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Canção do Minho

Fui batido pelos ventos
Que sopravam das portelas.
Vi céus azuis e cinzentos
Sobre serras e outeiros
Barco de pedra com velas
Num país de marinheiros.

Velejei com todo o gosto
E fui até onde pude
Nas canículas de agosto
Ou nos frios de janeiro,
Guiado pela mão rude
Do meu branco timoneiro.

Tive o céu por companheiro,
Mas enraizei no chão.
Triturei o grão trigueiro
Até ficar em farinha;
Com ela fizeram pão
P’ra fome de quem a tinha.

Nos trilhos que, a mim, subiam,
Houve burros maltratados,
Sonolentos e estafados,
Que, arrastando-se, gemiam.
Vinham, sem dó, carregados
Para além do que podiam.

Junto de mim descansaram,
À sombra, muitos moleiros
Deitados na terra escura.
Tiveram sonhos fagueiros
Que tantas vezes passaram
Acima da minha altura.

Vi lobos em alcateia,
Enchendo a noite da serra
De vultos assustadores.
Testemunho de uma guerra,
Tão antiga quanto feia,
Entre as feras e os pastores.

De estrelas soube os segredos
Que me quiseram contar.
Ri de fantasmas e medos
Perdidos por estes termos,
Tão brancos como o luar
Que me assombrava os ermos.

Na minha vida de asceta
Consagrado à natureza,
Fui eremita e poeta.
Prestei culto à paisagem
Transbordante de beleza
No seu estado selvagem.

Pus em verso o que sentia
E, nesta pátria de fados,
Mostrei a minha alegria
E desfiei sofrimentos.
Os poemas tive cantados
Na voz de todos os ventos.


Sílvio Martins

     
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