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O (Montepio) pelicano

Escolho o pelicano como símbolo para o ano que começa.

É sobejamente conhecido o seu significado como símbolo da solidariedade, que nos foi deixado de herança por São Jerónimo, através do seu comentário no salmo 102: "Sou como um pelicano do deserto, que fustiga o peito e alimenta com o próprio sangue os seus filhos. Ó pássaro bom! Ó pelicano bom, Senhor Jesus!".

Esclareço, porém, que esta escolha não tem a ver com critérios religiosos, mas sim como alegoria de princípios e de valores, que são transversais a toda a sociedade, independentemente de opções confessionais.

A dimensão do símbolo é transportada por Alfred de Musset, no seu poema "O Pelicano", em La Nuit de Mai (1835).

Porquê, então, tendo assumido como seu símbolo o pelicano e contrariando toda uma história de solidariedade em que se assumiu como instituição "suprabancária", para quem os valores humanos sempre se sobrepuseram aos ditames do capitalismo, porquê, repito, uma administração retrógrada e desumana quer ficar na história como a destruidora dos mais lídimos pergaminhos do Montepio?

Esta é uma administração para quem a liberdade, a fraternidade e a igualdade, que sempre foram o lema do Montepio, não passam de meras palavras de circunstância, uma administração que coloca o lucro fácil acima da vida humana, que coloca em causa, sem qualquer consideração, a vida familiar de dezenas de trabalhadores.

Uma atuação desta natureza só poderá ser proveniente de uma administração desumana, sem caráter, antidemocrática, sem princípios.

Que vergonha!


Firmino Marques

 

O Pelicano

"Qualquer preocupação que sofras em tua vida,
Oh! Deixa dilatar-se, esta santa ferida
Que os negros serafins têm cavado em teu peito.
Nada nos faz tão grandes como um sofrer perfeito.

Mas, por estar atento, não creias, ó poeta,
Que no mundo a tua voz deva ficar quieta!
Os mais pungentes são os cânticos mais belos,
E eu conheço imortais que são tristes anelos.

Quando o pelicano, em longa viagem solta,
Nas brumas da tardinha aos seus caniços volta,
Famintos filhos seus caminham sobre a praia,
Vendo-o esbater-se ao longe em cima às plúmbeas águas
Já crendo em apanhar e repartir a presa.

Eles correm ao pai com gritos de alegrias
Erguendo os bicos sobre as gargantas frias.
Ele, galgando a passos lentos uma rocha elevada,
Em sua asa pendente abrigando a ninhada,
Pescador melancólico, ele olha os céus.

O sangue corre em golfadas em seu peito aberto;
Em vão dos mares escavou a profundeza:
O oceano estava vazio e a praia deserta;
Por todo alimento ele traz seu coração.

Sombrio e silencioso, estendido sobre a pedra,
Repartindo aos seus filhos suas entranhas de pai,
No seu amor sublime embala a sua dor,
E, olhando escorrer seu peito a sangrar,
Sobre seu festim de morte ele se prostra e cambaleia,
Ébrio de volúpia, de ternura e de horror.
...
E, ferindo-se o coração com um grito selvagem,
Solta dentro da noite um tão fúnebre adeus,
Que os pássaros dos mares desertam a beira-mar,
E que o viajante demorado na praia,
Sentindo passar a morte, se recomenda a Deus."

     
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