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Reformado como problema é visão míope do futuro

Paulo Coutinho

Desde há já bastante tempo que os temas da longevidade, da reforma e do envelhecimento me têm vindo a despertar um particular interesse. Provavelmente, a inevitável aproximação da reforma, a que todos estamos ligados, possa ter contribuído para esse interesse e para a reflexão que tenho vindo a fazer.
Confesso, todavia, que após ter estado com um antigo colega reformado, na altura meu superior hierárquico, e de ter ouvido o seu relato, em discurso direto, não pude deixar de partilhar convosco este episódio.
Encontrei-o, há dias, na entrada do nosso edifício do SAMS, em S. Brás. Reconhecemo-nos e os instantes seguintes, à mesa do café mais próximo, foram daqueles momentos que durante muito tempo irão perdurar na minha mente.
Estávamos, ambos, muito diferentes. A idade não perdoa e trinta anos é muito tempo.


“… um ponto é fundamental debater: o respeito e a dignidade da sociedade e das organizações para com os menos jovens e reformados.”


Reformado, há mais de uma década, contou-me como foi difícil, na altura, encarar o “convite” para a rescisão contratual ou, em alternativa, para a reforma antecipada. Chocado, magoado e revoltado com o tratamento desumano e injusto do banco, para o qual sempre deu tudo, sem regras e horários definidos, relegando a família para último lugar, assegurou-me que o inesperado fim de uma rotina que lhe dava um propósito diário e um sentido de utilidade na vida lhe criou tantos e tantos problemas que hoje, sente, para além de uma enorme frustração, um enorme arrependimento.
A minha mulher dizia-me todos os dias: “Vives mais para a banco do que para a casa.” Era uma realidade, reconhece, “mas o trabalho, para mim, era tudo…”.
Conta-me, com os olhos humedecidos, alguns acontecimentos, quase dramáticos, originados pelo stresse e pela pressão. Nos primeiros tempos não dormia, andava ansioso, irritado e, confessa-me, algo embaraçado, que frequentou e ainda frequenta o psiquiatra do SAMS. “Um ótimo médico e uma formidável pessoa humana que me tem ajudado, ao longo dos anos, a continuar por aqui…”.
Despedimo-nos, com comoção, não sem antes ter tentado transmitir-lhe algum ânimo, relatando-lhe exemplos de colegas e amigos que tinham superado esta fase de vida e que agora se encontram entusiasmados e envolvidos em múltiplas tarefas e atividades de cariz social, algumas, até, no âmbito do nosso sindicato.
Este episódio despertou-me para duas ou três realidades, distintas, mas que se cruzam num ponto que é fundamental debater: o respeito e a dignidade da sociedade e das organizações para com os menos jovens e reformados.
Sobre este assunto não resisto de mencionar um facto que recentemente nos foi relatado e que me impressionou.
No âmbito de uma reunião da contratação coletiva, em que se discutiam questões salariais, o Conselho de Administração de um dos maiores bancos da nossa praça propôs à Febase que não tivesse posições “fundamentalistas” no que se refere aos bancários reformados, nomeadamente no que diz respeito aos valores das suas pensões.
A mensagem foi clara: “Deixem de lutar pelos reformados“. Perdoem- me o desabafo, ainda bem que os dirigentes do SBN estavam presentes na tal reunião…
Sobre a reação da sociedade ao envelhecimento acelerado, à discriminação face à idade, à participação e à integração do reformado na vida social, muito há a dizer.
É verdade que o envelhecimento acelerado da população, sendo uma conquista da civilização e um reflexo da melhoria de esperança de média de vida, coloca novos desafios à economia e à organização social.
Mas é falso que o envelhecimento seja a grande causa dos problemas económicos, como é falso que reformar antecipadamente constitui um alívio para a economia.
Não nos esqueçamos que a nossa maior riqueza são as pessoas e que não devemos prescindir delas, qualquer que seja a sua idade.
O que a sociedade tem que fazer é repensar os atuais sistemas e o modo como nos organizamos em termos de ciclo de vida.


Não nos esqueçamos que a nossa maior riqueza são as pessoas e que não devemos prescindir delas, qualquer que seja a sua idade.


Por outro lado, o aparecimento dos denominados “jovens reformados”, com especial incidência no setor financeiro, vem colocar em causa a clássica trilogia dos ciclos da vida: a infância/juventude, o período adulto e a velhice.
A estas fases é agora necessário acrescentar uma nova, entre o abandono da profissão (o marco de entrada na velhice deixou de ser a passagem à reforma) e a velhice.
Mas tudo isto levanta novos problemas, novas questões, às quais voltaremos em breve.
Uma coisa é certa, ver o reformado como um problema é ter uma visão míope do futuro!

     
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