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Sou um bancário português

Sou um bancário português. Orgulhosamente solidário. Herdeiro de gerações de companheiros meus que deram o seu melhor para, quantas vezes em situações de indizível dificuldade, lutarem pela conquista de melhores condições de vida e de trabalho, pugnarem pela dignidade que sempre lhes foi devida mas nem sempre reconhecida. Vivia-se então em pleno regime corporativo, em que cabia ao governo nomear os seus próceres como marionetes que manipulavam para "dirigirem" o sindicato.

Entretanto, travava-se na clandestinidade uma luta que só não era surda porque a palavra passava de boca em boca, mantendo viva a chama da esperança. Luta dura, em que muitos conheceram os cárceres dos torcionários da PIDE/DGS, a tortura, a extrema angústia de se verem afastados da família. Até que chegou um dia em que amanheceu Liberdade.

Em abril, lágrimas mil, de alegria feitas. Já cá andava nas lides sindicais, nos subterrâneos da Liberdade - que me perdoe Jorge Amado -, sem, todavia, auspiciar que ela pudesse chegar num ano que era 74 e num dia que era 25. A partir daí, mudaram-se os sonhos, mudaram-se as vontades. O céu seria o limite. Mas cedo alguns sonhos começaram a transformar-se em pesadelos.

Anualmente, repetiam-se os problemas. A negociação era, por parte dos banqueiros, um monótono solilóquio, um “monólogo dialogal”, um espasmo de ventríloquo padecendo de gaguez genética, um disco riscado, repetindo até à exaustão as mesmas diatribes, recitadas como intérpretes de terceira classe de tragédia shakespeariana.

E agora? Ei-los que se renovam, em estertores de vilões de ópera bufa, esbracejando como náufragos que engolem "pirolitos" junto aos pombinhos da Praça da Liberdade (?!...), cantando cantos de sereias com pelos de urso, apresentando propostas salazarentas, prenhas de tanto bolor. Em que pastos pastavam aquelas "vacas gordas" dos banqueiros, que apregoavam pingues lucros enquanto se choravam nas alturas da negociação coletiva? E agora, em que pastos pastam estas "vacas um pouquito menos adiposas" mas ainda assim com lucros de chorar por mais, quando não se desvergonham de apresentar uma proposta ridícula, própria de vendilhões do eurotemplo? Não têm vergonha? Pois não! Sei bem que não! Mas eu tenho pena que não tenham. Porque eu tenho orgulho de ser um bancário português!...


Firmino Marques

     
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