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A sustentabilidade para que nos serve?

Paulo Fonseca – Delegado sindical do Millennium/BCP Vila Real


A sustentabilidade é um tema atual, mediático e de importância crescente na estratégia das empresas. Diversas entidades e estudiosos têm alertado para o problema de uma forma sistemática, pelo menos desde 1972 com a publicação do livro “Limits to Growth”, que nos diz que, se a população e a utilização dos recursos continuassem a crescer ao ritmo da época o planeta esgotar-se-ia em cem anos A principal preocupação dos alertas que têm vindo a ser feitos, é sensibilizar os decisores mundiais para a utilização sustentável e equilibrada dos recursos, de forma a manter o equilíbrio nos ecossistemas na Terra. Estes alertas tiveram eco, levando à realização em 1992 da cimeira da Terra, também conhecida por Conferência do Rio, que reuniu mais de 170 países no Rio de Janeiro. Desta conferência saíram as bases para a implementação do desenvolvimento sustentável, designadamente ao nível local, por meio de um documento denominado “Agenda 21” (ainda atual nos dias de hoje), com várias recomendações para que o crescimento se faça de forma equilibrada, tendo em conta não só a quantidade, mas principalmente a qualidade de vida. O termo desenvolvimento sustentável foi popularizado pelo livro “Our Common Future”, editado em 1987 pelas Nações Unidas, que o define (ao desenvolvimento sustentável) como um modelo de desenvolvimento económico capaz de “Satisfazer as necessidades humanas atuais, sem comprometer a capacidade das gerações futuras suprirem as suas próprias necessidades”.
De um modo geral, podemos dividir a sustentabilidade em três componentes: económica, ambiental e social. É da interação destas três componentes da sustentabilidade que ela emerge como uma solução para os problemas mundiais e base do paradigma da economia verde.
De uma forma resumida, podemos dizer que a sustentabilidade económica e ambiental se focam nos problemas relacionados com a interação entre economia e ambiente, propondo soluções como a eco-eficiência, que significa em geral mais valor com menos impacto para o ambiente.
A sustentabilidade social, depende da sustentabilidade económica e ambiental do planeta, das regiões, das cidades, e atenta à salvaguarda dos direitos humanos e da qualidade de vida em geral, ao acesso à saúde, educação, direito à liberdade de associação, eliminação do trabalho forçado, abolição do trabalho infantil, eliminação da discriminação relativa ao emprego, etc. Para nós, na nossa qualidade de organismo de defesa dos interesses dos trabalhadores, Sindicato dos Bancários do Norte (SBN), interessa-nos, em particular, o relacionamento entre empresas (bancos) e trabalhadores. Não basta para uma empresa poder ser catalogada como sustentável, que se paute pelas melhores práticas ambientais, que reduzem a peugada ambiental e os seus custos financeiros, e que desenvolva políticas de âmbito social para projetar a sua imagem na sociedade. É fundamental que apresente as melhores práticas no que respeita à qualidade e condições do trabalho, que se preocupe com a melhoria de vida, formação, informação, saúde física e psicológica dos seus trabalhadores, para que estes alavanquem potenciais ganhos para a empresa a longo prazo. A sustentabilidade nas empresas surge agora, cerca de 45 anos depois dos primeiros alertas, devido à proximidade do anunciado colapso. Em 2050 seremos nove biliões de pessoas na Terra, que é necessário alimentar e satisfazer de outras necessidades. O atual modelo económico, criado na década de 30 e que mede o desenvolvimento humano pelo denominado PIB (Produto Interno Bruto), verificou-se inapropriado, porque considera inesgotáveis muitos dos recursos naturais, não tendo em consideração os conflitos sociais e sindicais, a eficiência de certos recursos, etc. (note-se que o PIB = consumo privado + investimento + consumo público + (exportações – importações)).
Tendo em atenção o cenário planetário de longo prazo, a sustentabilidade passou a ser estratégica para as empresas e uma questão de sobrevivência a longo prazo. Estas passaram a considerar outros riscos para além dos financeiros, como os ambientais, climáticos e sociais. Por outro lado, os investidores estão cada vez mais atentos a este tipo de riscos não financeiros do negócio, que passaram a estar relacionados com as estratégias das empresas. Contudo, para que a estratégia assente na sustentabilidade e seja incorporada de forma positiva pelos acionistas, em primeiro lugar, e logo a seguir pelos obrigacionistas e pelo público em geral, é necessário criar mecanismos que permitam a sua difusão.
A comunicação é um facilitador que ajuda as partes a convergir no mesmo sentido. Hoje, a globalização obriga a um maior intercâmbio económico, social, cultural, religioso, etc., tornando o conhecimento das civilizações num conhecimento global, a denominada civilização humana.
O aumento do relacionamento entre os povos e a consequente diminuição das assimetrias entre as diferentes culturas, ficou a dever-se à perceção do código existente na mensagem, sendo que, quanto maior for a sua perceção melhor se compreende o risco, permitindo obter melhores formas de o combater, diminuindo-o e criando a perceção do seu real valor em todos os interessados (clientes, trabalhadores, acionistas, Estado e sociedade em geral). A mensuração dos resultados relacionados com a sustentabilidade, para serem percebidos, obriga à homogeneidade nos critérios de obtenção e tratamento de dados de forma transparente. Com este fim, existem várias organizações governamentais e não governamentais, como a WBCSD (Word Business Council for Susteinable Development) que, através de um consenso com os stakeholders, tem trabalhado para standardizar critérios, tanto de mensuração como de quantificação (rácios). São critérios gerais que se podem aplicar a todas as empresas, ou critérios específicos, que se aplicam a cada setor ou empresa, dependendo da sua especificidade.
Os dados previsionais obtidos através do cálculo dos rácios, são transpostos para um relatório denominado “relatório de sustentabilidade”, documento elaborado para 3 anos, que contém a estratégia da empresa em termos de sustentabilidade, os objetivos e a forma de os atingir. Este documento, associado a questionários e a um acompanhamento por empresas especializadas, como a “RobecoSam” ou “VIGEO”, quantificam a sustentabilidade das empresas permitindo a sua entrada em certos índices financeiros de sustentabilidade, como o “Dow Jones Sustainability”, Euronex Vigeo Europe 120” ou “Ethibel Excelence Europe”. A vantagem de pertencer a estes índices traduz-se numa vantagem económica e financeira, posicionando a imagem da empresa, atribuindo-lhe um menor risco qualitativo a longo prazo, o que origina uma maior atratividade de investidores, e por outro lado, ganhos financeiros derivados de um menor custo a pagar pelo capital.
Neste contexto os sindicatos e os trabalhadores, que com as suas atitudes podem influenciar o futuro sustentável das empresas, e delas não podem ser excluídos, têm de ser vistos não como um problema, mas como parte da solução para a sustentabilidade da empresa. Os acionistas arriscam o capital, mas decidem os comportamentos das empresas para assegurar o retorno do seu dinheiro mais os ganhos previstos. Os trabalhadores, mesmo sem interferir diretamente na gestão, também arriscam, arriscam a sua qualidade de vida (ausência do meio familiar, falta de atenção aos filhos, divórcios, etc.) e por vezes a própria vida (doenças profissionais, stress, problemas psicológicos, cardiovasculares e outros, como o crescente número de suicídios por excesso de exigências laborais aos trabalhadores). E a vida, essa, não tem preço.
É certo que sem investidores não existem empresas comerciais, da mesma forma que sem trabalhadores e sem a sociedade também não existem empresas, logo não existem lucros para os investidores. Assim, a solução para a sustentabilidade nas empresas, que garanta a sua sobrevivência no futuro, passa sempre pelos trabalhadores. Uma estratégia que envolva a participação, as preocupações dos trabalhadores e permita ganhos para ambos, tipo “win win”, é meio caminho andado para garantir o futuro de ambas as partes.
Para terminar falta referir uma variável muito importante, pequena na palavra, mas grande na ação. Chamamos-lhe luta, que na mão das pessoas certas, nos lugares certos possui um alcance exponencial, para garantir o equilíbrio social e a melhoria dos nossos direitos.
Nós os bancários também temos de ser sustentáveis!

     
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