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Emprego: a prioridade das prioridades

Segundo as últimas estatísticas económicas, a Europa está à beira da recessão.
A crise económica e financeira que fustiga o continente desde 2008 está em vias de provocar uma maior crise social. Encerramentos de fábricas, supressões maciças de empregos e reduções de investimentos são manchete diária dos média europeus.
O movimento sindical lamenta que os responsáveis políticos continuem a privilegiar a disciplina orçamental em relação a qualquer ação em prol do crescimento e do emprego.
Para além disso, o aumento do desemprego é inquietante e afeta um número crescente de cidadãos. Como se verá nos parágrafos seguintes, os números são eloquentes e necessitam de uma resposta forte e rápida.


Emprego: estatísticas alarmantes

A última análise trimestral da situação social e do emprego na União Europeia, realizada pela Comissão, sublinha o aumento significativo do desemprego durante a segunda metade de 2011. A análise mostrou que este agravamento eliminou todos os progressos em termos de emprego, ainda que moderados, que tinham sido verificados durante a primeira metade do ano, o que significa que, após uma ligeira retoma, a União se depara cada vez mais com uma sombria perspetiva de retoma. Em finais de 2011, a taxa de desemprego era de 9,9%, enquanto a da zona euro atingia 10,4%. São, pois, mais de 23 milhões de pessoas que estavam sem emprego no conjunto dos 27 países. Entre os mais afetados encontra-se a Espanha (22,9%) e a Grécia (19,2%). Em função do agravamento da crise, a taxa de desemprego de longa duração explodiu literalmente. Em 2011, 43% dos desempregados estavam privados de emprego por um período de mais de um ano, com um aumento de 3% em relação a 2010.


Austeridade "rima" com pobreza

Segundo todos os últimos números, o risco de uma situação de pobreza aumentou sensivelmente em vários estados membros da UE, nomeadamente nos países bálticos, na Espanha e na Irlanda. Esta tendência traduz claramente o impacto negativo da crise sobre os cidadãos europeus, mesmo nos países que têm sido menos afetados pela crise económica e financeira. Alguns grupos foram primeiro afetados por este fenómeno, com os jovens, as famílias com filhos e, sobretudo, os celibatários. Em 2010, a percentagem de jovens e de adultos em idade de trabalhar vivendo sem emprego atingiu 10% em média, com um aumento de 1% em relação a 2008. Este grupo ultrapassa os 12% em Espanha, Irlanda, Bélgica, Portugal e Eslováquia, bem como nos países bálticos. Por outro lado, a análise feita pela Comissão dedicou-se ao impacto das medidas de austeridade sobre os cidadãos, sobressaindo que na maioria dos casos tais medidas, nomeadamente o ataque aos sistemas de proteção social, os cortes dos salários no setor público e o aumento do IVA têm tido efeitos regressivos na maioria dos cidadãos. Num tal contexto, um número crescente de casais conheceram dificuldades financeiras em 2011, nomeadamente os mais desfavorecidos.

Jovens e migrantes: as principais vítimas da crise

As últimas estatísticas confirmam que os jovens são as primeiras vítimas desta crise. Em novembro último, 5,6 milhões de jovens (22,3% do total) estavam desempregados na Europa, com um aumento de 1,3% em relação a 2008. Em alguns países, como na Espanha ou na Grécia, a situação é dramática, com taxas respetivas de 49,6% e 46,6%. A situação dos trabalhadores migrantes é igualmente séria. A recessão reforçou um maior empenho, em termos de emprego, para com os trabalhadores locais. Em 2011, cerca de 20% dos trabalhadores migrantes estava sem ocupação, mas a taxa ultrapassava os 30% para os jovens migrantes. O setor da construção tem sido o mais afetado por esta perda de emprego. Um último dado muito significativo refere-se à taxa de desemprego das pessoas menos qualificadas, que passou de menos de 9% em 2008 para cerca de 15% em 2011. O facto de uma menor qualificação aumenta igualmente o risco de pobreza: em 2010, 40% das pessoas menos qualificadas estavam em risco de pobreza e de exclusão social, com um aumento de 1,6% em relação ao ano precedente.


Sindicatos reivindicam ação de envergadura pelo emprego

Os números referidos até ao momento testemunham a gravidade da situação e traduzem as inquietações de milhões de cidadãos europeus. Desde o início da crise, o movimento sindical europeu alertou os responsáveis políticos para o risco de se ver a UE entrar em recessão e de perder centenas de milhar de empregos. Infelizmente, pouco foi feito concretamente para estancar esta hemorragia. Os decisores preferiram concentrar-se sobre o reforço da austeridade, concebida como a única via para remediar os problemas da dívida soberana e para sair da crise. Mas a ortodoxia orçamental, sem medidas de relançamento e de investimento, mergulhou os países na crise. O desemprego é o preço que milhões de pessoas pagam, por três anos de austeridade e de ausência de relançamento. Pior: o acordo internacional conseguido quando do Conselho de 9 de dezembro de 2011 não fez mais do que reforçar a austeridade, sem oferecer perspetivas de crescimento. Uma vez mais, os sindicatos condenaram aquele acordo e reivindicaram uma ação de envergadura em prol do emprego, que se torne uma prioridade para os europeus poderem viver dignamente e fazerem projetos de futuro. É, pois, imperativo enveredar pelos investimentos em prol de uma economia duradoura, de empregos de qualidade, de justiça social e de luta contra as desigualdades. Os sindicatos mostram-se firmemente convencidos que deve ser feito um esforço particular pelos jovens, porque o risco de haver uma geração sacrificada é real. O acesso ao emprego e o desenvolvimento de formações de qualidade devem constituir as duas prioridades principais de qualquer ação política em prol dos jovens e não podem ser enviadas para as calendas. Ao mesmo tempo, é fundamental abordar seriamente o problema das reestruturações, que estão entre as principais fontes de destruição de empregos. Neste domínio, os sindicatos não podem esconder a sua deceção após a recente publicação de um novo “livro verde” da Comissão sobre as reestruturações. Agora que as perspetivas económicas se ensombram e que o desemprego aumenta, é inconcebível que a Comissão tergiverse, em vez de adotar medidas concretas que permitam antecipar as reestruturações. A despeito dos dados ruinosos que fornece nas suas análises, é lamentável que o dogma da austeridade continue a ser a norma e a ditar a agenda política em matéria de emprego.


Tradução de Francisco José Oliveira

     
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