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Visita guiada a nossa casa

Nos dois meses com que abriu este ano de 2020, o país deparou-se com temas bem intensos e diversificados. Recordo, entre outros, as consequências das alterações climáticas, os refugiados, a eutanásia, os cânticos racistas sobre o jogador Marega e os escândalos associados à cleptocracia angolana.

Eis que chega Março que virou Marçagão. Não, não para nos relembrar o provérbio popular bem conhecido, mas invadindo-nos com uma ignorada pandemia à escala mundial, que ameaça a nossa sobrevivência, sem fim à vista e que tem espalhado “choro e ranger de dentes” não escolhendo estratos socioeconómicos, cor da pele, implantação geográfica.

A Natureza tem os seus ciclos de agressão (gripe espanhola), vai alterando a sua biodiversidade e, violentamente, faz-nos sentir num tempo e num modo totalmente imprevistos, a nossa fragilidade humana, questionando-nos como vivemos, como nos relacionamos e organizamos, como hostilizamos também o mundo que nos rodeia e hipotecamos, de modo suicida, o futuro desta vida terrestre.

A Natureza tem os seus ciclos de agressão (gripe espanhola), vai alterando a sua biodiversidade e, violentamente, faz-nos sentir num tempo e num modo totalmente imprevistos, a nossa fragilidade humana, questionando-nos como vivemos, como nos relacionamos e organizamos, como hostilizamos também o mundo que nos rodeia e hipotecamos, de modo suicida, o futuro desta vida terrestre.

E prevemos que o impacto no tecido económico vai ser enorme e negativo com falências, desemprego, desinvestimento, vidas despedaçadas, futuros destruídos, toda uma panóplia de fados negros e amargos onde não vão faltar especuladores, tubarões e vampiros insaciáveis, cá dentro e lá fora.

Na vertente social não queremos esquecer também os mais velhos, com menos mobilidade, sem internet, sem carro, sem teletrabalho, nem rendimentos razoáveis e que vão sobrevivendo, sabe-se lá como. Até a calamidade que nos invade e mortifica perpassa, diferentemente, pelos estratos sociais existentes. Quem é frágil e principal vítima do vírus sofre mais e fica ainda pior do que estava anteriormente.

A razão do título deste artigo prende-se apenas com uma das muitas vertentes de abordagem possíveis que o COVID 19 induz, a da dimensão individual e familiar.

Já há umas boas décadas, Albert Camus dizia que a questão mais premente do nosso tempo era cada Homem descobrir onde era a sua casa. O então Padre Tolentino de Mendonça em 2011, referia ao Jornal de Letras o seguinte:

“Dia a dia há uma rota que voltamos a trilhar entre a fadiga e a esperança, cruzando as paredes do tempo. Cada um de nós cumpre, mesmo sem especial reflexão, trajetórias que são as suas:



  • A estrada que escolhemos para regressar,

  • A forma familiar que temos diariamente de rodar a chave,

  • O modo de abrir para o que ali habita,

  • Aquela fração de segundo antes da primeira palavra, em que a casa inteira parece que vem ao nosso encontro, ofegante ou em puro repouso”.


E lembrando também o que o escritor e ensaísta Eduardo Lourenço citava ao Jornal Expresso: “Só há aldeias, porque mesmo as pessoas que vivem nos grandes meios escolhem sempre um canto que lhes serve de aldeia. A aldeia é um conjunto de casas. E no meio das casas há a casa. E nós precisamos de viver numa casa. O problema é aqueles que sabem isso e não têm casa…”


O coronavírus e o consequente e necessário estado de emergência, remeteu-nos para casa mas em situação de isolamento social, ausência de contactos, de podermos tocar afetuosamente os outros e ainda com cuidados redobrados de higiene.

Retidos sem aviso prévio, não rodámos a fechadura da nossa casa à procura de refúgio, mas reforçámos o trinco da mesma como de uma clausura se tratasse e sem tempo de recreio à semelhança do que acontecia com algumas regras monásticas.

Acrescente-se ainda o trabalho em casa, a ausência dos colegas e da liberdade de movimentos, estes tão rotineiros e habituais que já fazem parte das curvas da nossa vida e que nos acompanham no regresso ao lar. O ser humano não existe sozinho, é um ser social, um ser gregário que precisa de viver em grupo. E esta virulência induz-nos a fazer completamente o oposto para o qual estamos predestinados - sobrevivermos como espécie e em comunidade.

Estamos detidos sem mandato na nossa própria casa e sem hora de libertação, mesmo que condicional, assistindo passivamente e a ver a vida a fugir entre os dedos. Nesta incerteza e ansiedade desmedidas, não há lugar a máscaras de carnaval para troçarmos do grande teatro da vida. O medo alastra com a doença. Se o medo nos vence, bloqueamos, açambarcamos e nunca seremos capazes de prover a paz, a solidariedade e a fraternidade, único meio de compreender, fazer crescer e de projetar o futuro do Homem e de debelar a pandemia e as trevas. “Sozinhos” em casa, numa vivência única de coexistência geracional e de trabalho, é tempo para refletirmos que, da nossa quarentena podemos fazer a nossa Quaresma (mesmo os não crentes), treinando a liberdade interior e refletindo, serenamente e de modo idêntico,



  • Que temos de abandonar o supérfluo e focarmo-nos no essencial;

  • Que temos de redescobrir outras rotas de vida que nos façam mais humanos e fraternos, pois só religados poderemos sobreviver;

  • Que temos de ser mais exigentes com quem os governa - a vida de todos merece melhores expetativas;

  • Que a nossa casa comum - o planeta em que vivemos e que atravessa mudanças profundas – não suporta mais “Trumps e Bolsonaros” e estes vão resistir e muito a um Mundo Novo.


Só a reconstrução da “Casa” de cada um, o sermos viajantes de nós próprios (no mais perto e no mais longe do nosso íntimo) nos poderá conduzir, com confiança, a um caminho de esperança, o de transpormos as fronteiras da Vida, qual Fénix renascida na luta pela nossa sobrevivência e pelo nosso Futuro.


     
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