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... da Saúde

"Estado de completo bem-estar físico, moral e social e não apenas a ausência de doença ou enfermidade"
(O.M.S.)


Humanização em saúde

"Mais importante do que conhecer a doença que tem o Homem, é conhecer o Homem que tem a doença"

Há muito tempo que todos nós ouvimos falar em Humanização, sobretudo em Humanização dos Hospitais. Fala-se nos jornais, na rádio, nas televisões, nas conversas de rua ou de café e nas nossas casas com a família e os amigos. Nos Hospitais criaram-se mesmo Comissões de Humanização. Mas porquê , porque se fala cada vez mais neste tema? Será porque as pessoas se vêm desumanizando? E será só nos Hospitais que esse fenómeno se passa? Terei que responder negativamente às duas questões. E, começando pela segunda, entendo que em todos os locais de atendimento público se nota cada vez mais um certo "alheamento" - chamemos-lhe assim - por quem procura qualquer serviço.

É evidente que na saúde essa situação tem um peso muito maior porque a razão da procura é muito mais importante do que em outros sectores da área de serviços. E verifica-se não só nos Hospitais mas em Centros de Saúde e em muitos outros locais de prestação de cuidados de saúde. E será que as pessoas se desumanizaram? Também penso que não. E por mais críticas que se possam fazer todos nós somos humanos: sentimos e reagimos em função daquilo que somos e do ambiente e das circunstâncias que nos rodeiam.

Não sou Sociólogo nem Psicólogo e assim darei a minha visão pessoal do problema pela vivência que tenho na área da saúde. Como em todas as situações quando se procura algum serviço há sempre duas posições perfeitamente interligadas: a de quem solicita o serviço e a de quem o presta. Na saúde e de uma maneira geral quando se recorre a qualquer serviço há sempre, no mínimo, uma certa ansiedade em relação à situação.

Por mais simples que a queixa seja - física e/ou psíquica - a pessoa vai sempre preocupada com a decisão do Médico: "Será que tenho alguma coisa grave?" E isto verifica-se em casos tão simples como, por exemplo, na avaliação das tensões arteriais, pois é muito frequente uma subida tensional, pelo simples facto de ir avaliá-las. É a chamada "hipertensão das batas brancas". E poderíamos dar imensos exemplos desde os mais simples até aos casos mais complicados como ter de recorrer a um serviço de urgência hospitalar numa situação de emergência.

Aqui sim, vive-se a angústia do doente ou do traumatizado e a dos familiares que, geralmente tranquilos em casa ou no trabalho, recebem a notícia de que o seu marido, filho, etc. está numa urgência hospitalar. Estas duas entidades - a doença/traumatismo em si e o nervosismo e ansiedade de quem a sofre ou de quem quer saber rapidamente dos seus familiares são as mais importantes no binómio doente/profissional de saúde.

Estes, a trabalhar num ambiente de grande tensão e com a pressão constante da admissão de doentes (no Hospital de S. João podem entrar uma média de cerca de 600 doentes/24 horas) alguns deles em situação de prognóstico vital muito reservado, têm muitas vezes dificuldade em estabelecer uma relação eficaz entre o atendimento técnico e o apoio necessário, compreensivo e continuado do ponto de vista psicológico a doentes e seus familiares.

A sobrecarga de trabalho é tão grande que aceito que o segundo aspecto possa ser desvalorizado em relação ao primeiro. Trabalhei em Serviços de urgência Hospitalar durante 38 anos e chefiei uma equipa de Urgência durante 14 anos. Sempre, Médicos e Enfermeiros, procuraram minimizar ao doente a sua situação, incentivar a esperança e a tranquilidade e apoiar e informar os familiares. Que é difícil ter tempo para tudo é verdade? Que se falhou algumas vezes?, também.

Há quem pense - e o refira -, que quanto mais tempo se trabalha em situações de urgência vai tornando as pessoas menos sensíveis às dores alheias. Nada de mais errado. Esse tempo todo e essa experiência só servem para se "calar" a preocupação e exteriorizar a esperança e o otimismo. Nunca a dor e o sofrimento dos outros podem ser menos sentidos ou desvalorizados, com o passar dos tempos, por quem procura insistentemente atenuá-los, fazê-los desaparecer e salvar vidas. Falei nas situações extremas que se podem viver em serviços de urgência. Mas e nas enfermarias e na medicina do ambulatório?

Sem discutir o aspecto de diferenciação técnica dos profissionais de saúde que cada vez é maior e melhor tenho a sensação muito forte que às vezes o "lado" humano pode falhar ou falha mesmo. Muitas causas se podem apontar para que esta situação se manifeste: muito trabalho, poucos profissionais, etc. etc. mas sobretudo uma menor predisposição para estabelecer relações de empatia tão fundamentais na vivência profissional de saúde/doente. Não sei até que ponto uma maior capacidade técnico-profissional, aliada ao contexto geral da Sociedade em que se vive e a tendência ao pseudo-egocentrismo como estatuto sócio-profissional são responsáveis por situações menos corretas.

Bem sei que se pode dizer que às vezes os doentes contactam os profissionais duma maneira menos amistosa. Sabe-se, lê-se e ouvese que em situações extremas essa maneira pode tomar a forma de agressão verbal e física. Tal como há algumas desculpas atrás apontadas para os profissionais também para os doentes se podem enunciar várias começando exatamente por serem eles os "sofredores", os longos períodos de espera que por vezes suportam para serem atendidos e muitas vezes a forma como o são. Podíamos estar aqui a enumerar um sem fim de situações, de causas e de soluções.

O problema existe, é de grande importância e gostaria só que cada um pensasse nele. Mas de uma coisa todos os profissionais não se podem esquecer: é de que quem os procura precisa deles. E para além da sua capacidade profissional precisam fundamentalmente do seu lado humano: a compreensão, a dedicação e a tolerância. Quantas vezes um simples sorriso, uma palavra amiga e de simpatia ajudam a suportar tantas dores... Vive-se uma época de alta tecnologia em que a máquina procura substituir o Homem e este serve-se dela para mais rápida e eficazmente atingir o seu fim. Mas e o outro Homem? Entende a máquina a resposta que fornece e resolve o problema por mais eficiente que seja? Nenhuma máquina substitui o Homem na sua relação com o seu semelhante.

Aproveitemos a inovação tecnológica para que nos sobre tempo a fim de conhecermos melhor o Homem que temos à nossa frente, conversarmos com ele e entendê-lo nas suas preocupações e ansiedade. Vamos procurar estabelecer cada vez mais uma relação de amizade e tolerância entre todos e não uma relação de necessidade. Esta cessa quando desaparece a causa. As outras perduram. E vamos sempre pensar que hoje estamos deste "lado" e amanhã com toda a probabilidade estaremos do "outro". E aí sim, queremos receber o que às vezes não soubemos dar: a palavra amiga, e o tal sorriso... A Humanização que todos procuramos e temos de atingir.

     
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