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O silêncio e o mar

Ângelo Henriques (Artigo publicado no Jornal Terras da Beira (Guarda) em 2017.02.16)


Neste início de 2017, uma das minhas vertentes lúdicas foi ver dois filmes que vivamente recomendo aos meus caros leitores: ”Manchester By The Sea” e ”O Silêncio”, onde a profundidade mais recôndita que transmitem sobre a complexidade do ser humano e a sua capacidade reconstrutiva da vida merece um olhar rasgado, demorado e distendido, pelas águas calmas ou revoltosas do mar de cada um.

Na cidade americana de Manchester (estado de New Hampshire), a tragédia familiar da perda de dois filhos num incêndio e o abandono posterior da mulher leva Lee Chandler (Casey Affleck), que se sente culpado do sucedido, a ir trabalhar para Boston onde é porteiro e homem de sete ofícios no condomínio cuja cave habita. Cave triste e vazia, a expressar como que uma espécie de castigo a que o próprio se impôs depois do que aconteceu no passado e transforma-se num tipo solitário, anti-social, taciturno, brigão. E Boston tem mar. E Manchester, 85 km a norte, é banhada pelo rio, onde o irmão de Lee pescava e era na pesca que a infância tinha sido passada com o sobrinho e o irmão. Este, entretanto, viria a falecer e Lee vê-se obrigado a ser o tutor do jovem sobrinho, função que não consegue aceitar, porque reconhece ser um homem devastado e impreparado para assumir um processo que o obriga a “ser“ adulto, a estar vivo.
O filme que decorre em duas linhas narrativas temporais, faz com que o espetador só cerca de uma hora depois do mesmo começar, se aperceba, por repentinos flashbacks, o que aconteceu de trágico na vida de Lee e lhe permita caminhar ao lado da sua raiva interior, da dimensão trágica do sucedido, da perda e da cruz que carrega. Há razões para continuar a viver, mesmo depois de passarmos por tragédias pessoais? Ou ficamos paralisados no inverno do nosso descontentamento?

No filme “O Silêncio” é relatada a odisseia da evangelização dos Jesuítas no Japão no Séc. XVI e XVII, onde se integra a história de renúncia à fé cristã por parte do padre Cristóvão Ferreira (Liam Neeson) que foi perseguido, martirizado e era considerado um missionário de referência.
O filme e o seu enredo histórico permitem um tratado de teologia mas, aqui e agora, apenas relevo o grande desafio que o mesmo nos coloca – a apostasia, a renúncia, clara ou oculta de quem é crente e, sobretudo, do propagador da fé. E o “motor de busca” é o atroz silêncio de Deus (daí o título do filme) perante a solidão humana, a luta pela fé em ambiente adverso e de martírio, as dúvidas e incertezas dos padres jesuítas sobre as próprias crenças e suas contradições com que se deparam perante a filosofia do mundo oriental.
Quando o sagaz inquisidor japonês se apercebe que o massacre de cristãos é contraproducente, pois o seu martírio é uma prova de fé e de glorificação, servindo de exemplo frutificante para quem fica, opta por “arrancar a alma“ dos cristãos convertidos e dos próprios padres - pede que renunciem. E, para isso, há que pisar o fumi com a imagem de Cristo e, concomitantemente, alguns nativos cristãos deixam de ser torturados. Deus é traído quando se pisa a imagem de Cristo pelos que O seguem e Nele acreditam?
“É um filme que nos obriga a confrontarmo-nos com a fragilidade da própria experiência de fé. O que vale mais? As pessoas torturadas ou a imagem que os missionários em vários momentos são convidados a pisar? É nesse momento de rutura que eles percebem que Deus não fala só dentro deles, mas através da realidade, através dos outros. E é nesse momento de compaixão pelos outros que o silêncio de Deus se quebra e o conseguimos escutar”(1).

Dois vetores unem os dois filmes: (I) A fragilidade humana traduzida no abismo do silêncio interior, no sentirmo-nos sós e abandonados (qual Cristo a exalar o último suspiro na cruz) sem Deus nos apontar o caminho, na turbulência de sentimentos e de vivências tão díspares e angustiantes. O sofrimento, a perda, as aflições e desgraças que a qualquer momento e do modo mais inesperado, por vezes injusto e imerecido, nos confrontamos. Quem merece ou desmerece o quê aos olhos de Deus? E aos dos Homens? E o que faríamos nós no lugar dos protagonistas? (II) O mar. O mar que levou os nossos descobridores ao Japão e onde são crucificados os cristãos convertidos, sufocando com o encher da maré. O mar, o rio, o barco que uniu na infância tio e sobrinho na pequena cidade do leste da América - mar que levou a esperança e trouxe a desilusão.

Embora nas altas serranias e nos vales profundos da nossa Terra, “da varanda da nossa casa não se aviste o mar”(2), todos sabemos que navegar é preciso nos mistérios da Vida e das nossas crenças e “Quem quer passar além do Bojador tem que passar além da dor. Deus ao mar o perigo e o abismo deu, mas nele é que espelhou o céu”(3).



Citações:
(1) Excertos da entrevista do Padre Jesuíta José Maria Brito ao Jornal “Público” sobre o filme “O Silêncio“ em 2017/01/20.
(2) Expressão que identifica a crónica neste Jornal de José Ferraz Alçada.
(3) Fernando Pessoa in “Mar Português, Mensagem”.

     
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