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Serão os especuladores financeiros os verdadeiros vencedores da crise?

A crise não gera somente perdedores. Os especuladores financeiros, com efeito, continuam a apostar na derrocada da zona euro, alimentando e especulando sobre os problemas que conhecem alguns países europeus.

Desde o início do ano, os especuladores financeiros entraram de novo em cena. É certo não ser a primeira vez que os especuladores afirmam o seu poderio sobre os mercados, mas o que está em vias de se passar neste momento é de novo totalmente irracional.

De facto, os que causaram a crise financeira estão a começar a aproveitar-se dela, especulando sobre a viabilidade a longo prazo das finanças públicas dos Estados de que receberam garantias para a salvação deste mesmo sistema financeiro. Em função do esforço redobrado para evitar o afundamento dos mercados financeiros e também para relançar a economia e reparar os profundos desgastes sociais causados pela recessão, as finanças públicas da maior parte dos Estados europeus encontram-se actualmente sob forte pressão. As estatísticas fornecem uma aproximação extremamente eloquente e alarmante sobre a situação económica actual e sobre as previsões a curto prazo sobre os países da zona euro visados pelos especuladores financeiros.

A especulação em acção

A especulação financeira consiste num conjunto de operações de  compra e venda de títulos financeiros ou monetários, com o objectivo  de realizar mais-valias graças à variação dos seus valores.  Na prática, o especulador espera a evolução do curso de um título  num lapso de tempo curto ou muito curto, em relação às aplicações  financeiras clássicas, com a finalidade de ganhar o máximo dinheiro  possível. Para mais, se para um investimento «clássico» encontramse  estatísticas e previsões sólidas, o elemento chave de qualquer  especulação é a subjectividade, nomeadamente a utilização de previsões  que não se apoiam em bases estatísticas sólidas.

Frequentemente, a acção dos especuladores  é auto-controlada: escolhem actuar macivamente sobre  as perdas de um título e esta acção constitui a própria base  daquelas perdas.

A especulação em torno da viabilidade financeira da Grécia constitui  um exemplo muito claro desta prática: os especuladores «decidiram  » sobre a incapacidade de a Grécia pagar as suas dívidas e  esta «decisão» alimenta a ideia de o país ser insolvente, gerando,  em torno deste ideia, um clima de irracionalidade, como o pânico  que se instalou no seio dos agentes económicos.

Ao mesmo tempo, os especuladores «decidem» sobre a saída da  Grécia da zona euro, o que fez cair a cotação do euro e aumentar  as taxas de juro gregas a dois anos a um nível duas vezes superior  à média dos países emergentes. Segundo o «Financial Times», existirão  mais de quarenta mil contratos de valor superior a 7,5 biliões  de dólares que «empurram» a Grécia para a saída da zona euro e  para a queda do euro.

Em 1992, o magnata americano Georges Soros especulou sobre os  mercados de câmbios e provocou a desvalorização da libra estrelina  e da lira italiana, fazendo-as sair igualmente do sistema monetário  europeu. O franco francês foi igualmente visado, mas a intervenção  vigorosa do Banco de França rechassou aquele ataque especulativo.  No jargão financeiro anglófono, fala-se entretanto em «PIIGS» (porcos, em Inglês), acrónimo voluntariamente pejorativo para classificar  as economias portuguesa, italiana, irlandesa, grega e espanhola,
fortemente endividadas.

Todas estas especulações têm sido possíveis porque certos tipos de  transacções e contratos financeiros não são eficazmente regulamentados  nem transparentes. Trata-se sobretudo dos contratos de  seguros que cobrem o comprador contra o risco de não reembolso.  O princípio é muito simples: quanto mais o risco de insolvalibilidade  for elevado, mais elevado será o preço do seguro. Neste contexto de insegurança, numerosos especuladores actuam sobre a explosão  dos preços dos seguros gregos, o que significa que apostam na  falência daquele país. 

Nesse aspecto, desde Outubro de 2009 que a Grécia passou de uma base de 120 pontos para os actuais mais de 400. Estes aumentos  foram provocados por rumores por um pedido iminente de  apoio da República Helénica ao Banco Europeu de Investimentos e  ao Fundo Monetário Internacional.

Mesmo apesar de estes rumores se terem revelado infundados, o preço dos seguros gregos aumentou vertiginosamente e continua a subir. Outro elemento incontrolável: nestes últimos anos, o mercado destes seguros autonomizou-se em relação aos seus valores fundamentais,
o que aumentou ainda mais a especulação – os seguros compram-se e vendem-se livremente –, como se subscrevesse um seguro de incêndio esperando que a casa se incendiasse antes que estivéssemos na posse dela!

No que concerne ao euro, em cerca de três semanas, a cotação em relação ao dólar americano passou de 1,50 para 1,35. Esta queda «justifica», por sua vez, que se peça taxas de juro cada vez mais elevadas à Grécia, mas também a Portugal e a Espanha, neste momento as economias mais frágeis da zona euro.

Sem regulamentação é o regresso aos velhos hábitos

Longe de subestimar o problema que representa a viabilidade das finanças públicas gregas, não se deve esquecer que o produto interno bruto (PIB) daquele país não representa mais do que o PIB da zona euro. Assim, a zona euro, no seu conjunto, é perfeitamente capaz de dar todas as garantias necessárias quanto à não insolvalibilidade da dívida grega. Deixar-se tentar pelas lógicas irracionais alimentadas pelos especuladores financeiros é fazer o seu jogo. Ainda que o contexto político tenha sido diferente, não esqueçamos que se estimou a taxa de insolvabilidade da Califórnia – Estado que representa 13% do PIB americano – como elevada, sem que o dólar tenha sido afectado de forma significativa.

Todavia, o que está em vias de se passar, demonstra que, na ausência de regras eficazes a nível europeu e mundial, os especuladores perpetuam as mesmas actividades de risco inconsiderado que estiveram na base da crise financeira do outono de 2008, de que ainda hoje pagamos um elevado preço. Face a uma tal situação, impõe-se uma resposta política determinada: os decisores europeus devem regulamentar eficazmente este domínio, o que será um forte sinal político para aqueles que jogam com a estabilidade financeira e política dos Estados e dos cidadãos.

Já há muito tempo que a CES reivindica uma legislação europeia nesta matéria, porque as consequências não somente económicas mas sobretudo políticas e sociais das especulações financeiras são excessivamente brutais.

Para o movimento sindical europeu, uma legislação digna desse nome deve garantir poderes eficazes e efectivos às autoridades de supervisão dos mercados, uma regulamentação dos fundos especulativos e dos fundos de investimentos privados e a supressão dos paraísos fiscais, bem como uma taxação sobre as transacções financeiras, pelo menos a nível europeu.

Estão em discussão no Parlamento Europeu diversos textos que cobrem grande parte dos problemas enunciados pelo movimento sindical. Para além do mais, as recentes declarações do novo comissário encarregado do Mercado Interno relativas a uma próxima proposta legislativa para tornar aqueles seguros mais transparentes é um passo na boa direcção. Entretanto, a CES continuará a seguir aqueles dossiês. A este propósito, em cooperação com outros parceiros, o movimento sindical europeu pôs em curso uma campanha de sensibilização e de mobilização a fim de contribuir eficazmente para os debates em curso.

A fim de que a crise não se repita, a política deve tomar particular atenção aos mercados financeiros. Por isso a CES seguirá se muito perto os trabalhos em curso no Parlamento, para que a União Europeia se dote de regras estritas e eficazes.

Tradução e adaptação de Francisco José Oliveira

     
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