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Rio Douro

No côncavo do vale
Afeito às horas
Silenciosas,
Agrestes e sombrias,
Espelham águas
Lambendo, preguiçosas,
A face às penedias.

Livre corrente doutros tempos,
Agora amordaçada por represas
Que moderam
A tua impaciência,
Vais moendo,
Por entre as fragas,
A raiva
Da tua líquida impotência.

Navegam-te, hoje,
- Douro domesticado -
Barcos alheios
À tua tradição,
Oferecendo
Aos olhos do turista deslumbrado,
Para lá da imponência dos rochedos,
A singular paisagem
Das encostas em socalcos
Cobertos de vinhedos.

Mas sob as quilhas
Dos barcos de lazer,
Repousam, no segredo do teu leito,
Pedregoso e sombrio,
Velhas memórias
Dum outro rio.
Longas histórias,
Guardadas com saudade,
De quando as tuas águas.

Corriam em liberdade
E os mostos perfumados,
Tratados com desvelo,
Escorriam dos montes,
Desaguando
No bojo do Rabelo.
Afogadas lembranças da coragem
De heróis anónimos
Que, p’ra salvar
A carga e a embarcação,
Lutavam, peito a peito,
Com o rio selvagem,
Encharcados de água e de suor,
No desespero de vencer cada cachão.


Sílvio Martins

 

     
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