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Home»Nortada»Nortada Detalhe Julho e Agosto 2018
 
Os excelentes banqueiros e os “péssimos” bancários

Segundo a Associação Portuguesa de Bancos (APB), a capitalização bolsista do setor financeiro, que em 2007 era de cerca de 22 mil milhões de euros, chegou a descer para 2.828 mil milhões nove anos depois, tendo recuperado para 5.820 mil milhões no ano transato. Estes dados, vistos isoladamente, podem indiciar muitas coisas – e o contrário também!... A prudência aconselha, pois, um exame atento dos factos e das respetivas causas e efeitos.

Se se começar pelo princípio, imediatamente chama a atenção a exorbitância dos números de 2007. Causa? A magnífica e impoluta gestão de conceituadíssimos banqueiros da nossa praça, que geriam as instituições de modo a fazer inveja à concorrência internacional. O facto de, por isso mesmo, alguns bancos terem submergido – forma simpática de dizer que foram “por água abaixo” – e de alguns banqueiros terem sido condenados pela justiça (mas não presos, talvez para não poluírem os já tão degradados estabelecimentos de encarceramento), é um pequeno pormenor, para utilizar uma expressão aparentemente redundante, visto que um pormenor já é, por definição, algo de pequeno. Todavia, nesta matéria das habilidades dos bancos, há pormenores que se distinguem pela sua elegância, beleza e, sejamos justos, magnificência.

Apenas quatro exemplos desta asserção foi o que se passou com a resolução de bancos, com montantes exorbitantes no crédito malparado, com desvios de somas fabulosas para paraísos fiscais, com entregas sub-reptícias do vil metal a amigos.

Tudo isto pertence ao grupo dos pequenos-pormenores. Senão, vejamos: Desaparecerem alguns bancos foi excelente, porque apareceram outros e os investidores tiveram oportunidade de mudar. Estamos, pois, no domínio da criatividade e da inovação, em que o nosso país é tão carente. O crédito malparado obedece simplesmente a uma lei da física: como a situação já era descendente e o crédito estava parado, embora mal, havia que sujeitá-lo à gravidade, pondo-o a mexer, neste caso rumo ao buraco (ora, isto é da maior gravidade, ou não?). As generosas dádivas a amigos configuraram gestos da maior nobreza, porque a amizade, a fraternidade e a solidariedade não podem ser apenas conceitos vãos.

Ao grupo dos “pormenores” maiores fica, pois, a consequência de estes atos da mais abnegada gestão terem colocado de rastos o sistema financeiro português, provocando uma enorme crise de confiança dos investidores.

Bem, também não é necessário exagerar. O problema, bem vistas as coisas, não é assim tão grave: o Zé lá está para pagar estes festins! Mas, continuando com a análise inicial, tentemos encontrar os culpados, ou, quando menos, os responsáveis. Depois de aprofundados estudos obrados por numerosas agências internacionais do mais elevado coturno, chegou-se, enfim, à conclusão de que os culpados, perdão, os responsáveis, que, esses sim, deveriam ir todos parar aos calabouços, foram os trabalhadores!...

Como merecido castigo, cerca de 11 mil já foram defenestrados (sim, dizer que foram atirados pelas janelas é mais simpático do que referir que arrecadaram uns pontapés no términus das costas pela porta fora). Malandros! Andavam a viver à custa do orçamento!... E o facto de 11 mil despedimentos – perdão, “mútuo consentimento” é muito mais fino!... – significar que foram afetadas indiretamente cerca de 40 mil pessoas ligadas aos despedidos (perdão, aos “mutuamente consentidos”…) – volta a ser um pormenor pequeno. Porque, afinal, estamos apenas a falar de pessoas, o que, no léxico banqueiro, significam algo perfeitamente despiciendo.

Para terminar, registe-se que nos últimos seis anos foram encerradas 1.895 agências bancárias. É pouco! Sim, porque as agências só servem para manter alguns bancários e para servir populações, ou seja, pessoas. Este é, afinal, o grande problema da banca portuguesa: pessoas. Sejam elas bancários, seja o público. Enquanto existirem pessoas, alguns dos nossos banqueiros não descansarão do seu elevado objetivo: votá-las a um olímpico desprezo, enquanto continuam a destinar para si próprios salários mais elevados e muito gostosas prebendas…

Os trabalhadores…? Esses que se cuidem…

     
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