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Senhor Presidente: Eu tenho uma opinião diferente!

«Tudo está a fechar. O país está a fechar»
(António Barreto, in “XXI Ter Opinião”, nr.2, 2013: 69)

«Nas ruas cheias de gente / vi as pessoas desertas»
(Manuel Alegre, in “Nada está escrito” (poema Cidade, 2012:63)

Em fevereiro de 1973, o cartonista Samuel Torres de Carvalho, viria o seu desenho censurado, nas páginas do jornal “Expresso”. Nele, e num dos desenhos, aparecia uma pessoa a proferir “Senhor Presidente: Eu tenho uma opinião diferente”. Os funcionários do Exame Prévio, assim se chamava oficialmente a Censura, proibiram a saída desse desenho humorístico.

Também nesse jornal, seria cortado um artigo referente a Francisco Sá Carneiro. Fazia-se uma referência, mais ou menos disfarçada, à sua firme e consequente atitude política em abandonar o lugar de deputado, como forma de protesto pela falta de liberdade durante o governo marcelista! Esta sua ruptura, provocaria um acentuar de vigilância e de censura aos seus artigos jornalísticos.

No entanto, a sua perseverança levou-o a escrever um artigo neste jornal, em março de 1973, com o título “Quem é pela liberdade?”. Mostrava coragem, lucidez e possuidor de uma mentalidade progressista. Agrupados na chamada “Ala Liberal”, viria este grupo reforçar o caudal dos oposicionistas ao regime, correndo os riscos de quem se opunha pela escrita, por palavras e por acções, a todas as medidas contrárias à livre expressão e do pensamento.

O governo de então, era chefiado pelo Prof. Marcelo Caetano. «A liberdade existe onde se pode escolher», escreve António Barreto, na Revista publicada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, (op.cit., 2013: 68). Uma escolha, pressupõe informação isenta quanto possível. Não pressupõe condicionalismos.

Excepto, o das regras democráticas. Foi um tempo “cinzento”, amorfo e castrador de projectos, aquele anterior ao Abril de 1974. Os lutos, os medos e os silêncios entorpeciam as gentes desta pátria. As aldeias esvaziavam-se pelos caminhos da emigração ou da guerra. Era como que uma sombra negra pairando sobre as nossas cabeças.

Por isso, a pergunta “Quem é pela liberdade?”, soava como um estrondo nas mentes e consciências de todos. Como se tratasse de um dedo acusador, perguntando: “E, tu, o que fazes? De que esperas?’”. Volvidas décadas, observamos de novo um lento esvaziamento das nossas ruas. As pessoas vão ficando “desertas” dentro de si. Vão perdendo a esperança e a confiança. Muitos vão partindo para longe dos seus. Vão procurar em outras terras, vidas novas em novos rumos. “Fogem” ao espectro do desemprego, que os apanhou. Não se sentem culpados. Sentem-se desesperados.

O País está a fechar. Tudo se fecha: Lentamente, como se fosse uma peste. Pouco a pouco, deixaremos de ver portas e janelas abertas. Trancam-se as pessoas sobre si, e partem! Outros ficam: Fechados na incerteza. No outro tempo, no tal tempo em que se perguntava ao vento notícias daqui, o vento não respondia e o regime proibia as respostas, já para não dizer as perguntas. Hoje, perguntamos e damos respostas. Mas, não nos ouvem. Persistem nos números, transformados em deuses. Por trás de cada número, existe um ser vivo. Um nome, uma família. Esquecem-se disto. Os erros e as ilusões cometidos pelas diversas governações, ao longo de décadas, agora pagam-se, e caro. Certo.

Ilibados e sem culpa formada, a não ser nos bolsos e carteiras de cada um de nós, os governantes têm dado continuidade ao aparecimento da inexperiência, da ignorância envolta em arrogância de chefes possuidores de “certezas absolutas”. Surgiu neste país, uma avalanche de presidentes de tudo e mais alguma coisa.

Surgiram assessores a estes governantes desconhecedores das realidades, sem o mínimo de experiência e de maturidade. Ávidos de protagonismo e de lugares cimeiros sem a devida formação e noção. Sem a cultura do bem servir o próximo e da responsabilidade. Amontoam-se em gabinetes que estreitam as suas mentes. Surgiram, e tristemente são eles quem mais ordenam. Não ordenham, lugar por onde muitos deveriam ter começado a aprendizagem antes de ordenar. São fruto de toda uma sociedade que se extasiou perante os dinheiros vindo da Europa, pela riqueza desregulada e pelas facilidades que encontraram no dia a dia. São fruto da falta de rigor e de profissionalismo.

Acima de tudo: Nada lhes acontece. Erram e continuam, muitas vezes por culpa nossa: Votamos neles, apenas pelas cores partidárias e não pelas aptidões. Sobretudo, nas autárquicas, este sindroma tem maior visibilidade. Vemos, por vezes, no seio dos partidos, com certa impotência e perplexidade, este começar do regabofe. Este minar dos alicerces de uma sociedade democrática começa muitas vezes por aqui. A falta de hábitos e de frontalidade democrática, leva ao pedestal estes “fidalgotes”, já tão bem caracterizados na nossa Literatura, pela pena dos nossos maiores escritores, em todos os tempos.

O mal é antigo. Acompanha o ser humano nesta sua sorte. Portugal deu nisto. À miséria antiga acrescentou-se a miséria de espírito. Vivemos em crise e da crise. Mas, não é das cinzas que a Fénix renasce? Estamos no tempo de questionar, refletir e sacudirmos as poeiras que nos tolhem os movimentos e as ideias. A seguir à tempestade vem a bonança. Desde que queiramos e contribuirmos para tal. Apesar de tudo, ainda hoje podemos dizer aos senhores presidentes de toda a espécie, que temos uma opinião diferente! Mesmo que não nos ouçam…


Por: Artur Fontes

     
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