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O manchego

Por Sílvio Martins



O canto do galo acorda a madrugada
E a manhã que se tinge de luz acobreada,
Abre, ao dia, da Mancha a planura.
Revolvendo no ar a poeira da estrada,
Cabelos ao vento na magra montada,
Avança na luz crepuscular,
Com seu nimbo de sonho e de loucura,
Errabundo no tempo e no lugar,
O Cavaleiro da Triste Figura!

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Nos campos maninhos onde só gados,
Por rudes pastores apascentados,
Vão resistindo a vida tão dura,
Vê o Manchego guerreiros armados
E gigantes por outrem jamais achados.
Em castelos roqueiros, chorando a desdita,
Imagina donzelas em clausura
Esperando a ajuda da espada expedita
Do Cavaleiro da Triste Figura!

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Excessos de sol no elmo brilhante
Escandecem-lhe a mente e o olhar delirante.
De lábios cerrados e arrogante postura,
Crava as esporas no Rocinante
E à desfilada, com voz trovejante,
Para pasmo de Sancho no tardo jumento
A quem tal fúria desgraça augura,
Ataca pacatos moinhos de vento,
O Cavaleiro da Triste Figura!

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De alma ligeira e corpo alquebrado,
Deambula o herói, equivocado,
Nos longos caminhos da insana aventura.
Os fantasmas por quem se sente guiado
Habitam nos arquivos do passado,
Lá nos poeirentos sótãos da História.
Perdido em atos de inútil bravura,
Vai perseguindo a fama ilusória,
O Cavaleiro da Triste Figura!

     
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