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Home»Nortada»Nortada Detalhe Março a Agosto 2020
 
A síndrome de burnout ou uma pandemia no centro de uma pandemia

Vivemos num momento de especial complexidade e estranheza, que lançou (e lança diariamente) desafios sociais e laborais de enorme relevância. A pandemia de SARS-CoV-2 que grassa a nível mundial, e que vem mutilando o tecido socioeconómico português, é um momento histórico na medida em que, em Portugal, desde a chamada gripe espanhola de 1918/1919 que não se verificava uma taxa de mortalidade tão elevada decorrente de uma crise de saúde pública, sendo que o evento mais recente que se possa assemelhar aos tempos actuais foi o da gripe asiática de 1957, que provocou uma enorme morbilidade no nosso país1.

Este contexto pandémico veio agravar uma das questões mais prementes na realidade laboral que é o apelidado síndrome de burnout, considerado por vários investigadores como a “doença das sociedades modernas”2, e que afecta uma enorme franja da sociedade portuguesa (o stress laboral é considerado o principal risco psicossocial, sendo indicado por 53% dos trabalhadores portugueses como tal). Um estudo publicado em 2013 revelou que Portugal está classificado como o terceiro país europeu com maior proporção de trabalhadores que diz que o stress relacionado com o trabalho é “muito comum” (28%), quase o dobro da média na Europa (16%).

As mudanças na sociedade moderna, com uma industrialização pautada pelo aparecimento de um novo advento da inteligência artificial que coloca em perigo os postos de trabalho, na medida em que pressionam com peso de bigorna a dicotomia Homem vs. Máquina, transformam os locais de trabalho em verdadeiros espaços tóxicos, com competitividade exacerbada, comportamentos assediantes e pressões desmedidas para cumprir com parâmetros de resultados pré-definidos – isto, aliado a uma redefinição dos comportamentos sociais que colocam os trabalhadores num ponto muito perigoso e perto do precipício, como aliás resulta desta infografia de Andreas Weber e Jaekel-Reinhard:

É actualmente impressivo o número de trabalhadores que sofrem de esgotamento profissional, muito dele severo, que se pode caracterizar enquanto síndrome de burnout, ou seja, exaustão física e mental. O termo burnout, utilizado originalmente por Herbert Freudenberger em 1974, caracteriza-se “como um distúrbio psíquico de caráter depressivo, precedido de um estado de esgotamento físico e mental, que resulta de um envolvimento de longo-prazo em situações de trabalho emocionalmente exigentes”.

A população de trabalhadores em geral, e dos bancários em particular, já passava por complexas dificuldades que se repercutiam na saúde mental e, por arrasto, física, culminando diversas vezes na síndrome de burnout. A pandemia que vivemos veio agravar este quadro, uma vez que trouxe incertezas quanto ao modo de prestar trabalho, ao local onde se presta o trabalho, ao montante da retribuição, bem como um redobrado receio da perda do emprego, com todas as consequências nefastas que daí advêm e que de tão claras nos escusamos a enumerar. Uma das primeiras acções dos trabalhadores terá obrigatoriamente de ser a de prestarem atenção aos sintomas que poderão indiciar o início de um processo de burnout4:




1. Hiperactividade
2. Exaustão –fadiga crónica e perda de energia
3. Redução de actividade –afastamento, resignação
4. Reacções emocionais –agressividade, comportamentos negativos, cinismo
5. Colapso –alterações cognitivas, falta de motivação e de criatividade
6. Degradação –angústia emocional e quebra de relações sociais
7. Reações psicossomáticas –privação de sono, problemas cardíacos e gástricos, abuso de álcool e drogas
8. Desespero –disfunções psicossomáticas, suicídio

Facilmente se verifica que o contexto de saúde pública actual propicia uma degradação da vida pessoal e familiar, desde logo pelo recurso em massa ao teletrabalho e a necessidade de uma grande franja da população ter sido obrigada a concatenar esta forma de prestação de serviço com a do acompanhamento aos filhos em idade escolar, por via do encerramento dos estabelecimentos de ensino decretados quer com o estado de emergência, quer com o estado de calamidade, degradação essa que terá inevitáveis consequências ao nível do rendimento laboral, criando ou aumentando fricções entre trabalhadores horizontalmente ou com as hierarquias/subordinados.

Nesse sentido, a segunda acção a adoptar pelos trabalhadores será a de, uma vez identificado um sintoma, recorrer aos meios de apoio para minimizar e interromper o impacto negativo que a degradação da saúde mental acarreta: numa primeira ordem de ideias recorrer à medicina no trabalho, que se encontra especificamente definida na Lei 102/2009, de 10/09, e que tem como objectivo a protecção da saúde do trabalhador no local de trabalho.

O contacto do trabalhador com a medicina no trabalho terá de ser feito sem reservas, uma vez que a confidencialidade que está na génese da relação entre paciente e médico toma corpo no segredo médico, previsto nos arts. 29 e seguintes do Regulamento de Deontologia Médica (Regulamento 707/2016, publicado no Diário da República de 21/07/2016), sendo que em qualquer avaliação médica o profissional irá limitar-se a declarar se o trabalhador se encontra apto ou não apto para o trabalho (como decorre do art. 110 da Lei 102/2009), sendo que a ficha clínica do trabalhador “está sujeita ao segredo profissional, só podendo ser facultada às autoridades de saúde e aos médicos afetos ao organismo com competência para a promoção da segurança e da saúde no trabalho do ministério responsável pela área laboral” (vd. art. 109/2 da Lei 102/2009).

A importância de travar o crescendo na degradação da saúde deve-se não só à própria harmonia física e mental que o trabalhador enquanto ser individual deve ter, mas também para evitar que o mesmo, fruto da descompensação psicossomática, incorra inadvertidamente em actos que possam merecer censura jus-laboral em sede de responsabilidade disciplinar. Esta reflexão não é despropositada, até porque é sabido que a Banca tem por hábito produzir normativos internos em quantidades irreais (sendo que não são poucas as vezes que se verificam incongruências entre normativos internos dentro da mesma Instituição Financeira), e que sobrecarregam o trabalhador na dicotomia entre o cumprimento dessas instruções e a obrigação de proporcionar ao cliente o serviço que o mesmo espera obter.

Por fim, a sinalização de algum sintoma ou comportamento dos que citamos deve ser merecedor não só do acompanhamento médico (quer via medicina do trabalho, ver via medicina pública e/ou privada), mas também do acompanhamento das estruturas representativas dos trabalhadores nos Bancos. O recurso a um apoio sindical efectivo que medeie um conflito ou harmonize um local de trabalho convulso, podendo inclusive o mesmo ser também realizado por intermédio de uma advocacia preventiva (ao invés da reactiva, que responde a um facto consolidado) prestada por profissionais do foro do Sindicato afiguram- -se como soluções que devem ser tidas em conta na primeira linha de actuação dos trabalhadores.

Esta reflexão é redigida no decorrer da pandemia a que aludimos no início deste texto, e tornou-se quase uma espécie de “mantra” a repetição de expressões como “vai ficar tudo bem” ou de que “a pandemia é uma oportunidade para…”. Ainda que cépticos quanto a estas exteriorizações de positivismo, somos da opinião que no mínimo poderá servir de ponto de partida para uma maior consciencialização quanto aos sinais físicos e mentais e as suas consequências no espectro laboral e social.


1Isso mesmo nos é ensinado por Luís Graça, sociólogo e professor jubilado da Escola de Saúde Pública.

2Na esteira do estudo de Andreas Weber e Jaekel-Reinhard.

3 European Opinion Pool on Occupational Safety and Health, que pode ser consultado em https://osha.europa.eu/en/facts-and-figures/european-opinion-polls-safety-and-health-work.

4Como apontado por Andreas Weber e Jaekel-Reinhard.

     
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