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A gestão não é uma ciência, mas um saber– disse Clara Quental, do SBN

“Não seremos capazes de tirar da cartola um coelho e dizer quais as medidas e propostas para uma boa gestão, uma vez que cada empresa, cada setor tem um caminho próprio que há de percorrer. A gestão não é uma ciência, é um saber, pelo que se percebe que cada um tem de percorrer o seu caminho para chegar lá.” Estas foram afirmações de Clara Quental, 1ª secretária da MAGCGC do Sindicato dos Bancários do Norte, numa conferência promovida no dia 10 de maio no Porto pelo Conselho Económico e Social. Aquela sindicalista falava no painel sobre “Qualidade da gestão e Concertação Social: propostas e medidas”, e respondia à questão sobre quais, na perspetiva e na agenda da UGT, são os novos temas que, no âmbito da Concertação, permitirão olhar para a produtividade, ligada às implicações salariais e económicas.

Clara Quental sublinhou que a UGT tem na agenda alguns temas importantes, dos quais referiu cinco pontos fundamentais para se conseguir atingir a boa gestão empresarial: “Em primeiro lugar, o reforço do diálogo tripartido; em segundo, o reforço da negociação coletiva em que se vejam consagrados todos os direitos e deveres das partes, com regras e normativos estabelecidos para a gestão; em terceiro, o trabalho com direitos; em quarto, emprego de qualidade, significando menos precariedade e mais qualificação, sendo que as qualificações são essenciais para uma eficaz gestão; a formação ao longo da vida é também importante no atual contexto da digitalização, da robótica, da computorização e dos novos processos de trabalho, fazendo com que muito rapidamente se evolua dentro da empresa, a qual está sempre em mutação para responder a um mercado dinâmico; finalmente, um quinto ponto, que a Organização Internacional do Trabalho já em 2013 citava, mas que com o advento da crise tem sido relegado para segundo plano, que consiste em formas de trabalho ambientalmente sustentáveis, preocupação que deve ser comum a empresários e trabalhadores.”

Colocada depois a pergunta sobre de que forma a UGT olha para a questão do contexto no qual os trabalhadores estão inseridos como fator determinante da produtividade e consequentemente das condições salariais, Clara Quental respondeu que “os trabalhadores estarão muito mais motivados e serão muito mais produtivos se desenvolverem a atividade num ambiente saudável e expostos a uma cultura de empresa que promova o diálogo, observando os preceitos da negociação coletiva e as condições do trabalho, como sejam o respeito pela compatibilização da vida familiar e da vida profissional e incentivos à progressão na carreira, de forma a que se sintam valorizados.”

E salientou também: “Os modelos de flexibilidade existentes não se ajustam à conciliação da vida familiar e da vida pessoal: um trabalhador só poderá ser produtivo se plenamente realizado pessoalmente. Se a empresa não fomenta este tipo de cultura terá trabalhadores desajustados e menos produtivos. Quando referi a negociação coletiva, é muito importante porque clarifica as regras dentro da empresa e isso é benéfico para o trabalhador, mas também para o empresário, porque lhe confere previsibilidade. Da experiência da minha vida profissional no setor financeiro, aquilo que posso afirmar é que a negociação coletiva foi sempre um elemento apaziguador da conflitualidade laboral.”

Mudando de tema, aquela sindicalista acentuou: “Há uma outra questão, que é subterrânea, de que se fala pouco, mas que não posso deixar de referir, salientando a importância de se lutar contra ela. Refiro-me ao assédio moral e sexual em contexto laboral, que serve para descartar trabalhadores e reduzir custos da empresa. São mecanismos que condicionam os trabalhadores e que na minha experiência profissional já obrigaram à criação de um gabinete de crise para lidar com este tipo de situações. Havendo um ambiente pouco saudável e pouco transparente na empresa, os trabalhadores não têm condições de ser produtivos. Só havendo uma cultura empresarial diferente conseguiremos ultrapassar os 66% da produtividade face à média europeia. Para uma boa gestão não é necessário fazer grandes revoluções, basta por vezes ajustar pequenas coisas e melhorar o bem-estar dentro da empresa. Diferentes empresas possuem diferentes modelos de gestão e na mudança não deve haver medo de errar, porque o erro permite melhorias e permite ir mais além.”

Clara Quental terminou assim a sua intervenção: “Sou sindicalista e representante da UGT mas, acima de tudo, sou cidadã deste país e o que eu desejo é que haja um tecido empresarial robusto, produtivo, eficaz, que possa garantir aos trabalhadores não só um salário bom, mas também algumas regalias sociais que lhes proporcionem uma garantia de bem-estar, de direito ao lazer, de direto a desconectar e de direito á conciliação da vida familiar com a vida profissional, entre outros, aspetos que vão para lá de mera discussão sobre o salário. A UGT estará empenhada em colaborar para que tenhamos empresas mais robustas e trabalhadores mais satisfeitos.”

     
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