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O papel do trabalho na economia atual

A desumanização do trabalhador como algo que se utiliza e deita fora quando já não faz falta (Jornal das Beiras – por Oliveira Antunes - Docente do ISCAC)

A teoria económica, desde os seus primórdios, considera como fatores de produção, isto é, como elementos indispensáveis ao processo produtivo de bens materiais, a terra (recursos naturais), o capital e o trabalho.

Sendo que a produção desses bens materiais implica, com maior ou menor esforço, o emprego do trabalho, constituindo os instrumentos criados para facilitar o processo, o capital. Isto é, capital e trabalho são mutuamente dependentes, situando-se no mesmo plano. E no mesmo plano se situam os detentores desses “recursos”: detentores do capital (empresários/capitalistas) e detentores de trabalho (empregados/ trabalhadores).

Uns não vivem sem os outros.

Contudo, temos assistido, historicamente e por razões várias, a um movimento de subalternização do fator trabalho ao fator capital, com particular acuidade desde que se tem reforçado o fenómeno da financeirização da economia.

E nesse movimento insere-se, desde logo, o tipo de expressões utilizadas quando há referências ao fator trabalho: a mais utilizada, porventura, será a expressão “recursos humanos”. Considerando como recurso algo que está passivamente disponível para ser utilizado, cuja utilização depende da decisão e vontade de terceiros, que muitas vezes se guarda (armazena) até ser necessário, colocar neste plano o fator trabalho é reduzir o mesmo a uma significância aquém da que lhe deverá ser atribuída. A força de trabalho, as pessoas, não são recursos. São, isso mesmo: pessoas.

Mais grave do que a expressão “recursos humanos” é a banalização da expressão “capital humano”. Esta expressão, podendo ter na sua génese uma pretensa humanização ou valorização do fator trabalho – é vulgar ouvir dizer que “as pessoas são o nosso principal ativo” – ao atribuir a qualidade de capital às pessoas revela, pelo contrário, uma subalternização do trabalho ao capital e uma enorme frieza na valorização do mesmo.

O capital, sendo ativos tangíveis (máquinas, edifícios, …) ou intangíveis (software, marcas, …) tem, necessariamente, uma tradução contabilística, uma vida útil, um prazo de amortização, um valor residual. No final da vida útil, o capital – os ativos – são alienados, são substituídos.

Será este, então, o conceito em causa quando estamos perante “capital humano” – o trabalho, as pessoas, terão um valor contabilístico, serão “amortizadas” e, no final, descartadas?

As pessoas/os trabalhadores tem de ser tratados com dignidade, no mesmo plano dos detentores do capital, e não como “capital”.

Quem se preocupa verdadeiramente com as condições do trabalho, com a dignidade, com a justa distribuição de riqueza e valoriza o fator trabalho – as pessoas - não pode ficar confortável com a utilização da expressão “capital humano”.

     
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