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Um ajuste de contas

A denúncia do ACT feita pelos banqueiros não é num “mau momento”. É, sim, no seu tempo. Naquele seu tempo que há muito eles ansiavam por um “ajuste de contas” com os bancários, agora submetidos a uma crescente fragilização da sua relação laboral, muito por via de novos contextos sociopolíticos e consequente perda de poder sindical. Um contexto sociopolítico neoliberal que desde há algum tempo desvaloriza a centralidade do trabalho bem como a sua dignidade.

Contribui para que o exercício de coação psicológica sobre os bancários se faça descaradamente, sem pudor e sem respeito pelos mais elementares valores da dignidade profissional e da família! Tudo isto ocorre num ambiente laboral de ambição por uma carreira profissional rápida e “bem remunerada” (?), bastando para isso que os trabalhadores se submetam a um horário de trabalho que oscila entre as oito, nove e dez horas diárias. O quotidiano bancário tornouse assim numa espécie de uma “flexibilização flexível”, contra a qual os dirigentes sindicais têm a consciência do fracasso em que desembocaria qualquer ação coletiva de greve ou outra! Uma “utopia”, consideram alguns e temem outros.

A crise económica e financeira em que Portugal mergulhou levou a que o mundo do trabalho se encaminhasse vertiginosamente para a sua total e incondicional desregulamentação, onde vale tudo. O exemplo mais recente está aí, na atitude de afronta dos banqueiros. O último acordo de “Concertação Social” foi apenas a gota de água, diria melhor, a “cereja em cima do bolo” para que se desencadeasse o processo de denúncia do ACT por parte da APB! Mas para que se perceba melhor este pretenso “ajuste de contas”, recuemos por uns instantes à matriz (julho de 1973) dos pilares que sustentaram ao longo das últimas décadas a dignidade profissional e humana dos bancários e das suas famílias.

Os banqueiros de então, mas hoje reproduzidos com a sua “sindicalofobia” e mentalidade mais ou menos fascizante, auto se ridicularizaram com um “espetáculo verdadeiramente deprimente quando declararam aos quatro ventos que [estavam] a um passo da miséria...”; isto porque os bancários tinham conseguido em sede de Comissão Arbitral melhores condições de vida, que foram bandeira das suas lutas desde a constituição do Estado Novo em 1933. “ (...) o tempo mostrou que, como hoje, o rei vai nu, e a batalha não foi nem podia ser perdida”, assim se referia a mensagem do Árbitro Sindical às Assembleias dos Bancários em 9 de julho de 1973 sobre a confissão de “miséria” dos banqueiros1.

Apesar de na altura se viver um regime totalitário, de perseguição aos seus opositores e de censura, a firme determinação dos bancários unidos à volta dos seus sindicatos, logrou conseguir melhores condições de vida que hoje os “novos/velhos” banqueiros pretendem mandar às “malvas”. Porém, desde que se encetou a liberalização completa da atividade bancária e consequente descaraterização dos instrumentos de regulação laboral, associada à desafeição sindical e apatia por parte dos bancários mais jovens, a incapacidade de mobilização dos bancários para qualquer ação sindical é uma realidade incontornável que nos devia preocupar seriamente a todos.

Por outro lado, as perdas históricas que se têm vindo a acentuar têm promovido o desencanto e o alheamento no seio dos bancários mais antigos. Há dificuldades em eleger delegados sindicais e sub-CT nos locais de trabalho; há medo e receios de desagradar à hierarquia ou ser-se penalizado nas carreiras. Os delegados sindicais já não são os “elos dinâmicos [de outrora] entre a Direção Sindical e os trabalhadores”. Não obstante a existência destes constrangimentos, acresce ainda os que resultam da emergência de concorrência sindical no seio do sindicalismo bancário pós-desnacionalizações, pois esta acabaria por ser um fator, entre outros, que muito pesou no atual clima laboral da banca.

E neste rol de dificuldades, também não podemos deixar de fora uma outra, não menos relevante, que é a desconsideração e o desrespeito que as administrações revelam em relação à ação do controlo de gestão das Comissões de Trabalhadores da banca! Contra este pretenso “ajuste de contas” os bancários necessitam urgentemente de “retomar”/reforçar a sua cidadania e unidade sindical, independentemente da pulverização sindical que acabou por produzir o seu enfraquecimento.

Por conseguinte, face à investida dos banqueiros com a força do seu livre arbítrio, todas as conquistas desde 1973 estão hoje em causa; é uma tentativa de impor condições laborais que foram abolidas nos fins do Estado Novo. Enquanto não foi criado o ambiente social e laboral a partir das últimas alterações da lei laboral e do “acordo de concertação social”, os banqueiros não ousaram declarar “guerra” aos bancários. Na prática, desde há muito que as administrações de alguns bancos têm vindo a dar sinais de querer abrir as hostilidades, nomeadamente no campo das remunerações. Não muito distante no tempo, foi afirmado, publicamente, que os bancários “usufruem de vencimentos superiores aos seus níveis de produtividade”.

Por outro lado, também é conhecido que algumas hierarquias intermédias praticam autêntico “terrorismo social”, coagindo trabalhadores à prestação de trabalho não remunerado. Os bancários têm medo até de dizer que estão sindicalizados. A praga do trabalho não remunerado perenizou-se, instalou-se inexoravelmente no quotidiano bancário, enquanto se fabricam resultados e estatísticas para “chefe ver” e com eles conseguir os prémios ambicionados. Trata-se, pois, de uma desumanização completa e ausência de valores morais, ao fazer depender de tais práticas esclavagistas a prometida “estabilidade” de emprego. Instala-se assim o “medo de existir”.

Muito, mesmo muito mais haveria para aqui refletirmos. Uma reflexão que justificaria a preparação que ao longo dos últimos anos os gestores bancários, estrategicamente, têm vindo a engendrar: dar a estocada final na honradez da luta de gerações de bancários e nos sacrifícios que estes suportaram. Mas essas gerações ainda “andam” por aí, creio que ainda aptas e com energia bastante para colaborarem nas iniciativas sindicais de forte cidadania que só a unidade sindical logrará obter, e com elas todos defendermos a sustentabilidade dos SAMS (o grande paradigma das lutas dos bancários) e sobretudo a dignidade profissional e humana, pelas quais tantos bancários penhoraram as suas liberdades e comodidades de “bem-estar” ao longo dos anos.

Fica assim aqui lançado o mote para que a mobilização dos bancários não se faça esperar; que venha a ser em breve a resposta adequada à oligarquia de banqueiros, desta feita a querer institucionalizar práticas de esclavagismo nos empregados bancários.de trabalho; há medo e receios de desagradar à hierarquia ou ser-se penalizado nas carreiras. Os delegados sindicais já não são os “elos dinâmicos [de outrora] entre a Direção Sindical e os trabalhadores”.

Não obstante a existência destes constrangimentos, acresce ainda os que resultam da emergência de concorrência sindical no seio do sindicalismo bancário pós-desnacionalizações, pois esta acabaria por ser um fator, entre outros, que muito pesou no atual clima laboral da banca. E neste rol de dificuldades, também não podemos deixar de fora uma outra, não menos relevante, que é a desconsideração e o desrespeito que as administrações revelam em relação à ação do controlo de gestão das Comissões de Trabalhadores da banca!

Contra este pretenso “ajuste de contas” os bancários necessitam urgentemente de “retomar”/reforçar a sua cidadania e unidade sindical, independentemente da pulverização sindical que acabou por produzir o seu enfraquecimento. Por conseguinte, face à investida dos banqueiros com a força do seu livre arbítrio, todas as conquistas desde 1973 estão hoje em causa; é uma tentativa de impor condições laborais que foram abolidas nos fins do Estado Novo.

Enquanto não foi criado o ambiente social e laboral a partir das últimas alterações da lei laboral e do “acordo de concertação social”, os banqueiros não ousaram declarar “guerra” aos bancários. Na prática, desde há muito que as administrações de alguns bancos têm vindo a dar sinais de querer abrir as hostilidades, nomeadamente no campo das remunerações. Não muito distante no tempo, foi afirmado, publicamente, que os bancários “usufruem de vencimentos superiores aos seus níveis de produtividade”.

Por outro lado, também é conhecido que algumas hierarquias intermédias praticam autêntico “terrorismo social”, coagindo trabalhadores à prestação de trabalho não remunerado. Os bancários têm medo até de dizer que estão sindicalizados. A praga do trabalho não remunerado perenizou-se, instalou-se inexoravelmente no quotidiano bancário, enquanto se fabricam resultados e estatísticas para “chefe ver” e com eles conseguir os prémios ambicionados. Trata-se, pois, de uma desumanização completa e ausência de valores morais, ao fazer depender de tais práticas esclavagistas a prometida “estabilidade” de emprego. Instala-se assim o “medo de existir”. Muito, mesmo muito mais haveria para aqui refletirmos.

Uma reflexão que justificaria a preparação que ao longo dos últimos anos os gestores bancários, estrategicamente, têm vindo a engendrar: dar a estocada final na honradez da luta de gerações de bancários e nos sacrifícios que estes suportaram. Mas essas gerações ainda “andam” por aí, creio que ainda aptas e com energia bastante para colaborarem nas iniciativas sindicais de forte cidadania que só a unidade sindical logrará obter, e com elas todos defendermos a sustentabilidade dos SAMS (o grande paradigma das lutas dos bancários) e sobretudo a dignidade profissional e humana, pelas quais tantos bancários penhoraram as suas liberdades e comodidades de “bem-estar” ao longo dos anos. Fica assim aqui lançado o mote para que a mobilização dos bancários não se faça esperar; que venha a ser em breve a resposta adequada à oligarquia de banqueiros, desta feita a querer institucionalizar práticas de esclavagismo nos empregados bancários.

1 Contrato Coletivo de Trabalho dos Empregados Bancários de 1973


José Marques Simões

     
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