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“Põe-te andar, pela tua saúde…” - À descoberta das muralhas do Porto

A 10ª caminhada promovida pelo SBN – “À descoberta das muralhas do Porto” – subordinada ao tema genérico “Põe-te a andar, pela tua saúde”, começou com um dia a prometer chuva, não se mostrando nada simpático para quem pretendia calcorrear o Porto antigo, percorrendo os caminhos envolventes das muralhas do Porto.

O encontro ocorreu no terreiro da Sé, junto ao Pelourinho, que embora recente, foi um bom local para fazer a ponte entre o moderno e o antigo. Do artigo que nos foi enviado pelo associado António Fleming respigamos as passagens que a seguir reproduzimos.


A Sé do Porto

Os caminhantes deslocaram-se depois ao interior da Sé do Porto, magnífico monumento cuja data de construção se perde nos tempos. Foi, no entanto, beneficiando de obras de remodelação ao longo dos séculos, das quais se salientam as que Nicolau Nazoni efectuou nos primórdios do séc. XVIII.

O interior é imponente, com a grande nave central cruzada pelo transepto e o altar-mor de uma talha dourada que corta a respiração e deixa os visitantes sem palavras. Houve ainda oportunidade para contemplar o magnífico altar em prata, que havia sido poupado às pilhagens da terceira invasão francesa, porque alguém a teria pintado de cal branca, enganando assim os invasores.

Da Sé do Porto, o percurso foi pela Rua de D. Hugo percorrendo a estreita viela que era delimitada pela primitiva muralha do Burgo Portucalense, onde, aqui e ali, se pode ainda vislumbrar o pouco que resta daquela cerca defensiva.


A muralha primitiva

Noutra paragem, foi apreciado o que resta de uma das quatro portas – a Porta das Mentiras, que a partir do século XIV se redenominou Porta de Nossa Senhora das Verdades, junto à escada das Verdades. Resta a capela da Nossa Senhora das Verdades, qual guardiã de serviço à memória da porta, da qual se desconhece a data do desaparecimento. Uns metros adiante, a surpresa vem de uma visão única da dimensão do que terá sido a muralha primitiva, no jardim do edifício onde se situa a casa-museu de Guerra Junqueiro.

Apesar do portão se encontrar encerrado, o gradeamento em ferro permite invadir visualmente um troço da muralha, contemplando a sua altura. Logo a seguir, depara-se o chafariz de S. Miguel-o-Anjo, atribuída a Nicolau Nasoni e datado do século XVII, tendo sido construído logo a seguir ao local onde se encontrava a Porta de Nossa Senhora de Vendoma (em frente da actual Rua Chã, que era a porta mais nobre e mais larga e a única que permitia a entrada de carros, que foi demolida em 1855).

Depois, a estátua equestre de Vímara Peres, guerreiro da corte de Afonso III de Leão, que conquistou definitivamente o condado de Portucale aos mouros no ano de 868. Da terceira porta da velha muralha, a de S. Sebastião, já não restam sinais, tendo sido demolida em 1819 para dar lugar à escadaria que leva à Rua Escura.


O casario da cidade

No princípio da Rua S. Sebastião encontra-se o oratório da Capela de S. Sebastião, construído pela Ordem dos Frades Agostinhos Descalços, sediados no Convento dos Grilos. Segue-se pela Rua de S. Sebastião, de onde se podem observar os contrafortes da muralha encimada pela torre da Sé. Da Rua de S. Sebastião segue-se para a Rua de Pena Ventosa, cujo nome honra o morro homónimo, local pelo qual era designado o monte onde teve origem o velho burgo do Porto.

No voltar da esquina depara-se a majestosa Igreja dos Grilos, numa dimensão quase assustadora entre o emaranhado de pequenas vielas, situada no Largo do Colégio. Segue-se pela Rua de Sant’Ana em direcção à última das portas que existiam na velha muralha – a de Sant’Ana (ou Arco de Sant’Ana, como ficou imortalizado no romance de Almeida Garrett), demolida em 1821.


A muralha Fernandina

Encontra-se depois a muralha fernandina, pelas ruas da Banharia, Rua dos Mercadores, Infante D. Henrique. A designação desta muralha surge por ter sido no reinado do Rei D. Fernando I que foi dada por concluída, embora a construção se tenham iniciado no ano de 1336, no reinado de D. Afonso IV. Segue-se depois, pelo Cais da Estiva, por um troço da muralha que ostenta ainda ferros de amarração das embarcações.

É oportunidade ainda para admirar a capela de Nossa Senhora do Ó, que beneficiou de grandes obras de restauro em 1833 depois de ter sido atingida pela artilharia da Serra do Pilar durante o cerco do Porto pelas tropas liberais de D. Pedro que sitiaram as forças absolutistas de D. Miguel. Seguindo o caminho pelo Cais da Ribeira, encontra-se a casa onde nasceu e viveu José Luís Gomes de Sá (1851-1926) que, como reza a placa identificativa deste local, “inventou para o Mundo o bacalhau à Gomes de Sá, glória da culinária portuguesa”. Uns metros adiante pode-se observar o único postigo da muralha fernandina que chegou até aos nossos dias e que se espera possa perdurar pelos tempos futuros, o Postigo do Carvão.


O Postigo do Carvão

De seguida penetra-se nas estreitas vielas da cidade antiga. Escondida por trás da muralha são visíveis as memórias da Idade Média. Hoje servem de local para restaurantes, num local protegido e Património da Humanidade. Dessas vielas escuras, mas cheias de vida, ressalta, por exemplo, as ruas dos Canastreiros e da Lada.
Continuando pelo Cais da Ribeira, recorda-se o tenebroso acidente da Ponte das Barcas, no tempo da terceira invasão francesa, que, ruindo, impeliu largas centenas de portuenses para a morte, na tentativa vã de salvarem as vidas. Recorde-se que, junto aos pilares da ponte pênsil (ou de D. Maria II, conforme inscrição gravada na memória dos seus suportes), a ponte era sujeita a portagem.


A vertiginosa escadaria dos Guindais

À frente, a majestosa a Ponte de D. Luís, sobre o Rio Douro e à esquerda o elevador dos Guindais – alternativa à escadaria. Ainda há tempo para uma visita ao mosteiro de Santa Clara e para admirar a belíssima talha dourada, exemplo extraordinário do barroco. Segue a viagem pela Rua da Madeira, onde se observa um exemplo curioso da adaptação aos tempos modernos – o hotel situado na Praça da Batalha assenta em restos da muralha fernandina.

Prossegue-se até à estação de S. Bento, antigo convento de São Bento de Ave-Maria, onde se observam os azulejos. A Rua dos Clérigos conduz à Igreja que lhe dá o nome, permitindo uma subida ao maior ex-libris da cidade – a Torre dos Clérigos. Pode-se aproveitar depois para uma visita à antiga Cadeia da Relação e actual Centro Português de Fotografia, visitando a cela onde Camilo Castelo Branco cumpriu a pena. Rapidamente se segue pela Rua das Taipas, com paragem no Passeio das Virtudes.

O percurso segue o caminho da antiga muralha, agora escondida por detrás das casas que acompanham a rua, até à Igreja de S. João Novo, descendo depois as escadas do Caminho Novo, com um troço em excelente estado de conservação da muralha fernandina, terminando caminhada junto à Rua da Alfândega.

     
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