais ilustre experimentador que a biologia conheceu depois de Pasteur: o professor Karl von Frisch. Von Frisch (20 de novembro de 1886/12 de junho de 1982) é o Herr Professor alemão, frio, metódico e absorto nas suas meditações que durante mais de quarenta anos estudou as abelhas, tendo sido agraciado com o Nobel de Fisiologia/Medicina de 1973, pelos estudos desenvolvidos sobre comunicação das comunidades das abelhas, que aumentaram o conhecimento das formas de comunicação, química e visual, destes insetos.

Pela força do espírito e pela concentração imperturbável, penetrou, como ele próprio diz, no âmago do seu objetivo; “sente-se uma abelha” e sabe como ela irá reagir perante determinada situação. Ora, para compreendermos o que veem e sentem as abelhas, basta-nos recorrer a uma técnica bastante simples – a da aprendizagem –, pois as exploradoras aprendem com facilidade. Suponhamos, por exemplo, que lhes apresentamos vários pratos, um dos quais perfumado com essência de alfazema, e que só neste colocamos o xarope que as atrairá.

Se, em seguida, trocarmos várias vezes a disposição dos pratos, sem pormos o xarope em nenhum, e verificarmos que as abelhas descem sem se enganarem sobre o que cheira a alfazema, podemos concluir que lhe reconhecem o odor. Se substituirmos depois a alfazema por outro perfume muito parecido, as abelhas descerão, ou não, sobre o prato perfumado.

No primeiro caso concluímos que confundem os dois cheiros; no segundo, que são capazes de os distinguir. E assim, alternando os perfumes e as respetivas concentrações, poderemos explorar-lhes todas as possibilidades olfativas. Quanto às cores, o caso é um pouco mais delicado; o problema consiste em saber se as abelhas veem o mundo a cores, como nós, ou sob o aspeto de uma fotografia a preto e branco. Tomemos então uma superfície suficientemente grande – cerca de um metro quadrado – e cobrimo-la de quadrados de todos os tons de cinzento, do mais claro ao mais escuro, dispostos ao acaso.

Suponhamos agora que queremos estudar a cor azul: sobre um quadrado azul colocado num ponto qualquer, entre os cinzentos, vertemos um pouco de mel para atrair uma exploradora. Logo que o tenha absorvido todo, deslocamos o quadrado azul ao acaso por entre os cinzentos, um dos quais, pelo menos, terá o mesmo tom do azul, isto é, confundir-se-ia com o azul se o conjunto fosse fotografado a preto e branco. Das duas, uma: ou a abelha encontra o quadrado azul e então é sensível a essa cor azul, ou não, o que significa que vê o universo em preto e branco. Deste modo se verifica que a abelha não vê o vermelho, mas distingue o ultravioleta.

Assim, dois painéis, ambos brancos para nós, serão diferentes para ela, se um deles refletir o ultravioleta e o outro o absorver. Acontece também que o olfato da abelha, apesar da sua anatomia bastante diferente, não se afasta demasiado do nosso, a não ser na medida em que é muito mais sensível aos cheiros das flores – o que se compreende – e não lhe repugnam determinadas emanações por nós consideradas pútridas, como veremos em breve. Deste modo, o olfato é tão útil às exploradoras como a própria vista para descobrirem um campo de flores.

A propósito, como se apresentará um campo aos olhos das abelhas, que não distinguem o vermelho, mas sim o ultravioleta? As papoilas, por exemplo, que têm grande interesse para elas por causa do pólen, parecer-lhes-iam pretas se na verdade não refletissem intensamente o ultravioleta; a folhagem, que o reflete menos, aparece-lhes em todas as nuances do cinzento-claro, enquanto as flores se destacam nesse fundo com muito mais vigor do que para os olhos humanos.

Para elas não haverá flores brancas, devido à componente ultravioleta que todas possuem, pelo menos nos nossos climas. Até o ondular das flores agitadas pelo vento auxilia as abelhas a descobri-las, visto que todos os objetos em movimento lhes atraem a atenção. O pólen, formado por pequenos grãos revestidos por uma casca finamente esculpida e com um diâmetro de milésimas de milímetro, constitui o elemento masculino das flores, produzido pelas anteras, delicados filamentos que rodeiam o pistilo, situado no centro da corola.

Para que a flor frutifique, torna-se necessário que os grãos de pólen caiam sobre o pistilo, onde germinam como uma semente e que o longo tubo que neles se forma e contém na extremidade os elementos sexuais masculinos atinja o ovário situado na base do pistilo. Citemos de passagem mais um número fantástico: o pólen é muito rico em elementos nutritivos, tal como a levedura da cerveja, e atualmente é utilizado como alimento dietético e revigorante.

Para o recolher recorreu-se a um pequeno aparelho, o capta-pólen, que se coloca em frente das colmeias e permite recolher facilmente uma centena de gramas por colmeia e por dia durante a primavera. Ora, acontece que, num único ano, os apicultores produzem já muitas dezenas de toneladas e poderão obter muito mais, se tal se mostrar necessário. Voltemos, porém, às flores. O caso já citado, em que o pólen cai diretamente sobre o pistilo (flores autoférteis), não é muito frequente.

Em geral, as flores precisam do concurso do vento (flores anemófilas, pólenes secos) e, ainda com maior frequência, do auxílio de um inseto que, poisando de flor em flor, terá grandes probabilidades de roçar o corpo coberto de pólen contra um pistilo (flores entomófilas, pólenes húmidos). Este processo reveste importância essencial no caso das flores chamadas autoestéreis, como as da macieira, que não podem ser fecundadas com o próprio pólen e exigem um pólen de uma variedade diferente.

Assim é que setenta por cento das maçãs que comemos devemo-las às abelhas e o resto a outros insetos. E assim também é que o arboricultor, o pomareiro e o seareiro solicitam cada vez mais o concurso das abelhas para melhorar as suas produções; a polinização é, assim, a contribuição mais valiosa que as abelhas prestam à humanidade.

     
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