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CARLOS SILVA NO 1º DE MAIO DA UGT

Sindicatos “independentes”? Sim, mas

“Agora anda muita gente preocupada com o surgimento de sindicatos independentes, que não se filiam nas centrais sindicais. Se algo se conquistou com Abril em 1974 foi a liberdade de associação, a liberdade sindical e de expressão, bem como o direito à greve. Os comentadores de serviço acham que estes novos sindicatos não se reveem na atitude do sindicalismo tradicional. Na UGT sempre combatemos a unicidade sindical, porque haveríamos agora de a querer impor a outros?”– sublinhou Carlos Silva, nas comemorações do 1º de Maio promovidas em Braga pela UGT, sob o lema“Dignificar o trabalho, valorizar os trabalhadores”.
Aquele dirigente precisou:“Claro que preferimos o sindicalismo que prefere negociar primeiro e só em última instância parte para a luta; os dirigentes que sabem o valor da estabilidade e da paz social; o credo que fazemos nos valores da OIT, que estabelecem o diálogo social para criar pontes de entendimento e não de conflito; a aposta que sempre fizemos na negociação coletiva, como forma de resolver os litígios laborais e fazer emanar leis que regulem o trabalho e as suas novas formas.”
E acrescentou:“A luta sindical sempre foi pautada pelo exercício de agendar greves como último recurso para dirimir conflitos, e não como arma de arremesso de primeira instância; sempre entendemos que a melhor greve é aquela que não temos necessidade de convocar; e se surgem novos sindicatos, com outro grau de agressividade e de mobilização, então é melhor a nossa sociedade refletir sobre o porquê desta nova realidade.”
Não se escusando de apontar responsabilidades, acentuou:“Sobretudo quem tem de se preocupar são todos aqueles que permitiram, durante os anos da crise e da troika, que se impusesse o bloqueio e a quase destruição da negociação coletiva, os cortes salariais, o congelamento das carreiras profissionais e a quase ostracização dos sindicatos.”
E as consequências não se fizeram esperar:Foi este forte ataque aos direitos dos trabalhadores que potenciou este crescimento de sindicatos sem qualquer vínculo às confederações sindicais tradicionais – e para milhares de patrões deste país, que sempre olharam para os sindicatos como um empecilho e até como alvos a abater, nestes casos vão negociar com quem? Quem será o interlocutor? Que grau de confiança podem merecer aqueles que não permitem que sindicatos que representam trabalhadores nas suas empresas, os deixem lá entrar, para defender e serem a voz dos que têm medo de enfrentar o patrão? É preciso que o surgimento destes processos reivindicativos mais agressivos e descontrolados consciencializem os empregadores de que há que valorizar os sindicatos tradicionais, que apostam na negociação e no diálogo. E por isso não podemos aceitar que os partidos se disponham a discutir a Lei da Greve, devido a este fenómeno, prejudicando quem sempre pautou o seu comportamento pela decência e pela lucidez.
E Carlos Silva lançou o repto:“Que estes novos acontecimentos não embalem o Parlamento para restringir os direitos dos trabalhadores, porque perdas de direitos tivemos muitas nos tempos da troika. E isso basta para dizermos ao país: Não aceitamos mexidas na Lei da Greve.”


Mais diálogo e mais negociação

O líder da UGT passou depois ao tema do diálogo e da negociação:“Se na Administração Pública existe conflito, no sector privado continuamos a reivindicar aos empregadores mais diálogo e mais negociação.”A seguir, a precariedade:“O combate à precariedade é uma luta do nosso tempo. E os mais jovens merecem este nosso empenho, tal como os nossos pais e avós lutaram pela democracia e pela liberdade. Eles merecem estabilidade, tanta quanto a tiveram os seus pais e avós. A instabilidade laboral é perniciosa para quem a sofre. Mas também é fomentadora da incapacidade de se criar um quadro que permita assentar a vida de quem quer constituir família e contribuir para que a erosão da nossa demografia se inverta. Se no primeiro trimestre de 2019 se verificou uma alteração do número de nascimentos em Portugal para melhor, em comparação com 2018 e o melhor rácio dos últimos sete anos, certamente tal clima de confiança advém da maior estabilidade no emprego e da redução do número de desempregados.”
E a relação com a Segurança Social:“Aqui também se verifica uma consolidação nas contas da segurança social, com menos encargos nos apoios aos desempregados, face à criação de mais postos de trabalho e, por conseguinte, mais contribuições para a segurança social.”
A relevância da idade da reforma:“A UGT já fez saber, por diversas vezes, em sede de concertação social, que as nossas propostas vão no sentido de voltarmos a ter uma idade de reforma fixa, que permita aos trabalhadores planear com antecipação e certeza a sua saída da vida ativa.
Luta pela igualdade de géneros:“Não é possível continuarmos, em pleno sec. XXI, a aceitar que as mulheres recebam em média menos 20% de salários do que os homens, apenas pelo facto de serem mulheres. Importa que possam ascender a mais cargos de administração, seja no setor público, ou no privado. Importa que as candidaturas a cargos políticos tenham uma participação ainda mais ativa de mulheres, incluindo nos partidos políticos.”
Passando ao ensino e à formação:“A UGT continua a reivindicar do Governo uma clara aposta no ensino e na formação profissional. Importa ficar bem vincado que as qualificações são essenciais para que os trabalhadores possam procurar outras alternativas no mercado de trabalho, num tempo de grandes incertezas provocadas pela robotização, automação e economia digital. O apoio aos centros protocolares do IEFP não pode ser regateado, pois estes centros de formação profissional têm sido exemplares na complementaridade que têm promovido com o IEFP e com o envolvimento de dezenas de milhares de trabalhadores em ações formativas, com o objetivo de melhorar as suas competências técnico-profissionais.”
Carlos Silva referiu-se depois ao desenvolvimento do interior do país:“O combate pelo desenvolvimento do interior e dos territórios de baixa densidade deve ser um combate nacional. Seja com a descentralização de competências, seja com a regionalização, que só peca por tardia, o país tem necessidade de promover a sua coesão territorial e de valorizar o seu interior, de combater o seu despovoamento, de fixar populações e empresas, de criar empregos. Dê por onde der.”

Lucinda Dâmaso:

“Não esquecer o que falta conquistar”

Antes, tinha falado a presidente da UGT, para recordar que naquele momento os manifestantes se encontravam a comemorar as muitas conquistas para os trabalhadores já alcançadas mercê do firme empenhamento da central, garantindo que a UGT continuará a empenhar- -se no diálogo e na conciliação, acrescentando:“Mas não podemos esquecer tudo quanto ainda falta conquistar, designadamente a nível do combate precário – todos têm direito a um trabalho digno e de qualidade –, e da luta contra a pobreza e pela igualdade de género.”A termninar:“Vamos continuar a pautar-nos pelo privilégio da defesa da paz social e da estabilidade, como fatores decisivos para o desenvolvimento social e económico do país.”

Ricardo Rio: diálogo e concertação

Todavia, o primeiro orador da tarde foi o presidente da Câmara Municipal de Braga, enquanto anfitrião da manifestação. O autarca salientou a importância do diálogo e da concertação, “sem o que não se consegue a realização social e o desenvolvimento económico” preconizando depois a concretização de“uma verdadeira agenda para promover a conciliação da vida profissional com a familiar”.
Por último, referiu ser“insustentável continuar a viver-se uma situação de enorme dificuldade no acesso ao trabalho”ao mesmo tempo que “é imperativo caminhar no desenvolvimento de mecanismos que permitam aos trabalhadores aceder a uma cada vez melhor qualificação profissional”.


César Campos: unidos e mobilizados

Seguiu-se o presidente da União de Braga da UGT, César Campos, salientando que,“se dúvidas houvesse, basta olhar para a enorme moldura humana que preenche este magnífico espaço, para verificarmos que os trabalhadores Portugueses estão unidos e mobilizados na defesa daquilo que são os seus direitos e os seus interesses e na defesa da sua dignidade que, infelizmente, em pleno século XXl ainda é, muitas vezes, colocada em causa; e isso, nós não podemos aceitar.A seguir, aludindo à circunstância de Braga ser a cidade mais jovem do País, afirmou:“Sendo os jovens o garante do futuro, a garantia da sustentabilidade da Segurança Social, a garantia da continuidade do pagamento das pensões aos mais idosos, a garantia de um País mais justo e mais solidário, não posso deixar de manifestar o meu repúdio relativamente à forma como esses mesmos jovens são hoje tratados aquando do ingresso no mercado de trabalho. Se por um lado reconhecemos e aplaudimos o número de postos de trabalho criados nos últimos anos, por outro não podemos deixar de lamentar os elevados índices de precariedade verificados. Compete-nos, a todos nós, combater essa prática e ajudar esses mesmos jovens a ter uma vida digna, com a estabilidade necessária para poderem delinear o projeto de vida em harmonia com a família, de forma a poderem olhar o futuro com esperança. É esse o legado que todos nós temos obrigação de deixar aos nossos filhos, um futuro digno, um futuro de desenvolvimento, um futuro de progresso, um futuro em que os valores da solidariedade, da fraternidade e, sobretudo, o da família, sejam uma realidade."
Todavia – referiu –, “para isso, muito trabalho há ainda a fazer; desde logo, criar condições para que todas as famílias tenham, pelo menos, um dia por semana para poderem privar, conviver e, dessa forma, serem felizes juntos”.
E recusou que tal objetivo seja uma utopia: “Tem que ser um desígnio nacional. Temos que refletir sobre que tipo de sociedade queremos para o futuro. Se uma sociedade individualizada, egoísta e solitária, ou, pelo contrário, uma sociedade justa, solidária e social.”

     
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