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Paulo Neves: o escultor que embeleza Pinheiro Manso

Paulo Neves é um dos mais renomados escultores portugueses da atualidade. São de sua autoria as esculturas de elevado significado simbólico que decoram a Pinheiro Manso – Residência Sénior (PMRS), nomeadamente no que à capela diz respeito.
Nascido em 1959 em Cucujães (Oliveira de Azeméis – Aveiro), Paulo Neves frequentou a Escola de Belas Artes do Porto, tendo começado por se interessar pela pintura. Mas Portugal é geograficamente pequeno. Maior é o mundo. Com “armas e bagagens”, Paulo Neves juntou-se a outros “descobridores” portugueses e abalou. E assim foi descobrindo novos mundos no Mundo. A sua sede de conhecimento, a sua curiosidade jamais saciada e o seu fácil e agradável convívio fizeram-no atrair amizades por onde passava. Museu por onde passava era visitado, estudado, muitas vezes proporcionando motivos de inspiração para obras que ia formatando na sua imaginação.
Hoje, é autor de obras expostas um pouco por todas as paragens de Portugal. Mas, repetimos, Portugal continuava a ser geograficamente diminuto. E o Mundo continuava a lançar-lhe solicitações irrecusáveis. Presentemente, está representado em países como a Alemanha, Angola, Austrália, Bélgica, Brasil, Espanha, Estados Unidos, França, Holanda, Itália, Japão, Marrocos, Moçambique, Roménia, Rússia, Suíça, Tailândia
Dizem os entendidos que a sua obra tem inspiração renascentista e barroca. Sendo ou não assim, de uma coisa se pode ter a certeza: Paulo Neves criou um estilo muito pessoal, destacando-se assim dos outros escultores. De tal forma isso acontece que se torna facilmente reconhecível como sua, a autoria de qualquer peça, por maior ou menor complexidade de que ela se revista.
Também há quem o considere precoce. O epíteto não será descabido, uma vez que aos 10 anos pegou num cepo de madeira e dele esculpiu um astronauta. Com a alunagem e o passeio de Neil Armstrong, tinha acabado de ser dado “um pequeno passo para o Homem, mas um grande passo para a Humanidade”. Mas aos 7 já tinha dado mostras inequívocas da sua vocação.
De facto, talvez seja a madeira o seu material preferido. Logo seguido da pedra – designadamente, o mármore. E do ferro. Mas os materiais plásticos e sintéticos também não escapam à arte de Paulo Neves.
Recebeu-nos no seu ateliê, rodeado de árvores, mergulhado na natureza, como mais gosta e melhor se sente. É como que um irrecusável chamamento telúrico, a que não se coíbe de obedecer.
Antes de franquearmos a porta do ateliê, passamos por algo que se nos afigura exteriormente um barraco algo tosco – bendita ignorância!... –, mas que esconde uma linda capela, toda “made by Paulo Neves”. Desde os bancos ao crucifixo, passando por peças que simbolizam Maria, Jesus e José, tudo ali transpira a arte e a inspiração do escultor.
Já no ateliê, sentado a uma extensa mesa de trabalho, a conversa começa a fluir, despretensiosa e com a naturalidade com que Paulo Neves encara a sua forma de ser e de estar na vida.

- Afinal, nas Belas Artes, “escapou-se” da pintura para a escultura
- Bem, na verdade do que eu gostava mais era mesmo da escultura. A pintura e o desenho eram mais para pagar as minhas viagens. Vendia os meus desenhos aos turistas e lá ia faturando Compreenda que fazer esculturas numa situação dessas não daria lá muito jeito

- Tem alguma peça de que se recorde particularmente?
- Tenho muitas. Mas recordo com ternura uma escultura que fiz quando tinha 20 anos. Era uma cabeça em madeira, com 1,20 metros de altura, que pintei de branco e com óleo queimado dos motores dos tratores

- Desculpe lá, mas óleo queimado para pintar?!...
- Ah pois, era o que eu tinha à mão. Como não tinha tinta preta, o óleo queimado serviu perfeitamente. Ou quase

- Do seu acervo, intui-se perfeitamente que a madeira é a matéria- prima da sua preferência
- Bem, de facto, inicialmente era só madeira. Mas depois descobri o mármore rosa do Alentejo – Estremoz, Vila Viçosa Seguiram-se o bronze, o ferro e as fibras de vidro. Trabalhei bastante com elas, mas não gosto muito. Sim, realmente do que mais gosto é da madeira e da pedra. A madeira é um material fantástico, vivo. E quando faço peças em madeira é como salvá-las de irem para o lume ou de apodrecerem.

- Como eram as suas primeiras peças?
- Eram pinturas policromadas. Mas, de repente, deixaram de ser.

- Como explica essa mudança?
- Não sei bem porquê. Foi assim, porque sim!... Aconteceu

- Dá-nos a sensação que o Paulo Neves passa o seu tempo praticamente aqui, no seu reduto, rodeado destas bonitas árvores e acompanhado por estes dois cães tão grandes mas tão meigos
- Espere lá! Também gosto de ir à cidade, mas assim que posso, volto mesmo para o meu canto. Adoro a floresta. Acho que as árvores sentem, são seres vivos

- Quem vê as suas obras fica com a ideia de que têm uma certa influência religiosa
-Sim, eu revejo-me numa certa espiritualidade religiosa, mística. Acredito que somos dotados de uma energia superior a nós próprios, responsável pela nossa existência

- Como surgiu a motivação para fazer as esculturas para a Residência Sénior do SBN?
-Um dia recebo um telefonema do Nuno Cardoso, dizendo que ia ser abatido um castanheiro num empreendimento que estava a ser realizado na Rua de Pinheiro Manso e perguntando-me se eu estaria interessado. Fui vê-lo. Era tão bonito! Então respondi-lhe: “Em vez de o comprar, porque não faço um trabalho para ficar aqui na obra?” Toda a gente concordou e assim fiz ressuscitar a árvore, fiz com que ela renascesse, que voltasse a viver, mas de uma forma diferente. A partir daí, criou-se uma relação entusiasmante com o SBN. Gosto muito de vocês! E também gosto muito da vossa galeria, que abre gratuitamente as portas aos artistas jovens e não jovens. Estão a prestar um serviço fantástico à comunidade e logo num sítio fabuloso, por onde, se excluirmos a situação pandémica, passam milhares de pessoas.

- Já que falou na Galeria do SBN, nunca pensou fazer lá uma exposição?
- Sim, sim. A ideia era essa. Tínhamos pensado fazer uma exposição alusiva à época natalícia. Todavia, com esta situação pandémica e o recolhimento a que obriga, quase ninguém poderia visitar a exposição. Mas não hão de faltar oportunidades, quando o país puder voltar à normalidade possível.

- Neste momento, onde e quais peças suas se encontram em exposição e que lhe merecem uma referência mais especial?
-Ui! São tantas. Mas vou citar só algumas, a título meramente exemplificativo. No aeroporto de Porto Santo, para poder ser apreciada por todos os viajantes que chegam ou que partem. À entrada de Ovar, simbolizando seres imaginários que saem da areia. Chegam aos 9 metros de altura. Mas também nos interiores dos hotéis Monverde – em Amarante e na Quinta da Lixa. No grupo Carris Hoteles, em Espanha. Em Banguecoque, uma escultura em mármore de Estremoz com 4,20 metros, colocada à entrada de um grande hotel de 5 estrelas, encomendada por decoradores que têm ateliês em Paris e Nova Iorque

- E a próxima? Já tem uma “carta na manga”?
- Ah pois tenho. É um projeto grande, em mármore, para uma cidade portuguesa, com peças que chegam a atingir 10 metros de altura.

- Qual é a cidade?
- Bem, isso não posso revelar!

-Então fica para a próxima entrevista!...

     
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