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Diabetes: o doce e o amargo

Conhecida há cerca de quatro milénios, deve a sua designação ao grego, que significa “passar através de”, reflectindo a aparente incapacidade do organismo reter os líquidos ingeridos (os diabéticos não controlados bebem grandes quantidades de líquidos, urinando igualmente muito).

A palavra “mellitus” é utilizada bastante mais tarde, deriva do latim, e significa “com sabor a mel”, aludindo ao facto da presença no organismo de elevadas quantidades de açúcar, permitindo assim distinguir esta forma de diabetes de outra, muito mais rara, designada por insípida, em que a elevada ingestão de líquidos não tem como causa a desregulação do metabolismo da glicose mas a ausência ou ineficácia de uma outra hormona que controla o débito urinário.

Só nos últimos duzentos anos se conhecem melhor os problemas associados à diabetes e assim se começou a evoluir no tratamento, interferindo desde então no curso habitual da doença, tentando melhorar a qualidade de vida e proporcionar uma esperança de vida semelhante à da população em geral.

Apesar destes avanços, a incidência tem vindo a aumentar e está a tornar-se numa verdadeira pandemia. Estima-se que em 2025 existam trezentos milhões de diabéticos em todo o mundo, sendo já uma das primeiras causas de mortalidade e morbilidade, com elevados custos sócio-económicos na saúde (cerca de 10% do orçamento para a saúde é gasto com a diabetes). Em Portugal calcula-se que existam actualmente entre quatrocentos e quinhentos mil diabéticos.

Das variedades mais comuns de “diabetes mellitus” – tipos 1 e 2, a mais frequente (quase 90%) é a tipo 2, também designada por não insulino-dependente. Há com frequência antecedentes familiares próximos e está habitualmente associada a hábitos alimentares errados, vida sedentária e stress. O diabético tipo 2 é quase sempre obeso ou apresenta algum excesso ponderal e a acumulação de gordura é na maioria dos casos abdominal.

Nas fases iniciais, não há uma verdadeira carência de insulina mas sim uma menor eficácia, limitando assim a utilização celular do açúcar que sobe no sangue. É a chamada insulino-resistência. Numa significativa percentagem destes casos e nas fases mais precoces seriam suficientes as mudanças do estilo de vida para assim reverter (no mínimo adiar) a desregulação metabólica em causa.

Todavia, quase sempre se recorre à terapêutica medicamentosa, porque os sacrifícios pedidos são demasiados para a motivação, que não é grande… Os medicamentos vão, assim, durante mais ou menos tempo, disfarçando os efeitos dos maus hábitos de vida, até termos que recorrer à insulina, o que acontece cada vez com mais frequência.

Quando o controlo, apesar de tudo, é satisfatório, as complicações da doença tardam a surgir ou têm pouco impacto na qualidade de vida. Mas com alguma frequência isto não acontece, surgindo então o “amargo” da situação, assistindo-se ao desfilar do cortejo das complicações, quase sem soluções para impedirmos a progressiva deterioração da qualidade de vida até graves incapacidades.

Novos estudos surgem diariamente e as novidades sucedem-se, embora ficando aquém das expectativas de todos, que esperam sempre da ciência mais e maiores avanços. As investigações incidem quer na prevenção, quer na cura, quer na solução das complicações. Claro que na cura da diabetes só beneficiarão plenamente aqueles que se mantêm com um bom controlo, sem vestígios de complicações.

Para a prevenção, em muitos casos, o contributo pessoal é decisivo, insistindo-se na prática diária de um estilo de vida saudável. Na realidade, havendo bom senso no que respeita à alimentação, tudo ou quase tudo se pode comer, desde que com moderação. Recomenda-se uma alimentação, distribuída por cinco a sete refeições diárias de menor conteúdo e com intervalos que não excedam três horas. É permitido aos diabéticos, meia dúzia de vezes por ano e em situações especiais que o justifiquem, o prazer de entrarem em alguns devaneios alimentares.

A prática quotidiana de exercício é igualmente relevante, contribuindo para contrariar a elevada incidência de obesidade a que o sedentarismo e a má alimentação conduzem. Para ser eficaz deve ser praticado com regularidade e durante um período mínimo de trinta minutos. A diabetes não é uma tragédia, nem a eventual terapêutica com insulina representa o fim. Como doença que é, obriga a cuidados continuados que, uma vez observados, levam, na maioria dos casos, a uma normal esperança de vida com qualidade.


Baldaque Faria, médico endocrinologista

 

     
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