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Uma reflexão necessária…

José Simões, sócio 10791 (sociólogo)

A emergência de uma vincada pulverização sindical na banca não veio beneficiar ou credibilizar o sindicalismo, e muito menos beneficiar os bancários em particular. E não tenho dúvidas de que deste processo de pulverização sindical, (novos sindicatos de empresa e outros de criação mais recente), resultou podermos observar a perpetuação de velhos comportamentos, como de uma verdadeira reprodução negocial enquistada de clivagens classistas e ideológicas ainda não superadas se tratasse, infelizmente!

E a sustentar e “alindar” todo este quadro, não podia aqui deixar de me referir à posição assumida pelo presidente do SNQTB, recentemente publicada em livro (Sindicato –Empresa, uma nova via para o sindicalismo, 2009, Deplano Network, SA). Diz ele “(…) não querer converter ninguém [mas] que o sindicalismo está fora de moda e passados os tempos áureos, mas funestos para a sua credibilidade que foram os tempos do PREC, [e] o que está a dar parece, é o liberalismo, os tiques do patronato, a desregulamentação da vida económica e social, matéria onde os sindicatos são tidos como inconvenientes desmancha prazeres” (Idem, pág. 15)!

Mas não foi o SNQTB a primeira estrutura sindical a dar a “facada” no sindicalismo bancário? E diz ainda que “o nosso viver social [se caracteriza pela] nossa colectiva falta de carácter, aliás bem manifesta nos brandos costumes” (Idem, pág. 16), acusando a UGT e CGTP de falta de credibilidade e de desinteresse pelo sindicalismo! (Idem, Ibidem) A primeira, “porque diz sim às propostas do Governo e Patronato [e a segunda] porque estando presente só diz não [sendo ambas] correias de transmissão de partidos” (Idem, Ibidem)!

Bem me parece que as contradições são demais para aqui serem devidamente desenvolvidas neste espaço. No entanto, e para rematar esta minha posição crítica ao seu conteúdo, ao senhor presidente do SNQTB só falta dizer que o seu sindicato é o único “desmancha prazeres” do patronato e dos governos! Que será o único que não tem ideologia! Só nos faltava agora tanta sobranceria, e uma enorme dose de etnocentrismo passadista e falta de humildade democrática, ao procurar enviar farpas às restantes instituições sindicais! Só o seu sindicalismo é que é o correcto, parece querer dizer! Não subsistem rancores classistas mal resolvidos? E não será uma tentativa de lavar a consciência, já que não consegue melhores ganhos ou reformas que os demais sindicatos?

Com tanta independência e liberdade negocial face aos governos e patronatos de que se arroga arauto, muito me honraria perceber a independência existente no SNQTB face à constituição de uma “fundação social do quadro bancário”, precisamente com a parceria de instituições crédito, ou seus representantes! Tal parceria não accionará automatismos constrangedores a uma independente e livre negociação, isto para além de construir limites e barreiras aos demais sindicatos do sector?

De facto, um moderno sindicalismo passará certamente por uma constante adaptação e evolução face aos inúmeros condicionalismos e novas estratégias que os regimes políticos, versus modelos económicos, vão engendrando para combater o sindicalismo; no entanto, também não será o modelo divisionista e classista ora aqui defendido pelo presidente do SNQTB que fará mudar o actual modelo negocial que tanto tem protagonizado!

E como já não fosse suficiente eis que alguns bancários, sob um discurso populista do seu líder, “militante dum partido, crente de uma religião e sócio de um grande clube desportivo” (como faz questão de divulgar no comunicado de apresentação) acabam de colocar no “mercado” sindical mais um sindicato de bancários, ou seja, o “Movimento Bancários de Portugal”. Democraticamente, não conseguiram fazer ouvir a sua voz, fazer passar as suas propostas no seio das estruturas de que faziam parte, logo, e porque a ânsia e a sede da partilha do poder e da dominação sindical lhes secavam as veias do protagonismo, a saída passou pelo engendramento de mais um sindicato paralelo! Foi o que se passou com os dos “Quadros” há vinte e cinco anos, e que os membros do agora “recém-nascido” sindicato também não se coibiram de maldizer (se assim não fosse não militavam nas estruturas do sindicato tradicional de bancários)!

E onde estão os ganhos dos bancários? Estamos melhor? Ou de facto estarão só uns tantos? Claro está, alguns estão de certeza, mas muito poucos face aos sacrifícios das largas dezenas de milhar de bancários! As instituições sindicais tradicionais, donas de um acervo honroso desde os fins dos anos vinte do século passado, têm que reflectir profundamente sobre o que querem para o futuro e que estratégias desenvolver, não só para fazer frente ao despudorado capitalismo da banca, como para fortalecer a acção sindical!

Não há (nunca houve em parte alguma) estruturas perfeitas que só possam elencar feitos e ganhos! Mas os infortúnios, os desaires e as desilusões não são, objectivamente, razões bastantes para se constituir ali ao lado mais um sindicato! Porque o “bom senso” de alguns é “mau-senso” para outros tantos, seria de admitir uma “cheia” de sindicatos, tantos quantas as “capelinhas ideológicas” dos seus membros, e isso resultaria, inevitavelmente, no suicídio sindical. A acção sindical requer uma permanente avaliação às medidas aprovadas, às acções desencadeadas, e um observatório permanente às estratégias dos banqueiros que exigem mais desregulamentação, para daí flexibilizar e precariezar cada vez mais!

Mas melhor que as minhas considerações críticas, são estas passagens do seu discurso, que passo a citar:

“ (…) Voltar a UNIR toda uma classe, para UNIR todos os BANCÁRIOS (…) absoluta certeza que exercerei com lealdade, determinação e coragem as funções em que fui investido. Sem medos e, acima de tudo, sem cedências (…) manterei isenção, equilíbrio, equidistância, objectividade e bom senso na condução do Movimento Bancários de Portugal, e fá-lo-ei ao serviço dos superiores interesses dos Bancários (…)”.

Seria fastidioso aqui descrever, na totalidade, o conteúdo do seu discurso! Ele é público e corre na Internet! No entanto, as suas palavras são a reprodução de outros discursos, muito formais, típicos de poses de Estado, tal qual quando se tomava posse de uma função pública! Tal qual discursos de tomadas de posse de governos!

Então promove a UNIÃO dos bancários, desarticulando-os? Está tão-somente a copiar outros sindicalistas que, com estes slogans (no caso, alindados com um copo de tinto (?) do Porto, como se vê na foto da Internet), colocaram os bancários na maior crise do sindicalismo de todos os tempos, desde as primeiras acções colectivas que se conhecem, ou seja, estamos perante uma onda de apatia e alheamento que varre os bancários, apesar dos sérios constrangimentos e problemas que o seu quotidiano lhes constrói!

Este sim, será o grande paradigma dos bancários, e não dos velhos e novos dirigentes! Os graves problemas dos bancários não são os arrufos e as guerrinhas de protagonismo e poder internos (como parece ser o caso), mas sim como construir a UNIDADE! Apregoar a UNIÃO com acções de divisão… estamos fartos de tanta insensatez e narcisismo doentio de alguns sindicalistas, ou melhor e como alguém há dias escrevia, estamos perante uma preocupante “obesidade mental”, que precisamos liquidar.

     
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