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Maria do Sameiro, diretora geral da Escola Profissional Agostinho Roseta

“Associação solicitada para abrir novos pólos”

A Escola Profissional Agostinho Roseta é, cada vez mais, um êxito consolidado. À medida que o seu currículo ganha foros de maturidade por todo o país, crescem as solicitações para que a Associação homónima crie novos pólos. Maria do Sameiro é a carismática diretora geral da escola. Não se furta a uma boa conversa. Ao contrário, entusiasma-se. Ali se expandem os valores e os princípios do sindicalismo democrático, interligando-o com a sociedade civil. É uma experiência diferente. Única. Gratificante.

Nortada – Sabemos que está nas intenções da Associação Agostinho Roseta a abertura de novos pólos...
Maria do Sameiro – É verdade. À medida que a Escola Profissional vai sendo conhecida, têm-se multiplicado as solicitações – quer por parte das entidades autárquicas quer da sociedade civil –, para a abertura de novos pólos que abranjam alvos considerados carenciados em matéria de ensino. Nessa perspetiva está prevista para o novo ano letivo a abertura de novos pólos em Sesimbra e em S. Bartolomeu de Messines, estando em estudo outros para o futuro. Ora, isso virá aumentar significativamente as seis centenas de alunos que já temos em diversas partes do país.

N – Sendo assim, quais são as expetativas para a abertura do pólo em Sesimbra?
MS – Depois de aturados os estudos socioeconómico e de caráter educativo, concluímos que grande parte dos alunos que terminam o 9º ano nos estabelecimentos oficiais em Sesimbra não encontram ali oferta para continuarem a formação, tendo de se deslocar para os concelhos limítrofes. As expetativas são, por isso, grandes, porque significa menos alunos a sair do concelho para completarem o secundário, ao contrário do que acontece agora. Essas expetativas são extensivas à própria Câmara Municipal, expressas no apoio que tem dado à nossa ida para lá. É um novo desafio e mais uma luta.

N – Que cursos vão ser oferecidos?
MS – No estudo de que lhe falei, concluímos que Sesimbra é uma zona que vive muito da hotelaria. Vamos abrir cursos ligados à restauração, como cozinha/pastelaria e restaurante/bar. Contamos abrir cursos de turismo na generalidade, bem como um grupo de turismo ambiental e rural.

N – Quando os alunos franqueiam pela primeira vez as portas desta escola terão a mais pequena ideia da importância do nome do seu patrono e do que significa o conceito de sindicalismo democrático?
MS – Francamente, duvido muito. Por isso, essa é uma das nossas primeiras e mais honrosas preocupações. Falar aos nossos alunos da história da nossa escola é dar-lhes a conhecer também uma parte muito significativa da história do nosso país. E não deixa de ser curioso que muitas vezes o diálogo flui de forma tão enriquecedora que parte deles a pergunta de quem são os proprietários, do que são sindicatos.

N – E ficam a saber, ou fingem que ficam a saber, para se tornarem simpáticos?
MS – Não! Não pode imaginar o orgulho que sinto quando os oiço capazes de explicar tudo pelas suas próprias palavras. E mais: sendo composta por trezes associações sindicais – uma delas a UGT –, é extraordinário ver o privilégio que eles sentem ao perceber que damos sempre prioridade aos filhos de trabalhadores sindicalizados.

N – A propósito disso, acha que eles entendem o significado do 1º de maio, festa e manifestação da UGT em que a Associação participou e para as quais levou alguns alunos?
MS – Tenho a certeza. Como disse, eles quando entram na escola ficam logo a saber o que são e para que servem os sindicatos. Por outro lado, se eles não entendessem tão bem o significado do 1º de maio, não teria sido fácil, num dia feriado, mobilizar para uma manifestação a quantidade de jovens que nós mobilizámos. É óbvio que ninguém foi obrigado a ir. Apenas lhes falámos nisso. Eles é que acharam que deviam estar presentes e mostrarem a sua gratidão aos sindicatos que compõem a Associação. Este ano tiveram acesso às palavras de ordem e interiorizaram aquilo de tal maneira que estão bastante atentos em relação a tudo o que se está a passar. Houve dois alunos que foram entrevistados por duas cadeias de televisão e afirmaram, muito lucidamente, estarem preocupados com o futuro e terem achado que deviam estar junto dos trabalhadores a defender a sua causa. Eles tiveram a perceção do que estava em causa…

N – Mas se lhe colocar a questão de conseguirmos definir claramente qual a vocação nuclear da Escola Agostinho Roseta, encontrar-se-ia um vetor-chave?
MS –
Claro que sim, embora subdivididos em diversos pontos de apreciação. Todos eles, todavia, convergentes numa estratégia nuclear: em primeiro lugar estão os alunos e o objetivo é levá-los ao sucesso. E, para tal, temos de partir do princípio de que cada um constitui uma individualidade diferente, é uma pessoa diferente, que merece um tratamento diferente.

N – De facto, isso, só por si, já é meritório. Mas sendo a Agostinho Roseta uma escola que marca a diferença pela integração de outro tipo de valores, como é que podem ir mais além?
MS – Bem, é consabido a nível nacional que os nossos alunos saem daqui reconhecidamente preparados como bons técnicos. Mas também é certo que temos a preocupação de irmos muito mais longe. E por isso lhes proporcionamos aquilo que com toda a propriedade se poderá denominar de uma “educação para a cidadania”.

N – Esse não lhe parece um conceito um pouco vago?
MS – Muito pelo contrário! Nada de mais concreto! Porque essa constitui uma base fundamental para que aprendam e vivenciem o conceito e a prática da solidariedade e do respeito para com o próximo. Por outro lado, ganham também aqui sólidas e invulgares bases de cultura geral, o que lhes proporcionará uma alavanca de valor incalculável para os diversos contextos futuros onde possam vir a estar inseridos. É bom não esquecer que entram aqui com o 9º ano de escolaridade e passam depois três anos connosco, obtendo assim o nível IV de qualificação e ficando desta forma perfeitamente habilitados para o ingresso na vida ativa…

N – Pode então depreender-se que quando um aluno sai da Agostinho Roseta termina o seu percurso académico?
MS – De forma alguma! Tem sempre a possibilidade de progredir na sua vida académica, optando pelo estatuto de trabalhador-estudante. Uma das hipóteses é a seguinte: quando vai fazer o estágio acumula com um emprego, de forma a poder estudar à noite. Outra forma, é conseguir um acordo com a entidade patronal, que lhe permita continuar a estudar. É curioso que muitos, antes de partirem, vêm procurar a minha opinião. E dou-lhes muita força para que prossigam a via dos estudos. É por aí que conseguirão maior sucesso.

N – Tanto quanto pudemos apreciar, dá a sensação de que a Agostinho Roseta é frequentada maioritariamente por alunos de estratos socioeconómicos mais carenciados…
MS – Prefiro abordar a questão de outra forma. E, para bom entendedor, vou dizer-lhe o seguinte. Aqui, os alunos só pagam a inscrição e o seguro. Todos os outros gastos, desde o material às visitas, são da responsabilidade da escola. Temos o cuidado de que todos os alunos estejam bem alimentados. Atribuímos subsídio de transporte a todos. Em contrapartida, é imprescindível que queiram estudar e aprender. De tal forma que, para aqueles que são assíduos e pontuais mas que, por um motivo ou outro, evidenciam dificuldades de aprendizagem, criamos-lhes condições de toda a ordem para atingirem os objetivos de que estão incumbidos.

N – Nas entrelinhas deduz-se que nem todos são assíduos nem pontuais… Cartão amarelo ou cartão vermelho?
MS – Têm penalizações, pois então! Se chegarem atrasados, pagam 15 euros no final do período, para a recuperação do módulo, que é quando se fazem as avaliações, em que têm de ter pelo menos 10 valores. Se assim não for, têm mais uma oportunidade. Se mais uma vez não o conseguirem, o professor tem de indicar a razão. Quanto aos faltosos, ficam uma tarde toda na escola e têm de repor as horas.

Quem preside aos destinos desta escola?
A escola profissional é propriedade de uma associação sem fins lucrativos, constituída por 13 associações sindicais filiadas na UGT, incluindo a própria central, que quiseram homenagear o homem e sindicalista que foi Agostinho Roseta. Da atual Direção, a que preside Manuel da Silva, em representação do Sindetelco, fazem parte os vice-presidentes Guerra de Oliveira, em representação do SE, e Firmino Marques, em representação do SBN, o tesoureiro, Mendes Dias, em representação do SBSI, Luís Azinheira, em representação do Sitese, Rui Godinho, em representação do SBSI, Laura Martins em representação do SPZN, e Maria do Sameiro, diretora pedagógica.

Como interagem alunos, professores e Direção?
Um corpo docente bastante jovem facilita a relação da escola com os alunos. Os professores tornam-se muitas vezes nos principais confidentes, em cujos ombros os alunos encontram, sempre, um amparo, e de quem recebem palavras de carinho e de incitamento. “A maior parte dos alunos que aqui está não tem a família nuclear como nós a conhecemos há uns anos. Portanto, sentem esta escola como a segunda casa. Não somos apenas professores, mas, também, amigos e conselheiros. Procuram-nos imenso. A nossa principal gratificação é assistir à sua transformação, não só em termos académicos, mas, principalmente enquanto pessoas” – explica-nos o grupo de jovens professores. Segundo os alunos, o facto de a escola ser pequena facilita a interação entre todos, salientando também a relação existente entre alunos e corpo docente, o que difere do ambiente vivido na maioria dos estabelecimentos de ensino que conhecem. Nesta interligação entre alunos e escola, não deixaram contudo, de exaltar a forma como a Direção, em especial a diretora pedagógica, Maria do Sameiro, tem sabido reconhecer os problemas socioeconómicos e culturais do corpo discente. “Sabemos que podemos contar com a escola e com os professores. São os amigos a quem, sem subterfúgios ou receio, podemos expor os nossos problemas. É gratificante e dá-nos alguma segurança para a vida, sabermos que nesta escola, no seu corpo docente e diretivo, temos amigos com quem podemos contar ao longo da vida”, dizem-nos os alunos.

     
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