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O cabelo na sopa

Terminou recentemente mais um ciclo na vida da UGT. Um ciclo que, apesar das dificuldades com que Portugal e o mundo se têm confrontado em termos económicos e sociais, prestigiou o sindicalismo democrático que tem sido apanágio daquela central sindical.

Para esse prestígio, muito contribuiu a forma de estar, o saber e a inteligência do anterior secretário-geral, que sempre soube colocar os interesses dos trabalhadores acima dos ideais políticos. Só assim foi possível à UGT ter atravessado períodos de diferentes formas de governação sempre de cabeça erguida, sempre com a mesma firmeza, sempre com a mesma unidade, sem olhar à cor política dos governantes.

Pelo contrário, a UGT sempre privilegiou a concertação social, assinando acordos com os diferentes governos que têm assumido a condução do país. Terminou, pois, recentemente mais um ciclo da vida da UGT. Saiu um grande dirigente, João Proença, a quem não podemos deixar de agradecer o ter dedicado uma grande parte da sua vida ao sindicalismo nacional e internacional, quantas vezes com sacrifício da vida pessoal, profissional e, sobretudo, política. Mas se um ciclo termina, também é verdade que um novo ciclo se iniciou.

E, se é, assim, verdade que a UGT e o sindicalismo perderam uma das pedras mais marcantes da sua vida, também é verdade que assumiu os destinos da União Geral de Trabalhadores um outro sindicalista, Carlos Silva, que já demonstrou a sua capacidade como dirigente. Dessa capacidade de liderança são testemunhas as prestações à frente quer do Sindicato dos Bancários do Centro, quer da UGT de Coimbra.

Provavelmente nem tudo vai ficar como estava. João Proença e Carlos Silva são pessoas diferentes, logo com diferentes formas de gerir os problemas. Usam métodos diferentes para atingir os mesmos objetivos: a defesa dos direitos e das conquistas de melhores condições de vida dos trabalhadores, nos âmbitos económico, social e cultural, valores esses expressos na resolução programática que foram presentes para debate e aprovação no congresso da central, em que muitos encerraram a sua atividade sindical e outros continuaram – com as mesmas ou com outras funções mas sempre com o mesmo espírito, estou certo – a contribuir para o prestígio da UGT e, concomitantemente, do sindicalismo democrático.

Infelizmente, estamos muito longe de podermos dizer que os trabalhadores, quer portugueses, quer europeus, estão perto de ver consagrado o Contrato Social Europeu. No nosso país, estamos mesmo distantes de ver cumprido o acordo tripartido celebrado no seio do Conselho de Concertação Social, acordo esse que apenas tem servido ao Governo como bandeira política no plano internacional.

É, por isso, necessário dizer “basta” a esta situação… O estrato social em Portugal e na Europa está cada vez mais dividido entre duas classes: os muito pobres e os muito ricos. Os muito pobres continuam, apesar de tudo, a ser, com os seus impostos, o sustentáculo da economia… Os muito ricos continuam a ser os sorvedores da riqueza criada, fugindo aos impostos e desviando as suas riquezas, acumuladas sobre o suor e, quantas vezes, sobre as lágrimas e o sangue dos trabalhadores, para os paraísos fiscais criados pelo capitalismo e que nenhum governo consegue – ou quer – destruir.

Entretanto, a pobreza tem alastrado. A miséria é já hoje, podemos dizer, o prato mais servido à mesa dos portugueses. O crime, as falências e os suicídios aumentam diariamente… Mas as perspetivas vão mesmo no sentido do agravamento da situação económica do País e da Europa, de nos confrontarmos com mais e maior austeridade e com mais desemprego. É nestes momentos que é preciso ter capacidade para construir um projeto estratégico, para o momento também estratégico que se vive no País e na Europa.

O segredo para o construir é “saber exatamente qual a parte do futuro que pode ser introduzida no presente”, já que “o grande perigo que corremos iludindo os outros, é que acabamos por nos iludir…”. Termino como comecei… “A vida de todos nós, é uma responsabilidade nossa e somos culpados, não somente do mal que fazemos, como do bem que deixamos de fazer.» Estou certo de que o ciclo que recentemente começou na UGT exigirá muito trabalho e muita capacidade de liderança. Capacidade de liderança, já encontrámos… É, pois, tempo de trabalho. Para não permitirmos que caia um só mais cabelo na sopa dos trabalhadores…


Firmino Marques

     
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