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Importância da bula nos medicamentos

(Título da responsabilidade da redação)

Por nos parecer sempre atual e de muito interesse para os beneficiários, reeditamos o texto publicado na Nortada 28 (já lá vão cerca de 9 anos), da autoria do Dr. Luís Aguiar, à data diretor clinico do SAMS/NORTE, a quem aqui deixamos as nossas saudações e agradecimentos.

Diálogo 1
Sr. Dr., desculpe mas os comprimidos que me receitou ontem, fizeram- me muito mal. – Então porquê? – Tomei um ontem à noite, conforme me disse, e passei mal a noite, enjoado e com dores no estômago. – Só com um comprimido? Não é costume isso acontecer. – Pois, mas eu estive assim e hoje já não tomei nenhum. Aliás, estive a ler a “bula” antes de tomar os comprimidos e lá diz que isso pode acontecer.


Diálogo 2
Pois é verdade, Sr. Dr., o xarope que me receitou deu-me uma comichão intensa e até me parece que me apareceram umas manchas vermelhas na pele que por acaso já não tenho. – Quantas vezes já tomou o xarope? – Só uma colher de chá à noite. – E ficou logo com esses sintomas? – Cerca de 1 hora depois e hoje de manhã ainda tenho alguma comichão, de maneira que não tomei mais. – É curioso ser só com uma pequena dose e não ser habitual dar esse tipo de reação. – Pois, mas a mim deu-me e aliás li a “bula” e lá diz que essa reação pode acontecer.

Diálogo 3
…e como fiquei com diarreia, deixei a medicação. E além disso a minha mulher, que em tempos também tomou a mesma medicação, quando viu os comprimidos disse-me logo que dariam diarreia e dores abdominais. Disse-me para eu ler a “bula” e lá estava: …”diarreia e dores abdominais”… – Então não tomou mais nenhum? – Eu não, tive receio e como li os efeitos que poderia ter com o medicamento resolvi não tomar e falar consigo.

Diálogo 4
Então, está melhor? – Um pouco melhor mas ainda não estou perfeitamente bem. – Tomou toda a medicação? – Olhe, Sr. Dr. para dizer a verdade não tomei nada. – Não tomou nada? Como assim? – Cheguei a casa e li toda a “bula”, tinha tantas complicações que resolvi não fazer nenhuma medicação…

Diálogos como estes e tantos outros, parecidos ou não, surgem-me diariamente nas consultas. Mas embora fictícios eles servem unicamente como introdução ao tema que, de uma maneira muito simples, irei abordar:

A bula
Esta palavra, embora muito antiga, é hoje em dia também usada com um significado diferente daquele a que habitualmente estamos acostumados. Esta palavra vem do latim e entre outros significados quer dizer: selo, oval ou circular, com ou sem o nome do seu dono e usado em documentos oficiais. Mas de há uns tempos a esta parte começou a ser usada por profissionais de saúde e doentes como sendo um documento com variadíssimas informações que acompanha um medicamento. Ninguém lhe retira o valor que possui sobretudo se expressa em linguagem acessível ao comum dos mortais, o que nem sempre se verifica. Como, quase de certeza, todos já tomaram alguma medicação também é certo que leram a tal bula. De qualquer forma ela possui vários tópicos dos quais quero destacar:
1. Nome do medicamento, bem como o nome da sua composição química, sobretudo como substância isolada, de acordo com a denominação comum internacional.
2. A forma de apresentação (comprimido, cápsula, xarope, supositórios,
etc.) e fórmula em que é apresentado com o conjunto das
substâncias que entram na sua composição.
3. Informações para os utilizadores que vão desde prazo de validade, como conservar, etc. até às informações técnicas nomeadamente como atua o medicamento no organismo e as ações que possui.
4. As indicações que o medicamento possui indicando as patologias ou os sintomas em que deve ser aplicado.
5. Contraindicações, referindo em que situação não se deverá ou não se poderá tomar a medicação e que cuidados se devem ter se eventualmente houver qualquer patologia associada.
6. Efeitos secundários, neste iten são referidos os efeitos secundários que eventualmente poderão aparecer. Se já leram – e com certeza que sim – alguma bula e nomeadamente este grupo verificarão que aparece uma quantidade enorme de efeitos secundários mencionados. Recentemente são até classificados conforme a sua frequência de aparecimento em vários subgrupos conforme são muito frequentes, raros ou excecionais.
7. Por fim outros grupos aparecem com as interações com outros medicamentos, patologias, o que fazer em casos de sobredosagem, etc.

Tal como dito no início deste texto, entendo que a bula é um elemento de grande importância, tal a quantidade de informação que presta a quem vai necessitar de utilizar a medicação à qual se refere. O que me parece muito importante salientar é que não se pode ficar completamente dependente das suas informações e elas serem um elemento de influência e perturbação para o doente que vai utilizar o medicamento. E vou começar por falar por exemplo na posologia que vem referida e que, muitas ou algumas vezes, pode diferir daquela que é proposta pelo médico que a indicou. As posologias referidas são posologias médias mas não “estanques” e só quem observa doentes é que pode estabelecer com mais rigor quer a dose a tomar, quer o intervalo entre as tomas e a melhor altura de as tomar. Não alterem as indicações dado que essa alteração pode ser prejudicial para o tratamento e evolução da doença podendo criar perturbação e instalar dúvidas quanto à eficácia da medicação e obrigar inclusivamente a alterar a mesma. Outro aspeto muito importante a salientar é o que se refere aos efeitos secundários que se podem dever ao medicamento. Como devem calcular, qualquer medicamento antes de ser aprovado pelos organismos responsáveis é sujeito a complicados e inúmeros testes entre os quais se estuda duma maneira exaustiva e rigorosa os efeitos que a sua administração causa em doentes. Conforme a frequência com que esses efeitos se manifestam são classificados em raros, pouco frequentes e frequentes (entre outras classificações). O facto de se fazer notar que podem manifestar-se efeitos secundários não quer dizer que vão aparecer. E é aqui que eu gostava de deixar uma palavra fruto talvez da experiência que muitos anos de clínica me concede. Quantas e quantas vezes a simples leitura da bula e dos efeitos que a medicação pode causar é um facto determinante para que o doente sinta alguma dessas manifestações. Não quero dizer que muitas vezes, inúmeras mesmo, não apareçam esses efeitos. O que saliento é que também o fator psicológico é determinante para que o doente refira exatamente que sente o que lá está descrito. Então em que é que ficamos? Que ensinamento prático deve ser tido em conta? Ler a bula sim porque todos a leem e mesmo que eu dissesse para não ler todos a continuavam a ler ou então iriam mesmo lê-la os que até aqui não leram. O que se deve ter em atenção é o poder informativo que a mesma contém e seguir rigorosamente as indicações que os vossos médicos derem e caso sintam algum efeito com a toma da medicação falem com o médico e não suspendam a medicação sem o seu conhecimento. Quantas vezes a suspensão, ou alteração, de medicação sem o conhecimento médico é duma importância enorme na evolução da patologia e da ineficácia terapêutica? Bula? Sim mas com conta, peso e medida para que seja um elemento informativo e até formativo, um auxiliar do utilizador do medicamento mas não seja por si só um indutor de falsas informações e abandono de medicação

     
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