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Atribulações de um gato

Era um gato maltês!
Nasceu numa sexta-feira,
Dia treze de má sorte,
Não se sabe de que mês;
Morreu-lhe a mãe de papeira,
Junto da vaca leiteira
Que o dono tinha na corte.
Um dia, por confusão,
Deu uma grande dentada
No filho que a criada
Tinha tido do patrão;
Mas que, na hora azarada,
Lhe parecera leitão.

Fugiu e teve um encontro
Com um cão mui maldisposto
Que tomara por mansinho,
Mas que lhe ferrou o rosto
(Melhor dizendo, o focinho),
Deixando o pobre coitado
Talvez às portas da morte,
Com um olho pendurado,
Maldizendo a sua sorte.

Levado com toda a urgência,
Dentro dum carro de mão,
Para o primeiro hospital
Que lhe prestasse assistência,
Teve ali grande demora
Até que esclarecesse
Se tinha ou não isenção
Da taxa moderadora.
A seguir a enfermeira
Destacada de serviço
(Pessoa com muito jeito
E amiga de despachar),
Fez-lhe um penso a preceito
Com o lenço de assoar.
Devido ao seu triste estado,
Foi-lhe logo destacado
Um grande cirurgião.
Tremia muito da mão
E tinha um braço postiço;
Operava com a faca
Com que cortava o chouriço.
Não achou logo o ferrolho
Da porta do hospital,
Porque era cego dum olho
E do outro via mal.

No bloco operatório,
Onde o doente jazia
Já há muito de conserva,
Tudo estava preparado.
Só faltava a anestesia
Devido a falta de verba;
Mas o douto anestesista,
Que se encontrava atrasado
E vinha com muita pressa,
Treinado para sair
Airosamente de apuros,
Pôs o gato a dormir
À força de alguns murros.

Depois duma certa espera,
Lá chegou o operador.
Bufava como uma fera,
Cheirava mal do suor.
Porém, como é já sabido,
Tinha a vista muito má
E desatou a berrar,
Dizendo com alarido,
Que o olho não estava lá.
À volta de tal enfermo,
Que estava feito num molho,
Houve grande confusão:
Todos lhe viam o olho,
Só o médico é que não!
Mas findos alguns instantes
A equipa serenou
E tudo, enfim, se quedou
Na paz que reinava antes,
E o cirurgião zarolho,
Não vendo o olho doente
Pendurado por um fio,
Talvez um tanto enervado,
Estava já preparado
Para tirar o sadio.

Entretanto, o paciente
Voltou a si de repente
E pensou: “mas que demónio,
Nunca vi uma coisa assim,
Nem percebo como vim
Cair neste manicómio!
Estou aqui estendido
Inchado como um repolho,
Mau grado um grande jejum,
E creio ter por sabido
Que ou fujo agora c’um olho
Ou ficarei sem nenhum”.

Não nos diz, depois, a história
Qual o fim desta aventura;
Mas creio ter por segura
A ideia, caro leitor,
De não ter sido o melhor.
Se, entretanto, encontrares,
Em humanas desventuras,
Duma situação real
Aqui alguma aparência,
Talvez até que, afinal,
Não seja, por nosso mal,
Só mera coincidência.


Sílvio Martins

     
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